Associação de jogadores ingleses exige maior cuidado com os cérebros
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Associação de jogadores ingleses exige maior cuidado com os cérebros

Associação de jogadores ingleses exige maior cuidado com os cérebros

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Pesquisa da própria associação aponta risco de morte por doenças degenerativas no cérebro muito maior entre jogadores de futebol

No último dia 20, a PFA, associação de jogadores de futebol da Inglaterra, emitiu uma nota em seu site oficial pedindo que os cabeceios sejam reduzidos e monitorados nos treinamentos. Uma pesquisa feita pela própria associação aponta que ex-jogadores de futebol têm 3,5 vezes mais chances de morrer devido a condições neurodegenerativas.

Michael Simoni, que teve cinco passagens pelo Fluminense como coordenador médico de futebol ou diretor médico, acredita que os estudos em relação aos riscos da repetição dos cabeceios no futebol ainda são recentes, mas muito se sabe por conta do boxe:

Isso é chamado de demência do boxeador ou encefalopatia crônica, a gente percebeu que boxeadores que levavam muitos traumas, muitos socos, que tinham micro concussões cerebrais durante uma luta, apresentavam, à medida que ficavam mais velhos, algumas alterações neurológicas.

Simoni acha que reduzir os cabeceios nos treinamentos é uma ótima medida e explica como isso poderia ser feito: “Você poderia se organizar que, durante o treinamento, só teria cabeceio em treinos táticos e técnicos, você tiraria o cabeceio pura e simplesmente de aquecimentos ou treinamentos específicos de cabeceio”.

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Seleção brasileira durante treinamentos. | Foto: Ricardo Stuckert, CBF.

Entretanto, Michael ainda vê dificuldades em relação ao monitoramento: “Você não tem como pegar um grupo de atletas que está em treinamento e fazer ressonância de todos eles todos os dias, é impossível. Você também não tem como monitorá-los com encefalogramas toda hora, então acho que a monitoração se torna absolutamente empírica, do ponto de vista que você poderia nesse momento usar mais bom senso do que propriamente ciência.”, afirma o médico.

Associação de jogadores ingleses exige maior cuidado com os atletas

Além do risco causado pelo constante uso da cabeça, os jogadores correm sérios riscos ao se chocarem com os adversários. Em 2014, a questão foi muito discutida após o caso envolvendo o atleta alemão Cristoph Kramer. Depois de bater a cabeça com Ezequiel Garay, zagueiro da Argentina, na final da Copa do Mundo, Kramer sofreu uma concussão, foi substituído e sequer se lembra dos minutos que disputou na partida mais importante de sua carreira.

Desde então, a Fifa passou a orientar os árbitros a pararem o jogo imediatamente após qualquer choque de cabeça e, sob qualquer sinal de confusão do atleta, ele não deve retornar à partida. O livro de regras da CBF deste ano evidencia o perigo desse tipo de lance: “A segurança dos jogadores é de vital importância e o árbitro deve facilitar o trabalho da equipe médica, especialmente em casos de lesões graves e/ou de avaliações de traumas na cabeça.”.

O livro de regras da maior entidade do futebol brasileiro também chama atenção para possíveis novas medidas visando uma maior proteção dos atletas no próximo ano: “A IFAB (órgão regulador do futebol) continuará fazendo experimentos para as alterações significativas e no próximo ano testará o procedimento para substituições especiais, em razão de lesões de cabeça, com ou sem concussão.”.

Há algum tempo o uso de capacetes é uma das medidas protetivas utilizadas no futebol. O caso mais emblemático é o do goleiro tcheco Petr Cech. Em 2006, o atleta recebeu uma joelhada e sofreu um trauma craniano, desde então, passou a atuar sempre com uma proteção na cabeça, que virou a marca registrada de Cech. Ano passado, tivemos o caso de Rafinha, lateral do Flamengo, que, após fazer uma operação na face, atuou com o utensílio em boa parte da temporada.

Petr Cech
Petr Cech quando atuava pelo Chelsea. | Foto: Saeed Khan, AFP.

O antigo médico do Fluminense acredita que ainda não é possível afirmar que os capacetes poderiam proteger os atletas dos riscos causados pelo cabeceio repetitivo.

Esses capacetes são moles, eles protegem alguma coisa, mas acredito que não são capazes de proteger a estrutura interna do cérebro de futuros danos. Então, você precisaria de um trabalho avaliando uso versus não uso para saber se eles são capazes de proteger.

Afirma Michael.

Os choques de cabeça envolvendo crianças e adolescentes são uma preocupação ainda maior. Em 2015, o caso do falecimento de Leonardo de Paula, jogador do time sub-17 do Inter de Lages, após bater a cabeça na de um companheiro, chocou o país.

Nos Estados Unidos, uma comissão de parentes de atletas entrou com uma ação na Corte da Califórnia acusando os clubes de negligência em relação ao risco de concussão. Através da ação, eles conseguiram que o país regulamentasse os cabeceios entre os jovens. Desde então, crianças com menos de dez anos são proibidas de cabecear em treinos e jogos, enquanto adolescentes de 11 a 13 anos têm a carga de atividades envolvendo a cabeça reduzidas. As regras valem para qualquer clube filiado à MLS, principal liga de futebol estadunidense.

Segundo Michael, a medida está correta, uma vez que os riscos dos choques de cabeça ao desenvolvimento das crianças são grandes:

Crianças que têm concussões cerebrais, mesmo que episódios únicos, podem ter distúrbios de comportamento, mau desempenho na escola e déficit de atenção.

Por outro lado, o médico afirma que crianças nessa faixa etária oferecem uma maior resistência aos choques por conta da elasticidade. Adolescentes um pouco mais velhos correm riscos ainda maiores. Por isso, ele acredita que esse limite de idade poderia até ser ampliado: “Particularmente, eu acho que a proteção poderia até ser um pouco mais avançada, acho que até os 15 anos de idade.”.

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Por Pedro Werneck – Fala! UFRJ

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