A invenção revolucionária (ou nem tanto) do anticoncepcional
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A invenção revolucionária (ou nem tanto) do anticoncepcional

A invenção revolucionária (ou nem tanto) do anticoncepcional

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A pílula anticoncepcional esteve em período de teste durante toda a década de cinquenta e foi finalmente lançada dez anos depois, com sua primeira patente nomeada de Enovid, nos Estados Unidos. 

Tudo começou com uma iniciativa da ativista e educadora sexual Margaret Sanger e a milionária financiadora do projeto, Katherine McCormick, além do respaldo científico do biólogo Gregory Pincus e do ginecologista John Rock. Na época, métodos de contracepção eram proibidos no país e, por razão disso, a pesquisa foi maquiada para ser retratada como um estudo para aliviar os sintomas da menstruação

Como funciona o anticoncepcional

A grosso modo, o contraceptivo oral funciona como uma enganação do corpo feminino, evitando a ovulação: ao, diariamente, consumir hormônios artificiais da progesterona e estrogênio, ele acredita já estar gestando e, por isso, nenhum óvulo é liberado, o colo do útero permanece fechado e o endométrio continua fino, impedindo a gravidez, de fato. 

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A pílula anticoncepcional impede que a mulher engravide. | Foto: Reprodução.

Processo de aprovação do medicamento

Para conseguir a aprovação do remédio, assim como comprovar sua eficácia ao mesmo tempo que desenvolviam uma fórmula com composição ideal, testes precisaram ser realizados. Como, inicialmente, o estudo não podia ser divulgado ao público e nem era permitido, as poucas mulheres que se dispunham a passar pela fase de experimentação logo abandonaram suas posições de cobaias por causa dos fortes efeitos colaterais causados: dores, coágulos sanguíneos, hemorragias e náusea.

Embora, ainda assim, algumas tenham permanecido dentro do projeto, sem capacidade de negar, uma vez que muitas eram estudantes de medicina e tinham suas vagas ameaçadas caso o fizessem ou porque eram pacientes com doenças mentais de um hospital associado a Harvard, para a aprovação do FDA (Food and Drug Administration), a agência federal fiscalizadora das áreas de alimentação e saúde dos EUA, era preciso a realização de testes em maior escala. 

Porto Rico, onde a legislação implorava por métodos contraceptivos e as mulheres tinham cerca de 5,2 filhos cada, além da forte influência do movimento eugenista, havia poucos impedimentos reguladores e práticos que cercaram os cientistas. Então o país caribenho foi escolhido. 

Sem serem informadas dos riscos ou efeitos colaterais que o remédio, ainda em fase de pesquisa, poderia causar (na época, o “consentimento informado” das pacientes não era lei e, portanto, não era cobrado das autoridades legais), e desesperadas para fugirem da esterilização violenta à qual o Estado as submetia, milhares de mulheres porto-riquenhas consumiram concentrações hormonais dez vezes maiores do que as permitidas atualmente.  

Vinte e dois por cento das participantes desistiram no meio dos testes e três mulheres chegaram a morrer, mas nenhuma autópsia nunca foi realizada para comprovação de ter sido por razão de possuir alguma ligação com a pílula. Após o término da pesquisa e a aprovação concedida pelo FDA, os cientistas voltaram aos Estados Unidos para lançar o medicamento, sem fornecer suporte algum às mulheres latino-americanas depois disso. 

Recepção da pílula anticoncepcional

Embora a inserção da mulher no mercado de trabalho nos EUA tenha invariavelmente aumentado, assim como a aparente revolução dos direitos sexuais e reprodutivos femininos tenha ocorrido, a verdade é que o remédio raramente era prescrito pelos ginecologistas para mulheres solteiras. E, depois de dez anos de diferentes formulações hormonais mesmo após o lançamento, foram convocadas audiências para debater acerca dos efeitos colaterais da pílula, na qual só foram permitidas a presença de homens. 

Tudo isso por causa do lançamento do livro The Doctors’ Case Against the Pill, em 1970, da jornalista investigativa Barbara Seaman. Nele, eram descritos os inúmeros problemas e riscos do Enovid, contendo dados de conhecimento geral dos médicos e profusamente também escondidos por eles.  

As mulheres participantes do D.C Woman’s Liberation protestaram contra a falta de presença feminina nessas audiências e fizeram suas aparições mesmo assim. O resultado final disso foi a diminuição dos hormônios nos contraceptivos orais e a inserção na bula sobre os efeitos secundários da pílula – e várias drogas subsequentes. 

Nada é, de fato, feito para mulheres se feriu, em sua história, muitas outras. Saber reconhecer as ambivalências dentro de uma invenção que, hoje, 100 milhões de corpos femininos colocam em seus corpos é contemplar, também, os erros de uma conquista.   

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Por Maria Edhuarda Gonzaga Castro – Fala! Cásper

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