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Da Saúde ao Assédio: a Violência Ginecológica no Brasil

Por Alicia Gouveia – Fala!Cásper


Da Saúde ao Assédio: a Violência Ginecológica no Brasil

A interação entre doutor e paciente, muitas vezes frígida, pode ser marcada pela expressão de poder e superioridade por parte do profissional e submissão e silenciamento por parte da vítima

 

Manuela* tem 26 anos, olhos castanhos claro, quase beirando o mel, e estrutura óssea pequena. Apesar de parecer tímida e frágil ao primeiro olhar, ela carrega em si tamanha força e coragem que fascinam, assim como tantas outras mulheres fascinantes que conheço. Manuela me apareceu em um grupo exclusivo para meninas no Facebook quando essa reportagem parecia não ter mais solução. A admirei desde o primeiro momento. Falar de assuntos íntimos não é fácil. Falar de assédio muito menos.

Sentadas pela primeira vez frente a frente, em seu apartamento minimamente decorado e majoritariamente branco e cinza, Manuela me serviu um chá. Depois de uma breve introdução, ela me contou que teve sua primeira consulta com um ginecologista aos 11 anos, antes mesmo de ter a menarca, a primeira menstruação. O médico era um grande e antigo amigo da família, tinha cuidado da avó, das tias e da mãe de Manuela. O tal médico era o responsável pelo seu parto. Era o homem que a trouxe ao mundo.

Lembrou, como quem puxa na memória, que em sua primeira consulta sua mãe esteve lá a acompanhando. Para ela, o papel da matriarca era deixar o cenário menos intimidador, mais descontraído e familiar. Depois disso, acrescentou, com um sorriso triste e um olhar perdido, que em sua segunda consulta, já com 13 anos e “mocinha”, quis ir sozinha. A mãe achou ótimo, as tias concordaram e a avó confiou.

Perguntei como foi aquela primeira consulta sozinha e Manuela paralisa por um tempo em uma tentativa dolorosa de reconstituir a cena. “No primeiro momento, tudo parecia normal, sabe? Era apenas uma consulta de rotina. Depois, começaram algumas perguntas que não faziam muito sentido, mas como eu já tinha menstruado, acreditei que as perguntas evoluíam conforme você ‘passasse de fase’. Mesmo me sentindo desconfortável, só segui as ordens dele. O que eu podia fazer? ” Em vã tentativa, me peguei pensando no que ela poderia ter feito.

O silêncio constrangedor foi interrompido por Manuela, que já não me olhava diretamente como antes. Agora, estava fixa na sua xícara de chá que se encontrava vazia.  Sem esboçar reações, ela falava: “e os namoradinhos, Manu? Destruindo muitos corações? Já deu seu primeiro beijo? Como foi? Ele pegou na sua bunda? A mamãe já te explicou sobre sexo e como os meninos são malvados? ”

Manuela contou que passando da primeira fase da consulta, quando acontecem as perguntas e o diálogo com a paciente, o médico e ela partiram para a “segunda fase da”: o exame de toque. “Ele disse para eu tirar a roupa e eu me dirigi ao banheiro. Ele riu. ‘O banheiro está interditado, pode tirar a roupa aqui mesmo, Manu. Tira tudo. ’ ”

Ela lembra que, aos 13 anos, hesitou por um tempo, mas logo em seguida, mais uma vez, seguiu o comando do médico. “Eu pedi pela camisola, mas ele disse que estava em falta na clínica então teria que me examinar daquele jeito, completamente nua. Eu não posso dizer exatamente como eu me senti naquele momento. Minha psicóloga, faço acompanhamento até hoje, diz que eu apaguei os detalhes da minha memória como mecanismo de autodefesa”.

Perguntei se na época ela chegou a comentar com a mãe ou com alguém da família sobre o ocorrido e ela disse que tentou, mas ficou só na tentativa. “Depois da consulta eu contei para minha mãe que ele tinha feito perguntas estranhas e tinha me tocado demais. Desabafei que tinha me sentido desconfortável. Ela não deu muita relevância às minhas reclamações. Disse que consultas ginecológicas eram daquele jeito e que o tal doutor era muito competente. Eu podia confiar cegamente nele. ”

Depois dessa consulta, ainda aconteceram muitas outras. O médico, amigo da família e de extrema confiança, e a menina, no mesmo consultório.

Certa vez ele fez um carinho a mais em sua vulva.

Em uma próxima aproximou o corpo da menina.

Na outra estimulou seu clitóris.

E na última mostrou seu pênis.

Anualmente, dos treze aos vinte anos Manuela foi assediada física, sexual e moralmente pelo seu ginecologista, amigo da família e de extrema confiança.

