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São Paulo: Aula sobre “Fascismo à Brasileira” no Teatro Oficina

Por Thiago Dias – Fala!Anhembi

 

No país da escravidão, de que fascismo falamos?

Na última quinta-feira (18), o Teatro Oficina foi palco de uma aula pública político-pedagógica organizada pelos coletivos União de Núcleos de Educação Popular para negros e classe trabalhadora UNEafro Brasil,  Núcleo de Consciência Negra da USP e a Aparelha Luzia.

Douglas Belchior. Foto: Thiago Dias

O encontro foi dividido em 2 momentos. No primeiro, aula sobre “O que é o fascismo?”’ e “O que tem caracterizado o fascismo à brasileira?”, que contou com a presença de Zezé Menezes, do Núcleo de Consciência Negra da USP, e Douglas Belchior, professor de História e organizador da UNEAFRO.

Zezé Menezes. Foto: Thiago Dias

 

No segundo momento, houve uma análise de conjuntura explicando o avanço de forças autoritárias na política institucional, com as deputadas eleitas neste ano, Andreia de Jesus (PSOL – MG) , Erica Malunguinho (PSOL – SP) e Leci Brandão (PCdoB – SP).

 

Andreia de Jesus, Erica Malunguinho (no meio) e Leci Brandão no Teatro Oficina

“Nós temos estratégias de sobrevivência, estratégias diferentes. A organização mais forte que nós temos é a escola de samba, não é partido político, não é sindicato, é escola de samba. Quando um desafina, a escola inteira prende’’, disse Andreia de Jesus, eleita deputada estadual pelo Psol de Minas Gerais, militante pela vida da juventude negra, por segurança pública cidadã e por melhores condições de vida nas periferias.

 

Foto: Thiago Dias


“E o que é Conrado?”

“É religião, segurança alimentar e encontro, tudo muito simbólico. Não precisa da bandeira aí na frente, não precisa da bandeira vermelha ou amarela, eles vão com a religiosidade, com aquilo que toca o afeto, que acode,  nunca foi interrompido , nunca parou, desde de quando veio da África e continua, isso não é resistência? Isso é outra estratégia diferente da estratégia da escola de samba que passa mensagem, que toca corações que move pessoas’’ disse a deputada Andreia de Jesus sobre o simbolo religioso Conrado. Gritos de “uhul” e “maravilhoso” eram ouvidos da plateia.

 

“E o que dizer dos indígenas, né?”

“Eles curam pela raiz, não só pela árvore, não só pelo topo, é pela raiz.  Estou aqui para agradecer, esse lugar aqui é muito importante. Ocupando política, eu me revelei como sujeito que eu descobri que nunca fui, tímida. Nós negros nunca fomos tímidos, fomos silenciados teoricamente. Para ter uma linguagem acadêmica, a gente teve que desconstruir as nossas, cortar muitas línguas de Anastásia, para que a gente aprendesse outra linguagem. É isso que a academia faz com a gente, a mídia desconstrói cultura, isso é que mata, não é só a mídia espalhar o fascismo hoje, é ela fazer a gente abandonar a nossa cultura. Chegando aqui, vi muitos idosos entrando, é importante voltar aos mais velhos, ancestralidade não é só buscar na religiosidade e nas várias espiritualidades, é voltar aos mais velhos, tem luta aí, que os antecedentes continuam, e eles tem a receita.”

Foto: Thiago Dias

Andreia também falou da ‘’cultura do hacker’’, que se refere ao resgate da ancestralidade, resgatar a cultura negra que foi roubada.  “[…] hackear esses processos, não adianta ocupar a política, ocupar a institucionalidade e reproduzir a lógica do colonizador para superar o que eles são.  Tamo junto, somos muitas, e vamos hackear a política.’’

 

Foto: Thiago Dias


Erica Malunguinho 
mulher, trans, negra, nordestina de Pernambuco, contou que passou pela sua terra após a eleição.  
“Mais uma vez reafirmo que o centro desse país não é o umbigo de São Paulo, existem muitos Brasis por esse vasto território. Pernambuco é um deles ao demonstrar nitidamente sua força e apoio às lutas do povo pobre, oprimido, sertanejo, indígena, preto, porque as coisas foram sempre construídas por lá”, disse a militante.

