A romantização de relacionamentos abusivos na indústria cultural
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A romantização de relacionamentos abusivos na indústria cultural

A romantização de relacionamentos abusivos na indústria cultural

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Tendo origem durante o trovadorismo, a romantização de relacionamentos abusivos perpetua até hoje, distorcendo a forma com que milhares de pessoas enxergam o amor, muitas vezes visto como sinônimo de sofrimento ou dor — emocional ou física. O que antes era uma discussão quase silenciosa, hoje está a plenos pulmões, ganhando ainda mais força após a série de livros After ter ganhado tanto destaque, não só no mercado literário, mas também no mercado cinematográfico.

Como identificar um relacionamento abusivo?

Primeiro, é importante ressaltar que relacionamentos abusivos ocorrem independentemente de identidade de gênero, idade ou orientação sexual, não existindo apenas no âmbito romântico, no qual é pautado essa matéria, mas também no contexto familiar.

Segundo Daniel Machado — coordenador do núcleo de psicologia no Instituto Canção Nova — relacionamentos abusivos podem assumir diversas formas, como: imposição de ideias, isso é, o parceiro sempre está correto, nunca assume seus erros e tampouco pede perdão; o parceiro não enxerga as qualidades e virtudes em seu companheiro e nunca elogia ou o motiva, havendo a necessidade de ser o centro das atenções na relação, sendo possível notar um padrão de manipulação e necessidade de controle.

Em entrevista à BBC News Brasil, a psicóloga Pollyana Abreu, exemplifica uma situação recorrente em relacionamentos abusivos:

Ele tira o poder social dessa mulher principalmente com pessoas que teriam condições de alertá-la. E isso pode acontecer de forma sutil, como comprando propositalmente uma casa lá do outro lado da cidade, ou falando que as amigas não prestam. As coisas vão se escalando e a última etapa, em alguns casos, é o feminicídio, ou seja, quando essa mulher é morta.

Segundo a psicóloga, acrescentando ao que foi observado como padrão manipulativo por Daniel Machado, atitudes abusivas vêm acompanhadas de pedidos de desculpas e promessas — vazias — de melhora do agressor. Essa fase, marcada pelo remorso do agressor e o perdão da vítima, recebe o nome “Lua de Mel” e é o estopim para o ciclo vicioso presente em relacionamentos abusivos.

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Representação de um relacionamento abusivo. | Foto: Reprodução.

A origem da ideia de que amar deve ser sinônimo de sofrer

Surgiu durante o reinado de Leonor de Aquitânia, no século XII, considerada uma das rainhas mais notórias da França, era muito culta e falava diversas línguas, e, com sua ideia de “amor cortês”, revolucionou a literatura ocidental. Precursor do amor romântico, o amor cortês estimulou trovadores a escreverem poesias colocando mulheres em um pedestal, sendo dignas de amor e afeto, sendo enaltecido um amor sofredor, muitas vezes sobre uma dama idealizada e um amor impossível.

Mas foram com as regras, conhecidas como “Código do Amor”, criadas por sua filha, Maria de Champagne, anos depois, que as obras passaram a ser marcadas por enredos angustiantes, sofredores, tristes e trágicos, assim surgindo a ideia de que o amor vem acompanhado de dor emocional e, às vezes, física.

A romantização em objetos culturais

Muitas vezes, a mocinha é retratada como alguém sem muitos atrativos físicos, frágil, indesejada, mas surge o protagonista que faz o “favor” de amá-la apesar de todos os seus defeitos, imperfeições e coisas que ele certamente mudaria nela — e que em algum ponto da obra, o mocinho vai jogar na “cara” dela.

Seja em músicas, filmes, séries, novelas ou livros, a romantização se faz presente, algumas vezes passando despercebida. A cantora Kelly Key relata na canção Por Causa de Você as mudanças que teve de fazer por conta do namorado, desde a forma que se vestia até as relações que possuía, mais uma vez, retomamos ao pensamento de Daniel Machado, em que há a necessidade de controle. Nesse sentido, também é possível citar o livro Belo Desastre, em que o protagonista, Travis Maddox, é extremamente violento, possessivo, ciumento e grosseiro, mas tudo isso é encoberto pelo — suposto — amor incondicional que ele sentia pela personagem principal, Abby Abernathy.

