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Alunos de teatro da Anhembi se apresentam no Arsenal da Esperança

Por Thiago Dias  – Fala! Anhembi

 

O Arsenal da Esperança chegou à região da Mooca em 1996, fundado por Ernesto Oliveiro e sua esposa Maria Cerrato,  trazendo o conceito de ‘ Servizio Missionaro’’ de Turim (Itália). O projeto do casal é combater a fome, a pobreza e as injustiças que acontecem em nossa sociedade. O Arsenal da Esperança fica localizado ao lado da Universidade Anhembi Morumbi, Campus Centro, antiga hospedaria de Imigrantes , séc XIX até a década de 70, onde acolhia milhares de imigrantes do mundo todo.

O Arsenal continua persistindo e disponibiliza cerca de 1200 vagas para homens que se encontram em situação de rua. Em junho de 2004, recebeu a homenagem das Nações Unidas, referente ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) pela colaboração ativa da ASSINDES-SP (Atual ASSINDES SERMIG) no atendimento a Refugiados na Cidade de São Paulo.

De um lado da calçada se encontra o principal campus de uma universidade privada, com dezenas de curso e milhares de alunos. Do outro, o Arsenal da Esperança, abrigo de acolhida para centenas de homens em situação de vulnerabilidade social. Poucas pessoas sabem o que existe depois dos muros rosas e dos muitos homens que durante o dia esperam pelo horário de entrada, enquanto outros até moram em frente ao arsenal.

Além de quartos, banheiros, sala de jogos, cozinha e capela, ali existem histórias de vida de muitos homens de diversos lugares do Brasil. Para além disso tudo, a atividade de teatro vem sendo feita há muito tempo lá, através de um trabalho de anos desenvolvido pela Cia Estável de Teatro. E foi justamente o teatro que possibilitou o encontro entre os moradores do Arsenal e alunos de teatro da Universidade Anhembi Morumbi. Cinco atores em cena. acompanhados por um músico, contam e cantam em quase meia-hora a história do cabra que varreu a lua.

Num domingo chuvoso, do dia 21 de agosto deste ano, a história do Cabra foi encenada no Arsenal, através do convite feito pela Cia Estável de Teatro. A cada cena que se construía e se desmanchava, era possível ver nas expressões dos homens que assistiam a identificação direta com o que era mostrado pelos atores em cena. A saudade de casa, da terra, o desemprego, a exploração do trabalho, o preconceito, a descoberta do amor, a falta da amizade e a solidão aos domingos permeiam o fio narrativo da peça e ensinam para quem assiste que “todos somos de lugar de nenhum e que por sermos todos de lugar nenhum somos todos do mesmo lugar.”

”O Cabra que Varreu a Lua  é um espetáculo de rua que conta a história desses vários homens e mulheres que vem pra São Paulo atrás de uma chance de uma vida melhor, mas que ao chegar aqui, não encontram tão logo o que vieram procurar. O Cabra não é só uma pessoa! É essa gente toda que não é de lugar nenhum, mas é que é de todo lugar. Essa gente que deixa a alma no lugar de origem e traz o corpo pro trabalho na metrópole e que acompanhados pela saudade de casa vão descobrindo quem são.” Afirma a Companhia A Trupe Que Vem de Lá.

Wes Machado, um dos atores da peça, nos conta como se deu o inicio do processo de criação do espetáculo: “foi a partir de uma uma disciplina sobre estudo das formas populares de teatro que eu e mais cinco colegas que estudávamos o teatro de rua produzimos esta encenação como processo avaliativo do semestre. Nos reunimos e fizemos um brainstorm de ideias sobre o que a gente queria falar.”

“Percebemos, reparando a nós mesmos, que todos vínhamos de outros lugares. Mesmo os que nasceram em São Paulo não nasceram na capital, e assim compõem essa massa que transita e constrói essa cidade. Eu, por exemplo, sou da Bahia, a Analu de Minas, o Marcos de Goiás, o Renan de Caieiras e a Bianca de Jacareí. Depois dessa chuva de ideias, decidimos que queríamos falar sobre os migrantes. O Renan então, que tem um dom pra dramaturgia, trouxe uma proposta de texto e coletivamente fomos levantando a encenação. Cada um contribuiu com o que podia, eu ajudei nas cantigas populares que a gente canta, o Marcos pensou e confeccionou todos os figurinos e adereços que usamos, a Bianca foi responsável por trazer para junto desse processo o Moarcyr, nosso guru musical e cotidianamente o processo foi tomando corpo.”

O Cabra teve sua primeira apresentação pública em frente a estação de metrô Bresser Mooca, no fim do primeiro semestre de 2018. Foi a primeira vez que o resultado de um processo cênico sobre estudo de formas populares foi apresentado fora da universidade. Mesmo as encenações de teatro de rua aconteciam nas dependências da faculdade. E isso só foi possível graças a qualidade do espetáculo, com texto fácil de ser entendido, dinamicidade de cena e uso de músicas. Os atores ainda se revezam narrando diferentes episódios do mesmo personagem, e assim dão vidas a outras figuras que cruzam o caminho do cabra.

 

Perguntamos sobre os próximos passos do grupo que se formou a partir do trabalho. Wesley nos diz: “A nossa ideia é rodar e levar a história do Cabra pra mais lugares. Festivais, espaços fechados e para rua. É de longe um dos melhores trabalhos que pudemos realizar na universidade, e tomou uma proporção tão grande que a coordenação do curso de teatro, os professores e colegas de curso torcem e querem que continuemos apresentando essa história. Isso nos motiva, inclusive, a somar na luta contra o desmonte da Lei do Fomento, tendo em vista que os grupos de teatro de SP lutaram muito por essa conquista e que a partir do Cabra iniciamos um processo de teatro de grupo. A Lei do Fomento ao Teatro é fruto do movimento Arte Contra a Bárbarie, que mobilizou toda a classe artística paulistana. A função social, ética, e de políticas públicas e a luta do setor cultural contra o pensamento hegemônico que vê no mercado a salvação de todos os males são as questões básicas da Arte contra a Barbárie.” O atual secretário de cultura propôs mudanças na Lei do Fomento, gerando diversas ações e atos da classe artística.

 


No fim da apresentação, foi feita uma troca de ideias entres os moradores e os atores e um integrante da Cia Estável. Osvaldo Hortêncio falou sobre esta pauta e junto ao elenco da peça, aos moradores do arsenal e demais espectadores, gravaram um vídeo para a circulação nas redes sociais contra o desmonte da lei de fomento ao teatro para a cidade de São Paulo.

O fim do dia foi de troca de histórias entre todos, entre aqueles que atuavam e aqueles que assistiam. De entendimento, como disse um cara da plateia, de que todo mundo ali era igual. A magia do teatro possibilitou risos e lágrimas, mas acima de tudo a possibilidade de por alguns minutos esquecer da labuta diária e mergulhar na história do cabra que varreu o chão, a passagem, a rua, a mulher nua e de que tanto trabalhar passou a vassoura na lua.

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