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Redes sociais, mídia livre e a velha imprensa

Por João Guilherme Lima Melo – Fala!PUC

 

Em tempos de polarização política e ideológica, os espaços que dão oportunidade para que a população consiga debater os mais diferentes assuntos estão ganhando cada vez mais relevância. Esse é o caso das redes sociais. Tanto o Facebook, como o Twitter, mas analisando também Youtube e WhatsApp, todos eles tornaram-se muito importantes para os debates públicos.

Podemos ressaltar alguns aspectos das próprias redes sociais que lhes permitiram conquistar um lugar entre os diferentes espaços que as sociedades têm para se expressar. A facilidade de se publicar uma opinião é um destes aspectos, uma vez que a qualquer momento, qualquer pessoa pode colocar em pauta, na sua timeline, qualquer assunto que ela acredite ser importante para o seu meio social. Contudo, o conteúdo publicado não será julgado, na maioria das vezes, com críticas construtivas, e sim através de likes e compartilhamentos, o que é um tanto quanto superficial.

Outro ponto a ser destacado, e que está ao lado do que foi apresentado anteriormente, é a democratização que estas redes proporcionam. Pessoas das mais diferentes classes e grupos sociais têm a possibilidade de expor ali o seu pensamento, a sua visão acerca de algum assunto ou acontecimento, seja ele relacionado ao seu bairro, seu país, ou sobre qualquer evento mundial. E é a partir deste ponto da democratização que podemos iniciar uma análise sobre como outros espaços de debate, como as mídias tradicionais, estão “cedendo terreno” para o crescimento das redes sociais como esfera pública.

No Brasil, principalmente, o quesito democracia da mídia deveria assustar muito a população, que é a principal interessada no que é apresentado pelas empresas de comunicação. São quatro grandes empresas que controlam praticamente tudo o que é publicado nos quatro cantos do Brasil, A Folha de S.Paulo, a Editora Abril, o Estado de S.Paulo, e também a Rede Globo, todos eles com sede na região sudeste. Abordando este assunto, vale destacar informações trazidas em um livro escrito pela jornalista Miriam Moraes.

“Política – Como decifrar o que significa a Política e não ser passado para trás”. Este é o nome do livro escrito pela jornalista, onde, especialmente em dois capítulos, ela alerta para necessidade de implementação de uma lei de regulamentação da mídia no Brasil. Miriam atenta, nos capítulos “Imprensa – O quarto poder?” e “Leis dos Meios de Comunicação ou Regulamentação da Mídia”, para o fato de no nosso País haver um problema conhecido como propriedade cruzada, que “é quando um mesmo grupo detém vários meios de comunicação (TV, rádio, jornal impresso) na mesma região, transmitindo um pensamento único”, escreve a jornalista. Logo, os quatro veículos de comunicação destacados anteriormente, apresentados por ela como “os quatro gigantes” dominam a circulação das notícias por todo o país, o que acabaria caso uma lei de regulamentação fosse aprovada.

Como acabou no Uruguai, por exemplo, quando em dezembro de 2013 foi aprovada a Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual, conhecida também como Lei de Meios. O intuito é evitar a concentração econômica no setor de telecomunicações e garantir a diversidade e a pluralidade na oferta do serviço e na produção de conteúdo.

Mas o que isso tem a ver com as redes sociais? Com a falta de democratização nos principais espaços da esfera pública, a população se dirige às redes sociais para ter um lugar onde as suas visões e opiniões possam ser ouvidas (ou lidas). Lá, classes excluídas pela sociedade encontram algo que já foi colocado neste texto, mas que as principais empresas de comunicação ainda insistem em não dar para a população: espaço para expor e debater suas ideias e pensamentos acerca dos diversos assuntos de cunho social que surgem cotidianamente.

Migração do jornalismo para as redes sociais

Outro fator que sustenta a ideia de que as redes sociais estão tornando-se um importante espaço da esfera pública é a saída de jornalistas de empresas de comunicação tradicional para passarem a trabalhar em espaços disponibilizados pelo Youtube, por exemplo. Isso acontece, em especial, devido a dois fatores. O primeiro é a passagem do famoso passaralho pelas redações jornalísticas, o que faz com que os jornalistas, agora desempregados, passem, assim como qualquer outro trabalhador que perde o emprego, a buscar alternativas para terem de onde tirar o seu sustento. E as redes sociais são uma possibilidade, dada a visibilidade que estão ganhando a cada ano que se passa.

