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Alunas da PUC promovem debate sobre o machismo no meio acadêmico

Alunas da PUC promovem debate sobre o machismo no meio acadêmico


Por: Marjorie Rodrigues e Giulia Ragusa – Fala! PUC

 

Palestra sobre machismo no meio acadêmico foi um momento de reflexão e grandes emoções.

Nesta terça-feira (30), as alunas do curso de jornalismo da PUC, orientadas pela professora Anna Flávia Feldmann, conseguiram proporcionar a todos que compareceram à Pontifícia, um ambiente acolhedor onde, além da palestra, ocorreu um debate emocionante. Foram convidadas 4 mulheres, dentre elas duas negras, para compartilhar suas experiências e opiniões sobre o machismo, principalmente na academia.

A ideia de promover o debate foi ocasionada devido as atitudes e comentários machistas, além das situações de assédio, que tem determinada frequência no ambiente universitário. Assim, para enfatizar, as alunas iniciaram o evento erguendo cartazes para compartilhar alguns dos comentários absurdos escutados por elas, diariamente.

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Foto: Marjorie Rodrigues.

 

O racismo também foi um assunto de muito destaque no evento, uma vez que, no Brasil, as mulheres negras sofrem não só com o machismo, mas também com tal discriminação. No início da palestra uma aluna de jornalismo e colaboradora do evento, Ana Laura, relatou um desentendimento ocorrido entre as organizadoras, por conta da ausência de palestrantes negras na primeira mesa convidada por elas. Para compensar tal falha, Ana desmarcou com as duas palestrantes brancas, antes convocadas, e incluiu as negras Maria Rita Casagrande e Nadine Nascimento (estudante de jornalismo da PUC e jornalista do Le Monde Diplomatique, Brasil). A estudante afirmou que enquanto organizasse o evento, o destaque de negras e brancas seria igual. O racismo é um problema estrutural do Brasil, e como afirmou Nadine, “não dá para discutir classe no Brasil, não dá para discutir gênero, sem discutir raça” – assim, a movimentação das alunas para a inserção de negras no debate elevou muito o nível da discussão.

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Foto: Marjorie Rodrigues.

 

Blogueira e ativista do movimento negro, Maria Rita foi a primeira palestrante da noite e iniciou sua fala afirmando que falta o apoio dos homens ao feminismo, e que isso também pode se aplicar ao racismo. Ao longo de seu discurso, Casagrande relatou brevemente sua trajetória de vida, repleta de opressões por ser uma mulher negra. Por conta da cor de sua pele e da forma de seu corpo, ela desistiu de sua graduação em moda, pois não conseguiu estágio, ouvia que não “se encaixava no mercado”; fez um curso técnico em informática, onde ouvia que o curso não era para mulheres, e que durante os trabalhos não eram delegadas à ela funções relacionadas com o que aprendia. Maria Rita sofreu machismo de seus professores, que deviam ajudá-la a vencê-lo, mas não o fizeram.

Nadine Nascimento foi a outra palestrante negra, repórter do Le Monde Diplomatique Brasil e estudante de jornalismo da PUC. Leu um discurso de uma escrava abolicionista feito em 1851 e falou sobre empatia, emocionando a todos no auditório. A estudante de baixa renda sofre com proibições e preocupações por morar numa região perigosa, ela afirmou que os homens não precisam tomar cuidado ao andar na rua, enquanto ela se priva de fazer diversas coisas pelo medo de ser violentada.

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Foto: Marjorie Rodrigues.

 

O machismo atua de várias formas na sociedade, desde uma piada até o auge da violência. Depois de sua avó, Nadine foi a primeira mulher da família a buscar uma formação acadêmica, e discorreu sobre as dificuldades de ser uma mulher negra na academia, e sobre seu medo de não ser aceita. Nadine não tem professores negros, e no departamento do seu curso são apenas 3 mulheres lecionando, mesmo que no jornalismo e nas universidades, as mulheres sejam maioria.

A palestrante destacou que a história dos negros não é ensinada na universidade, e a única ideia que se tem desse povo é seu sofrimento – ou seja – não são estudados pensadores, movimentos ou mesmo jornalistas negros durante o curso. Terminou pedindo empatia às pessoas ali presentes, para que, ao reconhecer a opressão que o outro passa, elas ajudassem, não se referindo apenas ao machismo, mas também ao racismo e qualquer outra forma de discriminação.

Jornalista, mãe de dois meninos e fundadora da Comum, Carol Patrocínio fez um discurso tocante. Além de relatar situações pessoais nas quais foi humilhada, a profissional explanou de forma concisa o quão desgastante é o seu dia a dia no jornalismo, por conta do machismo que, segundo ela, faz de todas as mulheres uma “piada”.

“Dói para os homens verem que a gente está aqui, e que a gente vai ocupar seus lugares”.

Carol afirmou que as mulheres são resistência e, por isso, não devem se calar, mesmo sendo taxadas de loucas, pois é necessário que os homens escutem, reflitam e fiquem quietos para a luta continuar, dentro e fora do ambiente universitário.

Para finalizar as palestras e abrir para o debate, Marcella Rosa ganhou a admiração de todos no auditório com sua fala, pautada por argumentos históricos e filosóficos. Corroborando com as ideias de Manuel Levinassi, a professora falou sobre alteridade, pois o homem desde o princípio é o todo, o neutro, enquanto o feminino é o alter, o outro, ou seja, é negativado e colocado em segundo plano.

Por isso, até mesmo a competência feminina, quando maior que a do homem, é masculinizada, o que retrata um pouco do cotidiano de Marcella, que está familiarizada com comentários machistas como “ela é mais macho que eu”.

As mulheres não são piada, logo, as risadas e olhares dirigidos a elas não podem ser levados na brincadeira. Reafirmando isso, a educadora comprova o machismo pela própria linguagem:

“Quando você fala dona de casa, pensa em uma mulher negra, limpando, mas quando fala em dono de casa, pensa em um proprietário”.

Finalizou seu discurso lembrando que a luta é antes do tempo, logo, é necessária esperança e muita força para continuar lutando diariamente contra esse preconceito, que é enraizado na nossa sociedade.

A primeira mulher a se levantar quando foi aberto o espaço para debate foi a Carol Carvalho, uma estudante de história, negra, que mora em Florianópolis, ou seja, sofre mais preconceito do que se imagina. Ela agradeceu a aluna, Ana Laura, por lutar para colocar mulheres negras na mesa e se sentiu livre para falar das dificuldades que vive em sua cidade, que ignora a existência e a capacidade das mulheres negras.

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Foto: Marjorie Rodrigues.

 

Carol se sentiu tão à vontade que, durante a palestra, anotou alguns assuntos do seu interesse para acrescentar na sua fala, se mostrando segura e feliz por ter aquele espaço para debate. Não só Carol, mas todas as mulheres presentes no evento se sentiram unidas e livres – ali todas tinham a voz e o poder em suas mãos.

Durante o debate a sororidade foi evidente, as mulheres se sentiram à vontade para falar e, portanto, se abriram. Muitos relatos de assédio, humilhação, medo, marcaram esse momento, tornando-o emocionante, o que trouxe muita esperança àquelas lutadoras.

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