'A Revolução dos Bichos' e sua afronta ao Stalinismo
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‘A Revolução dos Bichos’ e sua afronta ao Stalinismo

‘A Revolução dos Bichos’ e sua afronta ao Stalinismo

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A Revolução dos Bichos, obra publicada em 1945, após ser inúmeras vezes rejeitada, do escritor norte-indiano George Orwell (Eric Arthur Blair) foi e ainda é um marco literário. De modo inteligente e refinado, Orwell critica os horrores da ditadura Stalinista que se estabeleceu na URSS entre 1927 e 1953.

É importante ressaltar desde o princípio que Orwell era socialista, logo, seu livro é uma alegoria que critica não o comunismo em si, mas o “falso comunismo” consequente da ditadura de Stalin. Segundo o escritor: “Nada contribuiu tanto para a corrupção da ideia original do socialismo quanto a crença de que a Rússia é um país socialista”.

Inclusive, durante a Guerra Fria, a obra foi utilizada como jogada de marketing dos capitalistas para depreciar a ideologia comunista, o que não foi bem quisto pelo próprio autor. Uma vez que se entende de fato o significado de A Revolução dos Bichos, a fábula nunca mais será vista com os olhos de antes.

A Revolução dos Bichos
A Revolução dos Bichos com a clássica capa da Companhia das Letras. | Foto: Reprodução.

Livro A Revolução dos Bichos

Tudo se inicia quando conhecemos a Granja do Solar, propriedade do sr. Jones, local este que será o ambiente da história em questão. Logo de início, nota-se que os animais estão se reunindo para escutar um velho e respeitado porco chamado Major, que deseja contar aos demais sobre um sonho que teve.

Introduz seu discurso com ideias que podem ser condensadas em trechos de sua fala como: “A vida do animal é feita de miséria e escravidão […] Por que, então, permanecemos nesta miséria? Porque quase todo o produto do nosso esforço nos é roubado […] Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males da nossa existência têm origem na tirania dos humanos? Basta que nos livremos do Homem para que o produto de nosso trabalho seja só nosso” (A Revolução dos Bichos – George Orwell; tradução: Heitor Aquino Ferreira; Companhia das Letras, 2007; pgs. 12 e 13).

Inegavelmente a fala por si já traz a ideia alicerce do comunismo de Marx e Engels: o trabalhador como protagonista e detentor dos meios de produção, que deixa – enfim – de ser explorado pelo patrão. O sonho de Major é um mundo no qual não exista mais a figura do Homem, o que consequentemente colocaria fim ao sofrimento dos animais. Tal sonho permanece mesmo após sua morte e é difundido entre os animais da fazenda, se cria, então, o sistema de pensamento denominado ‘‘Animalismo’’ que possui até mesmo seus mandamentos próprios, que são resumidos (para melhor entendimento de todos os animais) em um único que sintetiza os demais: “Quatro pernas bom, duas pernas ruim.”.

Inevitavelmente, a revolução acontece, os animais tomam a fazenda e os porcos Napoleão (representação de Stalin) e Bola-de-Neve (representação de Trotsky) assumem a liderança e a granja passa a se chamar Granja dos Bichos. Tal como os indivíduos que serviram de inspiração para Orwell, os personagens também discordavam nas opiniões: “Segundo Napoleão, o que os animais deveriam fazer era conseguir armas de fogo e instituir-se em seu emprego. Bola-de-Neve achava que deveriam […] provocar a rebelião em outras granjas. O primeiro argumentava que, incapazes de defender-se, estavam destinados à submissão; o outro alegava que, fomentando revoluções em toda parte, não teriam necessidade de defender-se.” (pg. 46).

Após um tempo, Napoleão dá um golpe usando de cachorros que havia treinado (se ele é o ditador, os cães representam seu exército pessoal ou a força militar que protege ele e seus interesses) e expulsa Bola-de-Neve da Granja. A partir de então, os porcos que já possuíam mais privilégios, mais conforto e menos trabalho que os outros, passam a ter ainda mais benefícios.

Para falar com os demais animais e convencê-los de que tudo está bem, temos a figura de Garganta, que seria a representação dos meios midiáticos que fazem propaganda para os governos ditatoriais. Ele convence a população de que as coisas vão bem, de que antes tudo era muito pior e agora estava maravilhoso, de que, apesar de parecerem ter benefícios, os governantes se esforçavam imensamente para administrar e carregavam um terrível e pesado fardo; por fim, os animais sempre aceitavam aquilo que Garganta tinha a capacidade de tornar verdade absoluta.

