As raízes ocultas e gnósticas do nazismo
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As raízes ocultas e gnósticas do nazismo

As raízes ocultas e gnósticas do nazismo

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O fenômeno do totalitarismo nazista do século XX ficou marcado como um dos momentos mais nefastos e tenebrosos da história e ainda intriga estudiosos das mais diversas áreas, desde cientistas políticos e historiadores até teólogos do campo de estudo das ciências da religião. A proposta do presente texto é promover uma breve análise do arcabouço religioso do nazismo, de sua dimensão espiritual bem como de suas características centrais que influenciaram a cosmovisão totalitarista alemã.

Para isso, várias obras historiográficas de destaque foram consultadas, dentre as quais encontram-se os livros do historiador Richard Evans, acerca do Terceiro Reich, e os estudos do autor Nicholas Goodrick-Clarke, sobre o esoterismo e ocultismo. 

nazismo
Nazismo. | Foto: Reprodução.

A “Religião Nazista” 

Segundo as análises dos estudiosos mais renomados sobre a sociedade nazista, pode-se afirmar que o arcabouço teórico e religioso do nazismo originou-se de uma junção dos elementos da Ariosofia e Teosofia amalgamadas com preceitos do ocultismo esotérico, gnosticismo e neopaganismo. 

A ariosofia foi uma corrente mística desenvolvida pelos teóricos Guildo Von List e Jörg Lanz von Liebenfels, cujos escritos e pensamentos tornaram-se conhecidos na Áustria, ainda no século XIX. Ambos eram ferrenhos defensores da união de todos os povos de língua germânica sob a tutela e direcionamento da Alemanha. Ademais, eram categóricos na afirmação segundo a qual havia uma Pré-História milenar dourada, em que os sacerdotes germânicos lideravam uma espécie de “super-homens”. As ideias defendidas por Guildo e Jörg eram baseadas nos preceitos de uma antiga heresia do cristianismo, o chamado “gnosticismo”, cujo conteúdo será abordado posteriormente. 

Para os defensores da Ariosofia, as tribos teutônicas que habitaram a região do norte da Alemanha e a Escandinávia durante a Antiguidade representavam a perfeita expressão do ideal germânico e do neopaganismo que tanto queriam reviver. O intuito era promover uma espécie de cosmovisão segundo a qual a cultura de um povo antigo, supostamente relacionado aos alemães, expressava o traço distintivo da superioridade racial. Importante ressaltar aqui o papel do ocultismo na legitimação da ideia de superioridade alemã. 

“Os ariosofistas diziam que uma conspiração de interesses antigermânicos, arquitetada principalmente por judeus, havia arruinado a sociedade gloriosa do passado em nome de um igualitarismo espúrio” (Nicholas Goodrick Clarke, “The Occult Roots of Nazism”). Portanto, para evitar e contornar as tragédias e crises do mundo moderno, a solução seria o resgate dos preceitos esotéricos bem como da virtude racial dos povos germânicos e das tribos teutônicas, com o intuito de consolidar os ideais do pangermanismo. 

É nítida uma espécie de cultura “sincrética” presente na ariosofia, pois seus postulados englobavam ideias e práticas do hinduísmo, espiritismo, esoterismo  e ocultismo. Contudo, a raiz que explica a origem do neopaganismo nazista reside quase que exclusivamente no gnosticismo. Mas, afinal, o que significa “Gnosticismo”? 

Gnosticismo 

Na perspectiva de muitos historiadores da igreja antiga, o gnosticismo foi a heresia que mais ameaçou a integridade dogmática da teologia cristã. Suas ideias centrais giravam em torno de três preceitos fundamentais, a saber: uma perspectiva dualista da realidade, a defesa da salvação pelo conhecimento (experiência pessoal) e o ideal filosófico profundamente sincrético (neoplatonismo amalgamado com preceitos do judaísmo e de outras religiões). Quanto a perspectiva dualista, o mundo material e o mundo espiritual (imaterial) encontravam-se separados, já que a matéria é intrinsecamente má, ao passo que da realidade imaterial surge o verdadeiro bem. 

