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Afinal, o que é Terrorismo?

Afinal, o que é Terrorismo?


Por Beatriz Mazzei – Fala! Anhembi

Catalunha, Las Vegas, Nova York, Somália, Realengo. No nome dessas regiões fica o rastro de ataques que resultaram em milhares de mortos e feridos. O ano de 2017 foi marcado por diversas intervenções violentas de terror, e nesse cenário de alta incidência de massacres e atentados, existe a dificuldade em classificar o que é terrorismo, quais são suas características fundamentais e, afinal, quais são os critérios que distinguem o “atirador em massa” do “terrorista”.

Em termos de definição, “terrorismo” é usado para designar um atentado contra civis que cause pavor em uma comunidade e tenha motivações de cunho político e econômico. Contudo, principalmente após o atentado de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, assumido pela Al Qaeda, grupo extremista islâmico, as agências de notícia ocidentais, que são as influentes no mundo, passaram a relacionar o terrorismo com o mundo árabe e ao fundamentalismo religioso.

De acordo com o professor e jornalista José Augusto Lobato, a mídia passa por diversos impasses no momento de diferenciar o que é uma ação terrorista. “Muitas vezes recebemos notícias sobre crime organizado, assassinatos em massa, violência policial e atentados promovidos por chefes de tráfico, porém, a mídia não chama essas ações de terrorismo, por mais que elas sejam em si práticas terroristas. Essas implantações de terror foram bastante utilizadas pelos grupos do narcotráfico na Colômbia nos anos 80 e 90, por exemplo”, afirma o professor da Universidade Anhembi Morumbi.

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A diferença entre os casos citados pelo professor e o terrorismo que é veiculado nos canais de comunicação está na associação com o Oriente Médio. Esse é o ponto-chave que, segundo Augusto Lobato, ainda é usado como norte para a definição das práticas terroristas.  “No meio midiático existe um foco para o terrorismo internacional de base econômica, ligado ao Oriente Médio e equivocadamente associado à religião, como se a religião fosse um fator determinante para o terrorismo”, completa o professor.

A visão do Islamismo

Quando se fala em Oriente Médio, o Islamismo é a religião que conquista mais adeptos. De acordo com a Federação Das Associações Muçulmanas no Brasil (Fambras), o Islã é a religião que mais cresce no mundo, com quase 2 bilhões de fiéis. No caso do Brasil, 900 mil pessoas se declaram muçulmanas. Zainab Ramzi El Moukdad (20), estudante de nutrição e inglês é uma delas. De nacionalidade brasileira, a jovem mora em São Paulo com dois irmãos mais novos e com seus pais libaneses que se conheceram no Brasil no estado do Paraná. O pai é comerciante e a mãe, dona de casa.

Zainab acredita que os seguidores do Islã são bem acolhidos no Brasil. De acordo com ela, somos uma nação marcada pelas diferenças. “A comunidade islâmica no Brasil é muito bem respeitada. A liberdade, o respeito e a diversidade definem esse país”, conta a jovem.

Essa mesma linha de união e respeito entre os mulçumanos e brasileiros de demais credos é defendida por Ali Zoghbi, vice-presidente da Fambras, que acredita que existe uma convivência pacífica entre esses grupos. Contudo, para a Fambras, as coberturas midiáticas que associam o Islã ao terrorismo podem dificultar relações harmônicas e colaborar para o preconceito. Terroristas não podem ser chamados de religiosos, porque não representam o islamismo. Muçulmanos são pessoas comuns, que vivem em suas casas, trabalham honestamente, vão às mesquitas realizar suas orações, têm famílias, obrigações e pagam impostos. Terroristas são pessoas que se escondem atrás de uma falsa visão religiosa para praticar crimes e devem ser tratados como criminosos”, afirma Ali Zoghbi.