Manuela não é um caso à parte e isolado da sociedade. O que aconteceu com ela durante toda a sua adolescência está mais perto da regra do que da exceção. Segundo uma pesquisa realizada pelo portal Catraca Livre, cerca de 53% das mulheres entrevistadas pelo site já foram assediadas pelo seu ginecologista. As situações, contudo, não se limitam ao abuso sexual. Tratamentos inadequados e agressivos além de comentários humilhantes foram, constantemente, relatados pelas vítimas.

As histórias, majoritariamente contadas em anonimato, trazem comportamentos que caracterizam condutas constrangedoras e abusivas, como cantadas, frases de cunho sexual e até estupro. O cenário dos assédios ginecológicos reflete e retrata a violência de gênero e o machismo que estão enraizados na sociedade brasileira.

Assim como Manuela, muitas das entrevistadas não chegaram a denunciar seus agressores. Medo, culpabilização e silenciamento são as principais razões. Ainda segundo o levantamento do portal, apenas 4% das mulheres envolvidas na pesquisa chegaram a fazer alguma denúncia sobre o crime. Muitas, inclusive, demoraram anos para reconhecer e entender que foram vítimas de abuso sexual ou moral, enquanto outras ficaram constrangidas no momento, mas até hoje não percebem a gravidade da situação e da conduta do profissional.

Diferenciar a conduta ética do ginecologista de um possível caso de abuso nem sempre é fácil, especialmente em um contexto médico, no qual deveria existir uma relação de confiança entre paciente e profissional. De acordo com a psicóloga Adriana Montenegro, doutoranda em psicologia forense pela PUC São Paulo, tanto no assédio moral como no sexual a vítima é coibida.

“O assédio sexual tem componente sexual – como o próprio nome sugere -, enquanto o moral tem como objetivo principal a humilhação e a diminuição da autoestima da vítima e não envolve, necessariamente, investidas sexuais. De qualquer modo, qualquer forma de assédio constrange, humilha e amedronta”, ressalta a psicóloga.

Adriana ainda acentua que, se em algum momento a mulher se sentir desconfortável, ela deve parar e prestar atenção.

“Veja os sinais de alerta. Repare se o seu médico conta piadas ou histórias de cunho sexual durante a consulta, te olha de forma intimidadora, pergunta sobre sua vida amorosa de maneira excessiva, proíbe a presença de acompanhantes dentro da sala ou se pede que você tire a roupa e coloque o avental desnecessariamente”.

 De acordo com a psicóloga, como consequência da exposição a esse tipo de violência, muitas mulheres desenvolvem quadros de transtornos psíquicos e alimentares, como anorexia, bulimia, fobias, ansiedade, prejuízo da concentração, transtornos de pânico, distúrbios do sono e depressão. No caso de Manuela, ela apagou de sua memória como se sentiu durante os assédios vividos e até hoje se considera insegura quando o assunto em questão é sua sexualidade. Embora cada mulher lide com a situação de maneira particular, para Adriana, o que se percebe é que, neste “jogo” de poder, as vítimas acabam submetidas a um estado de silenciamento e sob o domínio da autoridade de seu agressor. Por isso, a importância de que, diante de uma denúncia, essas pessoas tenham seu sofrimento e dor reconhecidos, legitimados e acolhidos.

Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, se prevalecendo de sua condição superior ou ascendência inerente ao exercício de emprego, cargo ou função é previsto na Lei 10.224 do Código Penal e no artigo 63 do Código de Ética Médica.

As denúncias devem ser tomadas não só na esfera do judiciário. Registrar um boletim de ocorrência e buscar condenação criminal e indenização do ginecologista é necessário.  Além disso, um registro nos órgãos de classe – como Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) e o Conselho Regional de Medicina (CRM) – deve ser feito para que os médicos sejam responsabilizados dentro do seu conselho.

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) ainda alerta que, na maioria das vezes, o perfil do molestador é entre 40 e 60 anos, casado e adota discurso religioso.

ILUSTRA: Eduardo Schaal – Via SuperInteressante

 CASO DR. ABDELMASSIH

Nascido em 3 de outubro de 1943, em São João da Boa vista, São Paulo, Roger Abdelmassih é um ex-médico brasileiro especialista em reprodução humana, sendo um dos pioneiros da fertilização in vitro no Brasil.

Abdelmassih era acusado de violentar sexualmente suas pacientes enquanto estavam sob efeitos de sedativos durante os procedimentos. O abusador teve seu registro cassado e foi condenado, em 2010, a 278 anos de prisão por 56 estupros.

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