O gnosticismo apoiava-se em duas ideias: a da sublime elevação de Deus, ideia tomada dos judeus dos tempos mais próximos, para quem Javé se tornara infinitamente longínquo e misterioso – o Poder, o Grande Silêncio, o Abismo -, e a miséria infinita do homem e da sua abjeção. Mostrava-se obsessionado por dois problemas, exatamente os mesmos que hoje continuam a prender a atenção das inteligências: o da origem da matéria e da vida, obras tão visivelmente imperfeitas de um Deus que se diz perfeito, e o do mal no homem e no universo. […] Deus, único e perfeito, está absolutamente separado dos seres de carne. Entre Ele e esses seres, há outros seres intermediários, os éones que emanam dEle por via da degradação; os primeiros assemelham-se a Deus por terem sido gerados por Ele, mas por sua vez geram outros menos puros, e assim sucessivamente. Cálculos esotéricos de números permitiam dizer quantas classes de éones havia, e o conjunto formava o mundo completo, os trezentos e sessenta e cinco graus, o pleroma. No meio da série, um éon cometeu uma falta: tentou ultrapassar os limites ontológicos e igualar-se a Deus. Expulso do mundo espiritual, foi obrigado a viver a sua descendência no universo intermediário, e foi na sua revolta que ele criou o mundo material, obra má e marcada pelo pecado. A este éon prevaricador alguns gnósticos chamam Demiurgo, e outros o identificam com o Deus criador da Bíblia.

Daniel-Rops em A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, p.284 e 285.

Na visão gnóstica, era impossível que um Deus bondoso e justo tivesse criado o mundo material, essencialmente maligno. Sendo assim, o responsável pela criação do mundo físico seria uma espécie de “fagulha divina”, emanação de Deus. Ademais, muitos adeptos dessa heresia negavam que Cristo apresentava um corpo físico. Outro elemento nuclear do gnosticismo residia no conceito de gnose, uma espécie de conhecimento especial concedido por Deus apenas a uma pequena elite. A gnose era necessária para salvação espiritual, cujos efeitos não promoviam a ressurreição do corpo. 

(…) O gnosticismo, então, pretendia transformar o cristianismo numa especulação mitológica, subvertendo todas as principais declarações de fé cristãs. Portanto, o gnosticismo ou rejeitava ou reinterpretava o conteúdo básico cristão, combatendo a crença na criação divina: segundo os gnósticos, o criador não era o Deus supremo, e a própria criação era considerada vil e má. Eles também negavam a existência terrena de Jesus Cristo, afirmando que o Espírito Santo era uma energia espiritual que viera de algum deus inferior. Também negavam a ressurreição do corpo, baseados na ideia de que tudo o que é físico ou material é mau e não espiritual. No campo ético, oscilavam entre um legalismo radical e um estilo de vida libertino e grosseiro (…). 

Franklin Ferreira, A Igreja cristã na História: das origens aos dias atuais.

Na antiguidade, o gnosticismo foi duramente repreendido pelo grande Santo Inácio de Antioquia e pelo apologista Santo Irineu de Lião. Na idade média, os vestígios do gnosticismo apareciam em doutrinas como a dos cátaros e albigenses. Contudo, o trabalho de Santo Antônio de Pádua foi um grande empecilho para expansão de teses “gnósticas”.

Atualmente, as escolas gnósticas seguem os ensinamentos do colombiano Samael von Weor, cujos escritos são carregados de sincretismo e misticismo esotérico, que destoam de alguns preceitos do gnosticismo antigo e formam uma espécie de “gnosticismo contemporâneo”. Basicamente, para entender a dinâmica do esoterismo ocidental, é necessário compreender os conceitos que rodeiam o modelo sistemático gnóstico esotérico da contemporaneidade. Segundo o historiador Antoine Faivre, esses conceitos seriam:

  • A Teoria das Correspondências: Existem relações reais e simbólicas entre todas partes e elementos que compõem o Universo visível e invisível. Basicamente, há uma interdependência entre o microcosmo e macrocosmo. 
  • A Natureza Vivente: O Cosmos é complexo, plural, vigente, hierarquizado; formado por camadas, níveis e compreendido como fonte de diversas revelações. A Natureza é viva em todos os seus componentes e repleta de um princípio vital e vivificador, uma espécie de luz astral, que fundamenta as operações mágicas. A Magia seria o esclarecimento acerca dos movimentos de “simpatias”, união, e  “antipatias” que englobam e relacionam os elementos e substâncias da Natureza. 
  • Imaginação e mediação: A teoria das correspondências pressupõe uma variedade de tipos de mediação, como rituais, símbolos, mandalas, imagens simbólicas, anjos e até mesmo espíritos. A Imaginação possibilita a utilização desses intermediários para fomentar o desenvolvimento e aperfeiçoamento da gnose, que permite a plena compreensão dos mistérios do universo e dos mediadores entre a Natureza e o Mundo Divino. 
  • A Experiência da Transmutação: O esoterista tem plena consciência de que seu conhecimento lhe permite concretamente agir sobre as forças da natureza. Trata-se de uma metamorfose, pois na medida em que o mago se renova interiormente maior é sua influência sobre o mundo. 

Ainda em relação ao gnosticismo ocidental, Kocku Stuckrad analisou o esoterismo enquanto uma forma discursiva sobre um “conhecimento superior”, sendo que as vias de acesso a esse conhecimento estariam na mediação de seres superiores amalgamada com a experiência pessoal do sagrado. Stuckrad, portanto, observa o esoterismo a partir de uma espécie de monismo ontológico. Contudo, é com Samael Weor que o esoterismo se concretiza com a formação do Movimento Gnóstico e com a Igreja Gnóstica, influenciada pela chamada Pistis Sophia, compreendida enquanto textos gnósticos que receberam a designação de “evangelhos” pelo esoterismo. 

A primeira igreja Gnóstica foi fundada na França, em 1899, e foi obra do esoterista Jules-Benoit Doinel. Seu membro mais notável foi René Guenon. O aspecto ritualístico e as práticas litúrgicas representavam uma “imitação subvertida” do cristianismo católico. De certa forma, a tradição esotérica apresenta três fases: Hermetismo/Gnosticismo da Antiguidade, o Hermetismo Renascentista e o Esoterismo moderno ou Ocultismo. O que nos interessa é o Ocultismo. 

Antes de adentrar especificamente nas relações entre o ocultismo e o nazismo, vale ressaltar que muitos pensadores e teólogos atribuem a algumas escolas gnósticas atuais a denominação de “seitas”, pois apresentam quase todos os critérios utilizados para definição e caracterização de uma “seita”, como por exemplo: negação de princípios científicos elementares em prol da visão aceita pela associação/ escola gnóstica, a presença de uma mentalidade apocalíptica, a defesa constante de “teorias da conspiração”; utilização notável de argumentos “travestidos de ciência”, a chamada “pseudociência”; a dificuldade para abandonar os preceitos da organização e o culto/glória a figuras carismáticas ou aos “líderes intelectuais”, os chamados “Diretores das escolas gnósticas de autoconhecimento”. 

Gnosticismo e Nazismo 

Os propagadores da ariosofia geralmente tendiam ao dualismo do gnosticismo e se valeram do conceito de gnosis, já definido aqui como um conhecimento esotérico especial. 

Como se vê, a Ariosofia era uma tremenda salada, que ficou ainda mais temperada ao incorporar as ideias da russa Helena Blavatsky, fundadora da Teosofia. Essa corrente filosófica misturava hinduísmo, gnosticismo, esoterismo e espiritismo com uma visão meio torta da teoria evolucionista de Charles Darwin. No fundo, o que a russa queria era exaltar a “pureza da raça ariana”. Blavatsky criou uma sociedade teosófica nos Estados Unidos em 1875. Quatro anos depois, embarcou para uma longa temporada na índia, onde se “aperfeiçoou” em temas como imortalidade da alma, carma e reencarnação.¹

As ideias da ariosofia foram absorvidas por associações nacionalistas alemães e serviram de arcabouço teórico para formação de grupos paramilitares e organizações antissemitas, como a chamada “Liga do Martelo” e a sociedade secreta “Ordem Germânica”, que incorporou os graus de iniciação da Maçonaria.