O outro aspecto que favorece a migração de jornalistas para este novo espaço de convivência social é a “simples” decisão de mudar o ambiente de trabalho, de criar um novo projeto que adeque-se mais ao seu modo atual de enxergar a vida. Neste ponto, muitos profissionais de comunicação saem de seus atuais empregos na mídia tradicional e migram para as plataformas digitais por entenderem que lá terão mais espaço para expor seu pensamento, sem a interferência dos ideais de uma empresa filtrando-o.

Reprodução: Observatório da Televisão

                                                                   

Como exemplo, podemos citar a jornalista Maíra Lemos. Com passagens pelo SBT, Tv Record, e também pela Tv Cultura, Maíra ficou muito conhecida por suas coberturas esportivas trabalhando na Tv Globo, onde apresentou o programa Globo Esporte de Minas Gerais. Além disso, ela foi a primeira mulher mineira a ser repórter esportiva do Jornal Nacional e do Esporte Espetacular. A jornalista mineira, após 12 anos de trabalho na televisão, decidiu, em 2017, empreender e criar um canal no YouTube com o seu nome, e que tem como principal objetivo contar histórias das mais diferentes pessoas. “Depois de mais de 10 anos de carreira e aprendizado, senti que havia chegado o meu momento de empreender e realizar o que sempre quis. Desde que o YouTube/internet surgiu, eu já tinha vontade de ter o meu canal”.

Maíra ressalta que precisava de mais liberdade para trabalhar com os temas e a linguagem que ela mesma acreditava, algo que não seria possível trabalhando em empresas que prendiam a sua imagem com contratos. “Ao mesmo tempo em que crescia pela minha criatividade, era limitada por ela”. Quando questionada sobre os principais pontos que permitiram a ascensão das redes sociais como ambientes de discussão, ela atentou para o fato de a internet ser democrática, e que lá “todos podem ser porta vozes de sua própria voz”. A jornalista, mas agora também palestrante e youtuber, ainda destaca que, ao contrário da TV, que ela entende ser limitadora tanto por culpa dos horários como por causa dos interesses econômicos por trás das notícias, “as redes sociais são a cara dos novos tempos, da liberdade de criação, de divulgação. É a pluralidade, é vencer fronteiras, é dar voz a todos, encontrar-se com os iguais, ouvir os diferentes”.

Mas o jornalismo em si também tem enxergado nas redes sociais uma oportunidade de criar novas maneiras de trabalhar de forma diferente como se trabalha na mídia tradicional. É o que ocorre com o jornalismo independente, que cresceu no Facebook e agora já alcança ambientes fora da internet, como é o caso da Mídia Ninja, que agora, além da plataforma online, já possui um laboratório de vivências, o LAB Ninja, onde os participantes podem atuar em áreas como redação, fotografia, audiovisual, e residência cultural (entre outras). Como um coletivo que defende abertamente a parcialidade na prática jornalística, a Mídia acredita que “ser coerente e transparente com o fato de sermos parciais faz parte de uma nova realidade jornalística – a aberta, colaborativa, integrada”.

Como membro do jornalismo independente, essa organização ainda aponta para o problema da propriedade cruzada, já exposto neste texto, como um catalisador da escalada desta nova vertente do jornalismo, dado que a internet possibilita maior democratização das informações a serem compartilhadas. Em relação ao futuro, a Mídia Ninja acredita que “o próximo salto da comunicação livre possa ser uma aliança entre um outro nível de alcance e estrutura”, e que um dos empecilhos frente a essa ascensão é a criminalização do jornalismo praticado sem as amarras do sistema de comunicação. Eles entendem como principais desafios “a forma como a mídia livre é criminalizada hoje em dia e o não acesso a recursos que garantam o funcionamento pleno e amplo dos veículos e midiativistas”.

As iniciativas de jornalismo independente trabalham sempre com o máximo de transparência, seja na apuração do que será noticiado, ou até mesmo ao expor como se dão os financiamentos para a produção das matérias. Estas páginas de jornalismo também são muito abertas para debates, sejam eles sobre algum assunto que está em alta, ou sobre a produção de uma nova pauta, o que aproxima muito o público que navega pelas redes sociais do seu modelo de se fazer jornalismo.

Novas conexões?

