A representatividade negra na política
Menu & Busca
A representatividade negra na política

A representatividade negra na política

Home > Notícias > Política > A representatividade negra na política

Certamente, é possível observarmos o crescimento da população preta e parda (definida como negros pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no Brasil durante as últimas décadas. Segundo dados do IBGE, no ano 2000, 44,7% da população se autodeclarava negra. Em 2010, os dados informavam que 50,7% dos brasileiros se autodeclaravam negros e, finalmente, neste ano, são 56,7% dos que se autodeclaram pretos e pardos.

O crescimento desse índice a partir da autodeclaração é bastante positivo para o desenvolvimento de uma memória social adequada da comunidade negra no Brasil, para o constante aperfeiçoamento de políticas públicas, a fim de sanar os problemas desse segmento da população, e mostra que, cada vez mais, cresce o sentimento de pertencimento e o desenvolvimento da identidade.

representatividade
A representatividade negra no campo político. | Foto: Reprodução.

Representatividade negra na política

Por isso, tendo em vista que mais da metade dos habitantes do Brasil se autodeclaram pretos e pardos, é estranho perceber que isso não abrange os espectros políticos partidários da nossa sociedade. Em 2018, Tadeu Kaçula, presidente do Núcleo de Pesquisa Biblioteca Clóvis Moura da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, citou dados para demonstrar a pouca representatividade negra nas esferas do poder no país: dos 513 deputados federais, 24 são negros. Dos 81 senadores, três são negros. Dos 5.570 prefeitos, 1.604 são negros. Dos 57.838 vereadores, 24.282, são negros. Dos governadores dos estados e do DF, nenhum é negro. Dos ministros do STF, nenhum é negro.

Em 2014, no “Festival de Latinidades: Griôs da Diáspora Negra”, em Brasília, Angela Davis se preocupou com o assunto, afirmando que:

Não posso falar com autoridade no Brasil, mas, às vezes, não é preciso ser especialista para perceber que alguma coisa está errada em um país cuja maioria é negra e a representação é majoritariamente branca.                                                                             

O preocupante, sobretudo, é que a desigualdade racial na representação política partidária se mostra constante desde muitos anos atrás (lembremos da Frente Negra Brasileira, que na década de 1930 lutava  pelos direitos da comunidade negra) e, pelo visto, não vai ser sanado nos próximos anos. Em 1982, um documento intitulado “O Censo de 1980 no Brasil e no Estado de São Paulo e suas curiosidades e preocupações”, elaborado pelo economista Benedito Pio da Silva no governo Paulo Maluf, expunha o plano de extinção da população negra. O documento alertava sobre a necessidade do controle de natalidade dessa parte da população e afirmava que a população branca já estava consciente dessa problemática:

A população branca corresponde a 55%, a parda a 38%, a negra a 6% e a amarela a 1%. De 1970 para 1980 a população branca reduziu-se de 61% para 55% e a parda aumentou de 29% para 38% […]. Enquanto a população branca praticamente já se conscientizou da necessidade de controlar a natalidade, principalmente nas classes médias e altas, a negra e a parda elevaram seus índices de expansão em 10 anos, de 29 para 38%. Assim temos, 65 milhões de brancos, 45 milhões de pardos e um milhão de negros. A manter essa tendência no ano 2000 a população parda e negra será de ordem de 60%, portanto muito superior à branca, e eleitoralmente poderá mandar na política e dominar postos chaves. A não ser que façamos como em Washington, capital dos Estados Unidos, que devido ao fato da população negra ser da ordem de 63% não há eleições.

Lembremos aqui, ainda, do covarde assassinato da ex-vereadora e socióloga Marielle Franco, que foi relembrado por Keka Bagno em uma reunião do Conselho de Direitos Humanos e Legislação Participativa, como uma tentativa de impedir a ascensão do protagonismo negro.

A forma de tratamento dada até hoje a nós, negros, é enfurecedora ao mesmo tempo que é triste. Ainda nas eleições de 2018, a soma dos números dos autodeclarados pretos e pardos para um cargo político foi de cerca de 41% para deputado federal, 46% para deputado estadual, mas apenas 4% dos parlamentares eram pretos, ou seja, das 1.626 vagas para deputados, apenas 65 foram preenchidas por pretos autodeclarados, segundo dados do TSE.

Precisamos continuar nos atentando para a visibilidade e representatividade desse grupo na política a todo momento. As políticas públicas criadas e aperfeiçoadas até agora são frutos de séculos de lutas e resistência. Graças a elas, no ano passado, pela primeira vez na história, negros são a maioria dentro das universidades, mais precisamente 50,3%.

Graças a essas políticas, também (com mudanças na legislação eleitoral) tivemos um crescimento das candidaturas negras, quilombolas, femininas e trans. Em Recife, por exemplo, Dani Portela (PSOL), mulher e negra, com demandas voltadas à população negra recifense, foi a candidata à vereadora mais votada.

Ainda com as melhorias vistas, muito precisa ser feito para acabar, ou ao menos diminuir, a desigualdade social que é tão latente neste país, e isso só será possível com uma comunidade brasileira educada, conscientizada e crítica, que tenha empatia pelo próximo e que se importe com os problemas aqui vividos.

_____________________________
Por Paulo Matheus – Fala! UFRPE

Tags mais acessadas