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Basquiat: janela do passado e do presente

Basquiat: janela do passado e do presente

Por Gustavo Quevedo Ramos, Beatriz Moraes Olivetti, Felipe Cezar – Fala! Cásper


Você acorda no meio da noite com o barulho de sirenes na rua. São os carros da polícia dobrando a esquina para iniciar uma perseguição. Os sons da cidade são abafados pelas paredes de concreto pichadas que te cercam, criando uma atmosfera densa, quase sufocante. Elas te obrigam a recolher seus poucos pertences, algumas latas de spray, e a sair para a rua tingida pelas luzes néon das boates que estão lotadas por jovens que cantam, se drogam e grafitam as paredes. Mais uma noite comum em Nova York no início da década de 1980, parte da realidade em que surgiu Jean-Michel Basquiat.

E é essa experiência que o CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil) traz para São Paulo com a exposição Jean-Michel Basquiat Obras da Coleção Mugrabi. A coleção estará em cartaz até o dia 7 de abril, contendo 80 obras que traçam uma retrospectiva do artista. Elas revelam seus traços, técnicas, inspirações e sua realidade. Desta forma, mostram as características de um artista que viveu intensamente uma vida curta e quebram os diversos mitos que foram contados sobre sua trajetória.

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Filho de imigrantes, com mãe porto-riquenha e pai haitiano, Basquiat nasceu em 1960 em Nova York, onde, desde pequeno, teve acesso à cultura e ao estudo formal em boas escolas. O curador da exposição, Pieter Tjabbes, quebra os tabus criados em cima de sua origem. “Ele era de uma família de classe média, tinha acesso a todos os bens e facilidades desta classe, visitava museus e estudava em colégios particulares”, desmistifica.

Após uma discussão com o pai, aos 16 anos, o artista saiu de casa e começou a viver se estabelecendo na casa de amigos e namoradas. Durante esse período grafitava com Al Díaz, artista plástico ainda presente nos debates em torno da arte urbana, escrevendo frases enigmáticas e críticas em locais estratégicos ao sul de Manhattan. Basquiat trabalhava nas saídas das galerias e dos clubes, locais frequentados por artistas e críticos, deixando a assinatura SAMO (Same Old Shit). Na época, conseguiu despertar, a curiosidade das pessoas em descobrir quem era que grafitava essas frases, conquistou espaço em jornais e deu destaque à imagem do artista misterioso que deixava sua marca nas paredes de Nova York.

Pessoas observam a obra Vista lateral de uma mandíbula de boi, de 1982.

Com o tempo, Basquiat começou a ganhar espaço no meio artístico e foi reconhecido pela crítica. Em 1980, alcança o estrelato, conseguindo faturar milhões e esbanjando seu lucro. Passa a frequentar clubes onde conhece diversos artistas como Madonna, David Bowie e Andy Warhol, formando com o último uma parceria icônica para o mundo da arte. Infelizmente o jovem artista, viciado em heroína, morre aos 27 anos, em 1988, vítima de overdose. Sua carreira por mais curta e intensa que tenha sido deixa para o mundo um legado que é presente nos dias atuais.

Em entrevista, o curador Tjabbes nos conta que sua obra, por diversas circunstâncias, é mais atual do que na época em que foi produzida.

“O Basquiat é um artista que tem chamado a atenção dos museus internacionais. Cada vez mais a gente descobre que ele é fundamental para a história da arte do século XX, e a influência de sua obra continua até os dias de hoje”.

Não à toa, a exposição tem tido uma resposta positiva do público e alcançando um interesse muito grande da imprensa. E de forma notável uma enorme procura do público jovem em conhecer a história e a obra do artista.

Para Pieter Tjabbes essa procura jovem ocorre pela identificação do público com a linguagem de Basquiat em suas obras, que apresentam uma multiplicidade de elementos na tela como imagens, palavras e objetos em um mesmo plano. Hoje, uma característica marcante nas redes sociais, presentes na realidade dos jovens, que conseguem se familiarizar com esse bombardeio de informações e a técnica presente na obra. “Quem opera nesse mundo das redes sociais, opera com sempre a pressão do tempo porque as informações chegam muito rápido, e tem que as redigir imediatamente, não podendo refletir. E o jovem reconhece isso na obra dele”, afirma o curador.

Em muitas obras de Basquiat é possível ver gravuras da anatomia humana.

Observando as obras expostas do Basquiat é possível notar de forma subjetiva o seu processo de criação, suas inspirações em músicos e atletas negros, nos quadrinhos e desenhos animados que preenchiam seu espaço pessoal e artístico. Parte de suas obras foram feitas enquanto o artista deixava a televisão ligada, sendo constantemente atingido por informação. E traduzindo todo seu processo cognitivo em uma forma gráfica e impressa na superfície da tela. Atraindo quem observa a pensar na realidade em que o artista estava inserido e de que forma podemos transportar isso para nosso cotidiano.

Uma das propostas da exposição é relacionar Nova York das décadas de 1970 e 1980 com a São Paulo atual, já que poderiam facilmente ser confundidas apesar dos 40 anos de diferença dada a dura realidade enfrentada pela terra da garoa. A situação socioeconômica, os problemas de segregação entre a periferia e o centro, a desigualdade de chances e o racismo são tão presentes nos dias atuais da cidade paulista quanto eram a realidade da Big Apple da época. Porém a reflexão não é uma sentença, e sim um convite para pensar na arte como fruto desta dura realidade, assim como foi para Jean-Michel Basquiat.

Para Tjabbes, não é o fim. “Na história da arte e da cultura, em momentos de crise surgem grandes movimentos. Então todas essas crises obrigam as pessoas a repensarem. O artista é uma figura que é sempre muito sensível a tensões que existem na sociedade”, comenta. “Minha aposta é que no Brasil também teremos grandes mudanças e novas iniciativas que surgem exatamente de uma época como esta”.

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Confira também:

– Exposição Basquiat no CCBB

– Entrevista com Andrea Facchini – Uma artista que você precisa conhecer

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