Junto com o crescimento das redes sociais, está crescendo também o questionamento se de fato elas possibilitam a criação de novas pontes, de novas conexões entre os diversos perfis de pessoas e pensamentos. Talvez elas nos permitam fazer novas conexões, mas como se dão estas conexões já é uma outra história. Assim como em nosso meio social fora da internet, nas redes sociais nós também estamos formando bolhas, bolhas essas em que colocamos somente aqueles que concordam com aquilo que dizemos.

Ao passo que podemos escolher com quem nos relacionamos dentro delas, estamos decidindo por, ao invés de agregar ideias que entrem em conflito com as suas, mas que gerem um conhecimento através do contato com o contraditório, manter perto da gente somente aqueles que pensam igual a nós. Logo, seja no Facebook, no Instagram, ou qualquer que seja a rede social, nós temos sim um amplo espaço para debater com as mais diversas pessoas, mas o que adianta este local de debate ser disponibilizado se nós ainda nos prendemos somente ao que é parecido conosco? Analisando este ponto, percebemos que as redes sociais podem sim configurar um espaço da esfera pública, mas só se nós, os cidadãos, permitirmos que isso aconteça.

Líbios foram às ruas pedir a prisão de Kadhafi durante Primavera Árabe (Reprodução: Enciclopédia Global)

Como já permitimos em alguns momentos. Como exemplos, podemos destacar dois movimentos sociais que, se não geraram todos eles mudanças por todos os lugares que passaram, pelo menos causaram algum tipo de choque, mostrando o poder das redes sociais. Em ordem cronológica, o primeiro foi a Primavera Árabe, nome dado a uma série de revoltas e protestos populares iniciados em dezembro de 2010, mas que eclodiram em 2011. A raiz dos protestos foi o agravamento da situação de alguns países do Oriente Médio, provocado pela crise econômica e pela falta de democracia pautada pelos governos ditatoriais que estavam e estão no poder nesta região. Entre os países que participaram deste movimento, destacam-se a Tunísia, Egito, Líbia e Síria, onde os dois últimos ainda amargam guerras civis provocadas pela Primavera até hoje.

A maioria dos protestos da Primavera Árabe foram organizados em redes sociais como o Facebook e o Twitter, onde os usuários também atualizavam quase que instantaneamente as informações sobre protestos e manifestações que estavam ocorrendo, publicando-as nestes espaços virtuais. Outro movimento que utilizou estas redes para a sua dissipação foram as manifestações ocorridas aqui no Brasil, em 2013, e que tinham como foco inicial a luta contra o aumento das passagens dos transportes públicos em todo o país, mas que com o tempo ganharam outros aspectos políticos, como uma disputa entre partidos.

As “Jornadas de Junho”, como ficaram conhecidas as manifestações de 2013, foram organizadas todas através de páginas criadas no Facebook, principalmente pelo Movimento Passe Livre. Vale destacar também que foi neste período que ganhou visibilidade a já citada Mídia Ninja, uma vez que esta organização cobria de maneira livre e dinâmica as manifestações, o que gerou empatia entre os movimentos e este coletivo. “A representatividade é uma palavra chave nesta conexão. O manifestante se via nas publicações das redes sociais, se reconhecia ali, coisa que não fazia quando assistia o jornal nacional”, destaca o coletivo midiativista.

Manifestação das “Jornadas de Junho” na Avenida Paulista (Reprodução: EBC)

O agora escritor costarriquenho Oscar Howell-Fernández faz uma análise muito profunda acerca do ativismo digital citado anteriormente em seu livro A mão emergente, onde, em certo momento, ele afirma que cada curtida, cada compartilhamento em uma rede social, já pode ser considerado um tipo de voto. Ele também explica que, com o advento das redes sociais, as pessoas também têm mais possibilidade de se inserirem na esfera pública.

Em uma matéria produzida pelo jornal El País, Oscar coloca também uma opinião acerca dos micropoderes. “O poder na sociedade é compartilhado, e se você faz parte dele quer dizer que está tirando-o das empresas ou dos governos. Então há uma disputa para ver até onde se pode chegar como indivíduo. O uso de ferramentas digitais pelos governos é parte da estratégia para tentar recuperar terreno nessa discussão”.

As redes sociais já configuram um dos mais importantes espaços da esfera pública, onde os mais diversos temas são debatidos, e de maneira mais democrática do que na mídia tradicional. O que resta agora, é uma aceitação “formal” da sociedade num todo diante desta questão, já que a maioria dela entende que as redes presentes na internet são os espaços de discussão que mais acompanham as mudanças sociais que acontecem a cada momento.

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