Sobre ter se descoberto negra, Erica disse que é muito importante pra ela, que antes não pensava que era nordestina, nem dizia ser negra. Ao ter informação sobre a identidade de gênero, ela se descobriu como uma mulher trans. “Imagine vocês que a própria regra ancestral é nutrida por diversidade e multiplicidade de forma de ser e estar.”

“Quem me disse trans, foi essa lógica normativa, quem me disse negra também foi essa lógica normativa  e quem me disse nordestina novamente foi essa lógica normativa centrada nessa narrativa narcísica de São Paulo, Sudeste. Só que nossos corpos e nossas resistências estão aqui para provar que somos muito mais do que isso, onde tentarem nos enquadrar nós seremos liberdade.”

Foto: Thiago Dias

“Qual é o Bolsonaro que abriga cada um de nós?’’ perguntou Erica à plateia.

A deputada também levantou pautas como o genocídio da população negra. “Essa luta não deveria ser nossa, a gente deveria estar lutando por outras coisas, agora estamos aqui defendendo Fernando Haddad. Novo pacto: novo governo, vamos considerar nossos corpos presentes lá dentro, estou aqui para afirmar minha radicalidade, não tenho problema nenhum em ser radical. Projeto branco cêntrico normativo, estou falando para os brancos, deixa o povo LGBTQ+  entrar. Se a gente não estiver nesses lugares, outras pessoas vão estar. Radicalidade é isso, é um movimento necessário.”

 

Foto: Thiago Dias

Leci Brandão é uma das cantoras mais importante da música popular brasileira. Em 2010 filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi deputada estadual pelo estado de São Paulo e reeleita em 2014.

Foto: Thiago Dias

“Em 1976 a gente compôs uma música chamada As pessoas e Eles, e essa música foi feita por causa de uma situação que eu presenciei no Rio de Janeiro, e aí eu fiz essa música. Fui chamada para dar uma entrevista ao Lampião da Esquina, do Aguinaldo Silva. Por causa dessa entrevista, algumas pessoas levaram o jornal para o presidente ‘como que você tem uma pessoa que faz música pra esse povo?’. Dei a entrevista falando da música, as pessoas são essas pessoas que estão aí e eles são seres.”

“Douglas Belchior, você não tem noção da minha honra de ter dividido com você… – não, nunca ter dividido com você, você somou comigo. Conheci você e me apaixonei pela sua cabeça, pela sua mente.”

 

Lenci abraçando Douglas Belchior. Foto: Thiago Dias


Sobre política, Leci disse que não entende nada da palavra, não entende de regimento, desse discurso de “mentirês”, brincou a deputada, dizendo que não entende nada disso, que o que ela faz é cumprir a missão que Deus e os orixás mandaram.

“Eu nasci em Madureira, morei em Vila Isabel. Rio de Janeiro, e a partir dos anos 80 a vida mudou, tudo na minha vida mudou pra melhor, a minha arte, vocês entenderam essa arte como instrumento para defender os meus favorecidos, defender pessoas, gente, independente de qualquer coisa, independente da cor da pele, independente da orientação sexual, independente da religião, independente de qualquer coisa, eu gosto de gente. Eu respeito gente, quando você respeita gente, você procura fazer uma caminhada com compromisso, e compromisso não é uma coisa que é fácil não, compromisso é compromisso.”

 

Foto: Thiago Dias


Sobre formação superior, falou que nunca teve a oportunidade de se formar em nada, que sua universidade é bom dia, boa tarde boa noite e muito obrigada.

“Não podemos achar que tudo é muito fácil, a assembleia de março é um avanço, é uma realidade, eu to cansada, estou de saco cheio: a primeira negra, o segundo negro…. Peraí, desde quando estamos aqui? O que a gente fez nesse país, nós somos filhos de escravizados. As pessoas ficam perguntando, porque a assembleia tem 94 deputados e sobrenomes diferentes? Sobrenome de gente que são donos das terras.”

 

Foto: Thiago Dias

 

O zumzum na Casa, hoje, é a sua chegada lá. Referindo-se a Erica. “Quando a gente chegou lá, falaram que eu ia fazer pagode no gabinete, ninguém acreditava que iríamos construir projetos de leis, mas nós colocamos leis que nunca tiveram em uma casa que tem mais de 180 anos”, afirmou Leci Brandão. 

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