Contudo, foi com Heinrich Himmler que o gnosticismo e o ocultismo esotérico tornaram-se influentes na organização do Nazismo. Como muitos sabem, Himmler era conhecido como o segundo maior grande nome dentro da estrutura totalitária alemã e ficou famoso por ter ocupado o cargo de líder da SS, organização paramilitar (popularmente conhecida como a “tropa de choque nazista”) responsável por perseguir os opositores do regime. 

Sob o direcionamento de Himmler, a SS tornou-se praticamente uma seita pagã  com cultos profundamente ocultistas. Não é de se espantar que a figura que mais exerceu influência sobre o líder esotérico alemão tenha sido um ex-militar austríaco que se denominava descendente de Thor, clássico deus nórdico, e alegava ser um grande mago, cujos conhecimentos astrológicos superavam qualquer grande doutrina religiosa. O mago adotava a “Teoria do Gelo Cósmico”, uma ideia astrológica segundo a qual a ordenação do Universo depende do antagonismo entre sóis e planetas de gelo.

Esse antagonismo explicaria as catástrofes mundiais. Ademais, frisava os principais conceitos do esoterismo moderno, tais como: a experiência da transmutação, a teoria das correspondências, o papel da imaginação e dos mediadores da Gnose bem como da Natureza Vivente; tudo isso numa mistura com a astrologia. 

Nos bastidores, Himmler foi transformando o grupo quase numa seita, com oficiais selecionados por critérios de “pureza racial” e práticas nada ortodoxas. Tornaram-se comuns, por exemplo, rituais pagãos com farta utilização de símbolos ocultistas. As cerimônias eram presididas, inclusive, por um sacerdote: Karl Maria Wiligut, que usava o codinome Weisthor e atuava como mago pessoal de Himmler. O templo da SS era o castelo Wewelsburg, no norte da Alemanha. O bruxo Weisthor costumava dizer que aquela edificação só podia ser comparada a Malbrok, a maior fortaleza gótica da Europa (…) Na torre norte de Wewelsburg, o chefão da SS mandou ornamentar o piso de uma grande sala circular com o Sol Negro- um círculo místico no qual 12 runas se combinam formando 3 suásticas sobrepostas, dando a ideia de uma engrenagem solar obscura.²

Infelizmente, as doutrinas esotéricas da SS serviram como uma justificativa para o mito da superioridade ariana e para paranoia antissemita que dominou o nazismo. Mesmo que Hitler demonstrava desinteresse a até mesmo repulsa para com os preceitos gnósticos do neopaganismo presentes na SS, a ariosofia e teosofia foram grandes aliadas na defesa do pangermanismo. 

Embora os preceitos do gnosticismo atual afirmem proteger os elementos fundantes da dignidade humana, é difícil definir bases éticas elementares e até mesmo humanitárias para o esoterismo gnóstico, uma vez que sua postura extremamente sincrética dificulta a construção de uma sistemática e do estabelecimento categórico de uma doutrina moral sólida, atemporal e fiel aos preceitos deontológicos. Sendo assim, o gnosticismo apresenta uma característica maleável, podendo ser utilizado como justificativa para ações não tão previsíveis e até mesmo para atitudes tidas como “imorais”. 


¹Nazismo: O lado oculto do terceiro Reich. Revista Super Interessante: Série grandes mistérios.

² SZKLARZ, Eduardo. O lado oculto da SS, a tropa de choque nazista . Leia mais em:  https://super.abril.com.br/historia/o-lado-oculto-da-ss-a-tropa-de-choque-nazista/.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

CAMPOS, Marcelo Leandro de. Esoterismo, Modernidade e secularização: a gnose de Samael Aun Weor. Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião no Programa de Pós-graduação da Pontifícia Universidade  Católica de Campinas, 2015. 

EVANS, Richard. O Terceiro Reich no poder. 2.ed. Editora Planeta, 2014. 

GODRICK-CLARKE, Nicholas. The Western Esoteric Tradition: a historical introduction. Oxford: Oxford University Press, 2008. 

STUCKRAD, Kocku. Western Esotericism, A Brief history of secret Knowledge. London: Equinox, 2005. 

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Por Leonardo Leite – Reaviva Mack – Universidade Presbiteriana Mackenzie

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