Álbum 'folklore' e como Taylor Swift tece realidades
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Álbum ‘folklore’ e como Taylor Swift tece realidades

Álbum ‘folklore’ e como Taylor Swift tece realidades

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O conceito folclórico faz de Swift mais narradora do que personagem de suas histórias, ainda assim, onipresente

folklore
Álbum folklore, de Taylor Swift. | Foto: Reprodução.

Mais de um mês após seu lançamento, e folklore ainda retorna de forma recorrente aos meus pensamentos. Geralmente, isso não seria algo incomum, não fosse por quem dá origem ao álbum: Taylor Swift, artista com quem meus maiores contatos eram os hits que inundavam as rádios em eras passadas e, mais recentemente, com o álbum Lover – ainda assim sem grande impacto.

Este último traz mais da atmosfera que eu já esperaria de um ‘‘álbum da Taylor Swift’’, as canções voltadas para o pop com o claro talento em construção lírica, ainda que em serviço da festa e menos como protagonista. folklore não é isso.

Análise do álbum folklore

O oitavo álbum de Swift traz consigo uma nova perspectiva da e para a cantora. Partindo de sua estética, o single escolhido para introduzir folklore, Cardigan, reflete muito do conceito introspectivo e distante das canções. Um cenário isolado, bucólico, evocativo de contos de fadas e uma vida campesina na qual se passavam histórias por gerações e gerações. O videoclipe traz visuais fantásticos de instrumentos mágicos e reinos encantados, mas também grandes tormentas. De certa forma, este é o folclore que Swift cria com suas letras, uma brincadeira com gêneros e personagens que dividem com sua autora o sentimento de perda, amadurecimento e fantasia.

Abrindo com a faixa the 1, Swift relembra seus hinos para corações partidos, mas sem remoer perdas, focando no futuro e pensando nas possibilidades já impossíveis, no que seria e jamais poderá ser, mas que, no fim, tudo bem. O relembrar sem rancor é responsável, em grande parte, pela leveza sentida em folklore.

Em seguida, com ‘Cardigan’ e the last great american dynasty, há um aprofundamento maior no storytelling que é a essência do álbum. Tratando literalmente o conceito folclórico, Taylor Swift constrói narrativas inteiras dentro de suas canções, com heróis, ou anti-heróis, vilões e coadjuvantes. A riqueza de seus universos pode ser sentida com as diferentes referências entre músicas que se conectam por pequenas pistas deixadas pelo caminho.

Swift não se limita a uma caixa durante as dezessete faixas que compõem folklore, escrevendo, sim, do ponto de vista que pode ser mais facilmente traçado de volta a sua própria personalidade como eu lírico, mas também dando voz a uma persona infantil, ou soldados em campo de guerra e amores que já partiram. É neste ponto que o álbum mais se afasta do formato já esperado.

A combinação entre criação de mundos e uma construção melódica mais fechada faz de folklore um atestado ao poder que Swift tem com as palavras, arquitetando pontes marcantes e uma identidade única ainda enraizada em sua essência como artista. Uma comprovação de que a ideia que temos de Taylor Swift não é uma que projetamos na cantora e, sim, uma que esta projeta em si mesma, construindo sua própria marca além do esperado.

Por este viés, folklore é um atestado ao poder que Swift encapsula como artista. Limpar suas composições do volume estético e plasticidade do pop não é deixá-las menos impactantes, mas, sim, permitir que sua ressonância com o público seja exposta em sua forma primordial de relação lírica, mais crua e pura.

Taylor Swift
Taylor Swift. | Foto: Reprodução.

Com a faixa exile, co-protagonizada por Bon Iver, é possível analisar perfeitamente o conceito estético deste oitavo álbum. Uma narrativa de um casal que se reencontra em um ambiente feito denso pelo passado que compartilharam. A troca de sentimentos transmitida emocionalmente por performances quase que teatrais, literalmente, proporcionando uma troca entre personagens digna de um palco e cortinas vermelhas. Um desentendimento suplicado em camadas, que é evocativo de um roteiro. Uma história cantada, uma vida alheia trazida ao público por artistas que interpretam e permitem ser interpretados, passando para frente uma onda de folclores feitos infinitos em suas recontagens e interpretações…    

folklore reflete muito do momento em que foi composto, abraçando o isolamento e encontrando em uma vida simples e afastada, repleta de imaginação e histórias, todo o conforto necessário para se existir como alma artística, permitindo-se criar e fruir em meio à tranquilidade proporcionada pelo som do silêncio e todas as melodias que se escondem em cenas imaginadas por nós sobre aqueles que vieram antes.  

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Por Vinícius Soares Pereira – Fala! Cásper

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