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A Indústria do Medo – Confira a Opinião de um Aluno Sobre Mídia e Manipulação

A Indústria do Medo – Confira a Opinião de um Aluno Sobre Mídia e Manipulação

São mais de cinco décadas que os separam, porém, ambos períodos históricos possuem semelhanças assustadoras. Tanto a ditadura militar, quanto os conflitos terroristas atuais, representam agressões à democracia e liberdade de expressão. Mais do que semelhantes na brutalidade exercida para com as vítimas e no abuso de poder, tanto político como militar, para atingir seus objetivos, tais regimes apresentam uma ideologia e um método de alienação popular que se não partem da mesma fonte, compartilham características que de tão iguais, formam um manual do medo deveras preocupante. E nós, da imprensa, temos uma grande relação com isso tudo.

Partamos do princípio e do óbvio: tais acontecimentos não teriam tanta força se não fosse pela mídia. Para observar isso na prática, basta buscar a manchete de um jornal de 31 de março de 1964 para observar a exaltação da vitória da democracia, a garantia de tempos áureos, sem a ameaça dos sujos e pérfidos comunistas, representados naquele momento na figura de João Goulart, mesmo sem apresentar provas concretas de que ele realmente empregaria um regime socialista e de que os comunistas realmente eram sujos e pérfidos.

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Foto: bulevoador.com.br

 

Agora, pegue uma matéria sobre um ataque terrorista, seja ela o da França, do 11 de setembro, o ataque sírio ou alguma detalhando o funcionamento do Hezbollah. Se for uma matéria norte americana ou europeia, melhor. Tente buscar neles algum parágrafo em que é explicado as motivações dos terroristas e o quanto suas atitudes diferem do que a religião islâmica prega. Dado os exemplos, vemos como semelhança uma reportagem tendenciosa, onde uma única visão é trabalhada, e ainda muitas vezes mal fundamentada, onde o objetivo é fomentar o medo em quem buscou essa informação, o mesmo medo que motivou grande parcela dos brasileiros a apoiar o golpe de 64, o mesmo medo que alimenta o estereótipo de que todo muçulmano é terrorista, e que todo terrorista, é muçulmano.

Sem generalizações. Obviamente, nem todo veículo de imprensa pensa desse modo. Inclusive, muitos jornalistas pagaram pelo erro do apoio à ditadura, e não são poucos os profissionais que são assassinados por declarar informações e visões estereotipadas também, dos grupos terroristas. Porém, tais mídias são raras, pois a cultura midiática da polarização entre vilões contra mocinhos já nos é tão natural (em nível mundial), que fica a impressão que notícia que vende é notícia polarizada, então são poucos que se prestam ao trabalho de pesquisar com afinco os dois lados da história, separando o que é mito do que é real, buscar entender o que motiva o suposto agressor.

Pesquisa, desmitificação e entendimento. Três palavras chaves que seriam essenciais para evitar a ditadura e são necessárias para combater o terrorismo. Se a mídia tivesse buscado entender o real objetivo dos ditadores nos anos sessenta, e visto que nada que eles propagavam fazia sentido, não seria criado o mito do “monstro comunista”, e, sem medo do desconhecido, dificilmente apoiaríamos uma intervenção militar.

Com base nisso, é nítida a percepção de que, se os grandes canais de comunicação reforçassem que grupos como o Jihad buscam uma visão deturpada da religião islâmica, e mostrasse a seu público os verdadeiros costumes e valores praticados pelos muçulmanos, o preconceito diminuiria drasticamente e o debate sobre terrorismo seria muito mais ético e produtivo. Não seria utópico dizer que, sem a ideologia da polarização, problemas que persistem há séculos, como a questão da disputa pelo território da Palestina, a implantação do Estado Islâmico desejado pelo ISIS e o embargo a Cuba, que recentemente apresentou indícios de resolução, seriam resolvidos facilmente, pois sem a mistificação do assunto, em um debate onde heróis e vilões não fossem pré-definidos, haveria por parte da população um interesse maior pelo assunto, dessa vez desprovidos do medo, e, consequentemente, se envolveriam em busca da resolução. Porém, como dito anteriormente, não há um interesse midiático de que tais problemas se resolvam tão facilmente. Motivos? Sem sensacionalismo, menos manchetes para se vender.