No filme 365 Dni, o relacionamento abusivo não é apenas romantizado, mas também erotizado, a vítima se apaixona por seu sequestrador — um mafioso, mal educado, possessivo, mulherengo e violento — e é mantida em cárcere, sendo assediada por Massimo e seus amigos, além de ser tratada como posse do criminoso. Em séries, também é de fácil identificação esse tipo conturbado de “amor”, como em The Vampire Diaries, o relacionamento entre Damon e Elena chama a atenção, o vampiro ameaçou inúmeras vezes matar amigos e familiares da mocinha e, mesmo assim, Elena o perdoava, sempre dizendo que, apesar de tudo, ele era uma boa pessoa. Esses são apenas quatro exemplos, de incontáveis outros, de obras que transformam atitudes violentas, sejam físicas ou psicológicas, em objeto de desejo, como um amor idealizado, sexy e de tirar o fôlego.

A problemática da romantização de relacionamentos abusivos

Com o surgimento do amor romântico, houve uma supervalorização em relação ao parceiro, que deve ser sua alma gêmea, caso contrário, o relacionamento está fadado ao fracasso. A romantização contribui para a construção da premissa de que tudo, em nome do amor, é válido, seja ciúmes excessivo, constrangimentos, controle de sua vida — emocional, financeira, social, profissional e entre outros aspectos —, violência de todas as naturezas ou, em último recurso, assassinato.

O comportamento abusivo é justificado com uma suposta incompreensão dos reais sentimentos do agressor, a partir de traumas do passado que tenham modificado a forma com que esse personagem enxerga a si e ao mundo — esse tipo de enredo se torna muito presente em livros Young Adult e New Adult, além de séries e filmes voltados para o público feminino entre 14 e 21 anos.

O sociólogo Anthony Giddens, em seu livro A Transformação da Intimidade, afirma que a literatura romântica era, e continua sendo, uma literatura de esperança. Em seguida, também diz que, nessas obras, a mocinha tem o papel de domar e amansar o coração do personagem principal, como prova de que o amor vence tudo.

Tendo tudo isso em vista, o grande problema nasce nesse exato ponto, a junção do público-alvo dessas narrativas e a função que a mocinha desempenha nelas. Meninas entrando na adolescência, e consequentemente iniciando sua vida amorosa, se espelham nessas histórias e enxergam nelas a ideia do amor que querem para si, sendo incapazes de perceber os traços tóxicos, abusivos e violentos, já que todas as atitudes e situações são justificadas com a intensidade da paixão do mocinho pela personagem. Essas meninas vão crescer com a ideia de que podem mudar seus agressores, já que, pelo amor, tudo vale a pena, mesmo se esse “tudo” passe por cima do seu próprio bem-estar.

Os consumidores dessas obras, passam a normalizar atitudes alarmantes, tornando-se mais propensas a se tornarem vítimas desses relacionamentos, já que consideram o que está sendo retratado amor em sua mais pura forma —intenso e sofrido. Como comprova a pesquisa realizada pela estudante de comunicação na Universidade de Michigan, Julia R. Lippman, disponível no Sage Journal, a maior parte das mulheres expostas a filmes que romantizam a prática “stalking” — perseguição da vítima, monitoração de sua vida, podendo incluir assédios e intimidações — há maior suscetibilidade para aceitação de relacionamentos dessa natureza.

Nesse sentido, a indústria cultural desempenha importante papel para a desmistificação do conceito de amor ser sinônimo a uma montanha-russa de sentimentos, mas falha, como comprovado no decorrer da matéria, e segue colaborando com a propagação dessa idealização e romantização de amor sofrido, de modo a dificultar a percepção de vítimas da situação em que se encontram, visto que atitudes alarmantes são normalizadas e romantizadas.

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Por Carol Gonçalves – Fala! Cásper

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