Os problemas da informação

A raiz desse impasse sobre a cobertura de conflitos está justamente na informação e nas escolhas que os veículos de comunicação fazem ao abordar o mundo árabe, a religião islâmica e o terrorismo. Segundo Zanib, na maioria das vezes a mídia acaba generalizado, usando a religião como pretexto para ações de interesses políticos e econômicos que não são explanados para a sociedade civil.

Sobre esse desconhecimento generalizado da sociedade, o professor Augusto Lobato reitera que a falta de ciência sobre o assunto é um dos fatores que deveriam ter maior atenção da mídia. “Para combater o terrorismo e evita-lo, é necessário que se faça uma análise das implicações geopolíticas. Ou seja, a falha está na contextualização, que é algo essencial para o público. As pessoas precisam saber sobre as forças econômicas que estão atuando e qual é o real interesse desses grupos, saindo do viés religioso e muitas vezes, do discurso xenofóbico”.

A xenofobia é um fenômeno que se encaixa nessa discussão sobre a definição do que é o terrorismo e quais são os discursos que sustentam essas classificações. De acordo com o representante da FAMBRAS, a xenofobia é a aversão às coisas ou pessoas estrangeiras, e a mídia pode ser capaz de inflar essas atitudes ou contribuir para cessá-las.

No contexto atual de governos conservadores como o de Donald Trump, Augusto afirma que a mídia deveria cumprir seu papel ético para cessar ações de cunho segregacionista, como a ideia de construir muros e barrar a entrada de pessoas de países de origem islâmica. “Se a mídia estivesse cumprindo seu papel, a tentativa do Trump de fechar o acesso de países de maioria islâmica seria rechaçada pelo próprio leitor, seja ele republicano, democrata, conservador ou progressista. O que interessa nesses casos é justamente denunciar a incoerência e a afronta ao direito dos cidadãos”, defende o professor.

Posicionamento é a palavra que Ali usa para comentar o que falta nos veículos de comunicação. Segundo o representante da FAMBRAS, os meios precisam ser mais incisivos nas discussões. “Qualquer movimento de segregação pode ser influenciado pela imprensa. O que é necessário é que a mídia tome um posicionamento: ela será a favor ou contra os atos bárbaros que são cometidos contra seres humanos apenas porque eles decidem seguir determinada crença?”

A substituição do termo Estado Islâmico por Daesh

No ano de 2015, o ex-ministro inglês, David Camerom discursou no Parlamento britânico para convencer os parlamentares a substituir o termo “Estado Islâmico” por “Daesh”, alegando que esse culto à morte não se trata de um Estado e também não representa o Islã.

Há tempos, Daesh é o termo usado por políticos como o  ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama e o francês François Hollande. De acordo com a Fambras, que defende fortemente a substituição do termo, DAESH é a sigla para al-Daula al-Islamiya al-Iraq wa Sham, que significa Estado Islâmico do Iraque, mas também é um trocadilho árabe para “Dahes”, uma frase que significa “aquele que semeia a discórdia”.

Para defender a abolição do uso de “Estado Islâmico”, o vice-presidente da Fambras declara em nota:

“Não podemos dar a um grupo de terroristas o status de Estado, porque Estado é um país soberano, com estrutura própria e politicamente organizado, é o conjunto das instituições que controlam e administram uma nação, é a forma de governo, regime político. Tratá-lo por Islâmico também não é correto, porque é como dizer que cada um dos muçulmanos pertence a um grupo terrorista ou que um grupo terrorista representa quase 2 bilhões de pessoas no mundo – e essa acusação é completamente falsa. Depois, não podemos promover uma organização que existe exclusivamente para fazer o mal, reconhecendo-a exatamente como ela quer ser reconhecida. Tratar o grupo terrorista por seu acrônimo Daesh é uma forma de se opor claramente às suas ações, enquanto chamá-lo de Estado Islâmico é aclamar seus feitos”

Por meio desses e outros argumentos, o representante da Federação das Associações Mulçumanas do Brasil solicita que a imprensa brasileira passe a usar o termo Daesh e ajude a combater a Islamofobia.

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