A Revolução dos Bichos
A Revolução dos Bichos. | Foto: YouTube/Divulgação.

É de vital importância destacar, também, alguns outros personagens que têm forte representação na fábula e grande significância. O cavalo Sansão é a metáfora perfeita para uma classe trabalhadora braçal, forte, mas infelizmente despolitizada e sem acesso à informação. Sua vida se regia baseada em duas frases que repetia para si mesmo constantemente: “Trabalharei mais ainda” e “Napoleão tem sempre razão”. Essa ideia de um líder perfeito não é incomum em governos ditatoriais que se estabelecem, tal qual no caso da história.

Seguindo ainda a ideia de culto ao líder tem-se as ovelhas, que ao final de quase todas as falas de Napoleão gritavam o lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Durante alguns minutos, evitando, assim, que qualquer tipo de opinião contrária pudesse ser expressada e garantindo que os dizeres de Napoleão permanecessem. Seria, todavia, um equívoco pensar que as ovelhas cultuavam o lema, elas cultuavam, de fato, aquele a quem elas eram submissas: Napoleão e os porcos. Prova disso é que, ao final do livro, quando indo contra todos os dizeres e ideias originais do Animalismo, (que abominava qualquer atitude humana) os porcos passam a andar em duas patas, vestir roupas e usar chicotes, as ovelhas dizem em coro: “Quatro pernas bom, duas pernas melhor!” (pg. 106).

A figura de Napoleão é claramente a figura do ditador, que, por meios violentos e golpistas, toma o poder e se mantém no mesmo. Em diversos momentos da história, o personagem usa da força para perseguir e/ou matar seus opositores (ação realizada também pelo próprio Stalin durante sua ditadura).

Os porcos, como um todo, representam uma classe, esta possui privilégios únicos como: morar na casa do antigo dono, comer mais, trabalhar menos, assumir postos de liderança e, ao decorrer da história, fazer coisas que antes eram proibidas dentre os animais, como, por exemplo, beber e se vestir. Em uma sociedade pautada em um ideal que se baseia em um sistema igualitário, privilégios não deveriam ser recorrentes, entretanto, para os líderes (ou a classe dominante) são! Tal qual ocorria na ditadura “comunista” russa.

Stalin
Joseph Stalin. | Foto: Wikimedia Commons.

Importância do livro

A importância deste livro ultrapassa a ideia de uma crítica pontual. Foi uma obra escrita em um contexto específico, e sobretudo, evidencia a questão dos horrores de um governo autoritário e ditatorial que priva o povo (nesse caso, os bichos) de suas liberdades e o deixa sofrer em condições precárias, enquanto os governantes usufruem de excelentes condições de vida (algo parecido é abordado na obra do mesmo autor: 1984, publicada em 1949).

Ao fim da história, os porcos, liderados por Napoleão, já fazem tudo aquilo que o seu antigo dono fazia: usam chicote para bater nos animais, os maltratam e exigem trabalhos excessivos sem recompensá-los. E os animais, por outro lado, não se revoltam; nem sequer lembram como era a vida antes da revolução para comparar as realidades. E, para piorar, acreditam em tudo que o porta-voz Garganta os diz.

 A história se conclui com um jantar, entre Napoleão (e os porcos) e os donos das granjas vizinhas, na qual ele, inclusive, altera o nome da “Granja dos Bichos” novamente para “Granja do Solar” (fato que traz consigo imenso significado). Ele, que um dia desejou o extermínio do homem, figura que oprimia sua raça, simpatizou com o mesmo a ponto de fazer acordos, jantar e brindar, como iguais. Tal encontro no final do livro é uma referência irônica ao famoso encontro de Teerã que reuniu Churchill, Roosevelt e Stalin, ocorrido em 1943.

E o livro termina com os demais animais observando do lado de fora da janela tudo que se passava no interior da casa, no que talvez seja um dos melhores finais que já li: “Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”. (pg. 112).

A Revolução dos Bichos entrou para a história, ao trazer muito além do que uma fábula simplista traria. Ao entender o contexto e interpretar as metáforas o enredo se torna uma aula que tem muito a acrescentar intelectualmente de forma didaticamente divertida.

No prefácio escrito por Orwell para a edição ucraniana de seu livro publicada em 1947, ele diz: “Não quero comentar a obra; se ela não falar por si mesma, é porque fracassou”, felizmente, podemos chegar à conclusão de que, no final das contas – tanto Orwell quanto seu escrito – foram extremamente bem-sucedidos. 

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Por Milson Cardoso – Fala! UFG

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