A culpa não é só nossa, meros comunicadores. Tanto a ditadura quanto as guerras, sejam elas religiosas ou por motivos diversos, beneficiam outros governos e seus interesses. Coincidentemente, por trás desses dois períodos históricos que estamos analisando, existe a mesma mão manipulando as marionetes diplomáticas. Tanto os militares brasileiros como as principais forças que lutam contra o ISIS, possuem influências diretas dos Estados Unidos da América. Se em 64 a influência, apesar de nunca ter sido explicitada na época, foi direta, explícita e decisiva, atualmente a forma de agir é mais cautelosa. A partir do atentado do 11 de setembro de 2001, a já existente estereotipagem para com muçulmanos se tornou mais intensa, carregando em suas definições uma incitação ao ódio a qualquer cidadão que apresentasse o mais fino traço árabe. Essa é a justificativa que, mesmo sendo empregada implicitamente,  serve de base para a maioria da taxação de inimigos que devem ser combatidos. Não é pelo fato de lutar contra o modo de vida ocidental, que também prejudica em muito os EUA, que o Jihad deve ser combatido, mas sim por ser um grupo árabe. Não foi pelas supostas armas nucleares em 2003 ou pelo fato de Saddam Hussein ser um ditador sanguinário, foi uma vingança em nome das vítimas do World Trade Center.

Os Estados Unidos não luta sozinho, sempre há países aliados e, claro, a ajuda da mídia envolvidos para dar suporte a eles, porém, o lucro sempre retorna, em sua grande maioria, apenas para o bolso norte americano, assim como os louros da glória sempre a enfeitá-los. Esse parágrafo não foi criado com o fim de formar uma aliança anti-imperialismo americano, mas seu fim foi mostrar que a indústria do medo só funciona porque interessa a alguém.

E ela continuará existindo, infelizmente, pois sociedades podem até acabar, porém os interesses permanecem. Mesmo que o Jihad seja derrotado, seja ele pelo modo sanguinário das guerras ou pelo modo da conscientização, educação e desconstrução dos preconceitos, sempre haverá um novo conflito, um novo interesse, uma nova era a ser imposta, mesmo que não saibamos a consequência de instalação dela. E se engana quem pensa que aqui, no Brasil, a manipulação da massa através do medo acabou em 1985. Basta observar ao nosso redor. Na televisão, é o avanço ocidental do terrorismo, que já nos faz desconfiar daquele colega de trabalho com traços árabes e sobrenome incomum. No jornal diário, a violência que cresce de modo desenfreado, fazendo que a gente tenha medo do assaltante da camiseta rasgada, porém esqueça do criminoso do colarinho branco.

Nas manifestações, cada vez mais propagandas políticas fora de época: de um lado vemos uma multidão nos alertando sobre a elite opressora que virá para exterminar os mais pobres, enquanto do outro uma massa igualmente grande que nos avisa do começo de uma ditadura comunista, e que ainda clama por intervenção militar. E se você tentar debater com essa pessoa, o errado é você, pois ela está segura que a informação passada é verdadeira, afinal, ela viu isso na internet.

Infelizmente, já não é mais possível separar o real do manipulado apenas folheando o jornal, buscando uma reportagem ou discutindo em um fórum. É preciso muito estudo, muita pesquisa, apurar fato por fato, opinião por opinião, ideia por ideia, para buscar entender se nosso medo é justificado, e nossa visão, concreta. Porém, de concreto mesmo é que temos medo. Só nos resta saber do quê.

Lucas Sam- Fala! Cásper

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