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A animalização de pessoas em meio a uma tragédia

A animalização de pessoas em meio a uma tragédia

Por Gabriela Neves – Fala!PUC

Há poucas semanas aconteceu em São Paulo um desastre que ficará marcado na história da cidade e de seus moradores. No largo do Paissandu, importante localização no centro, o edifício Wilson Paes de Almeida, onde moravam algo em torno de 150 famílias em condições insalubres, pegou fogo – ao que tudo indica, por um curto circuito. Em cerca de uma hora o prédio desabou em meio às chamas. O corpo de bombeiros está trabalhando na busca por corpos e possíveis sobreviventes, e até agora, com os cadastramentos que foram feitos, ainda há cinco desaparecidos.

Mas como essa tragédia aconteceu tão rápido? Como viviam as famílias lá dentro antes do ocorrido? Como estão sendo tratados os desabrigados? Qual a posição das autoridades governamentais?

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O prédio que foi construído nos anos 60 estava abandonado pelo governo desde 2001 e vinha sendo ocupado pelo movimento Luta por Moradia Digna (LMD). As famílias eram distribuídas pelos dez primeiros andares do edifício, que tinha 24 andares, e nos andares ocupados usavam divisórias de madeira para delimitar os espaços de cada grupo familiar, que pagava uma taxa aos lideres do movimento para que pudessem ficar ali. A água não chegava a todos os andares e a rede de fios de energia era antiga e mal cuidada, e também não chegava a todos os andares.

O professor Anderson, que havia estado no lugar em 2015 por conhecer pessoas que trabalham nas equipes de ocupação que atuam em SP e estudar esses movimentos, relatou que havia muitas goteiras, o lugar era sujo, a luz parava de funcionar a todo o momento, não havia tanto espaço para cada família e, enfim, era uma verdadeira tragédia anunciada já que ali não havia condições nenhuma de se viver. As próprias autoridades falaram que já tinham sido feito vistorias que diziam que o lugar deveria ser desocupado, mas eles não tomaram providências para que essa evacuação fosse de fato realizada, e que as famílias fossem mandadas para um lugar digno.  

E depois da catástrofe que resultou em feridos e mortos, os que conseguiram escapar estão na praça em frente ao prédio: expostos ao relento, veem a oportunidade de receber algo da sociedade que antes nunca olhou para eles. O lugar foi cercado, há uma parte onde só entram os bombeiros que estão trabalhando nos escombros e outra onde estão os que viviam no local. Apenas os lideres da ocupação comandam quem entra e quem sai, além de organizar as doações que estão sendo feitas. Em volta se concentram outros moradores de rua que acharam no acontecimento um jeito de chamar a atenção, já que vivem às margens. Ao avistarem chegando pessoas com doações, eles correm para quem sabe também receber algo. Os próprios moradores que estão dentro de um cercado oferecem comida e outras coisas para as pessoas que estão do lado de fora.

Por estarem cercados como se fossem animais presos, como no zoológico, passam pelo lugar curiosos que olham para eles e sentem dó. Mas em geral, os espectadores não são capazes de fazer algo, dar uma ajuda ou mesmo uma palavra de consolo. E os que estão ali presos, por estarem se sentindo finalmente vistos, muitas vezes se ridicularizam para chamarem ainda mais atenção. Vi uma mulher gritando para a outra tirar a roupa para poder ser fotografada e aparecer assim no jornal; algumas vezes mandavam as pessoas tirarem fotos deles e os filmarem. E ao mesmo tempo em que algumas dessas se animalizam, outras estão deitadas, chorando e sem esperanças de vida.

Não culpo a atitude dessas pessoas querendo chamar a atenção – elas nunca foram vistas, é a única maneira que encontraram. E também não culpo os espectadores alienados. Acredito que querem fazer algo, mas se sentem impotentes diante da situação. Admiro os que estão tendo a atitude de levar comida e agasalho para aquelas pessoas, mas essas coisas estão muito bagunçadas, sendo jogadas no chão no meio da sujeira e expostas na rua. Provavelmente, o que não for usado de imediato acabará estragando.

Culpo, sim, o governo, que não teve atitude de desocupar o edifício antes da tragédia, que não arrumou um lugar digno para que essas famílias fossem assistidas nesse momento. Culpo o governo que deixou a situação chegar ao ponto de virar um zoológico de humanos. Culpo o governo que deixa muitas pessoas dormirem na rua todos os dias e que precisam se aproveitar da situação trágica para conseguirem algo. Culpo o governo que deixa prédios sem uso serem ocupados de qualquer maneira, quando poderiam arrumá-los e direcioná-los para os que precisam de maneira digna. Culpo o governo que não dá educação nem saúde para a população. Culpo o governo que não faz absolutamente nada para melhorar a realidade do povo.

O que ocorreu é consequência do problema de moradia que vem acontecendo há muitos anos no Brasil, e é refletido por vários outros problemas que a sociedade brasileira enfrenta. Cabe a nós cobrar o governo que não está fazendo nada. Porém mais quantas tragédias como esta vão precisar acontecer para que façamos algo que realmente mude a nossa realidade?

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