A incompetência na gestão dos clubes de futebol no Brasil
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A incompetência na gestão dos clubes de futebol no Brasil

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Como clubes de futebol com enorme tradição podem ser destruídos por diretorias egoístas e incompetentes

Existem duas coisas no mundo que regem nações e grande parte da sociedade almeja constantemente: o dinheiro e o poder.

Para nosso pesar, nem sempre ambos direitos estão sob controle de quem realmente faria algo bom. Talvez isso ocorra porque os políticos agem com imoralidade, ou porque são corrompidos por tamanho luxo que seus cargos lhes disponibilizam. A questão é que a política está vigorosamente entrelaçada com as duas palavras, e não é à toa que seja muito comum vermos grande podridão no meio político, principalmente aqui, no Brasil.

Por ser um reflexo da sociedade, o futebol não fica de fora disso. Clubes com histórias memoráveis são cada vez mais destruídos por presidentes e diretorias que estão despreparadas ou simplesmente governam com má-fé. Todos querem ficar marcados na história, o que, muitas vezes, leva ao egoísmo, já que o futuro do clube não é pensado, mas sim, o imediatismo de conquistas e títulos na tentativa de associar a diretoria vigente como super vencedora.

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Cruzeiro foi campeão em 2018, mas, hoje, encontra-se em uma situação deplorável. | Foto: Reprodução. 

A receita perfeita e o futebol

Fazendo uma simples analogia, é como se fosse uma receita de bolo: primeiro vem a promessa de um prato perfeito, seguido de um passo a passo e instruções de como deixá-lo saboroso. Depois, ele é levado ao forno e provado para descobrir se fez jus ao prometido. É um processo a ser seguido.

Fortuitamente, a receita de como comandar a decadência de um clube e consequente queda para a segunda divisão também precede de uma receita. Para começar, as promessas de títulos e de grandiosidade são feitas.

Depois, há o gasto de um dinheiro inexistente com contratações, que muitas vezes não correspondem ao valor pago, além do indevido desvio monetário recebido pelo clube conforme o decorrer da temporada, acumulando dívidas para futuras gestões. Todo esse processo é refletido em campo nas constantes trocas de técnico e no mau desempenho dos jogadores.

Enquanto o bolo é feito, há a distração com o que acontece ao redor, desde aquela mosca sobrevoando a cozinha, até vitórias contra times de menor expressão.

Contudo, também há um momento em que o bolo passa do ponto e queima. Logo, o momento do rebaixamento vem à tona. Cruzeiro em 2019, Internacional em 2016, Botafogo em 2014 e Vasco em 2013 são alguns dentre outros milhares de exemplos que seguiram essa receita à risca.

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O Vasco vem passando por difíceis situações nos últimos anos. O clube já acumula uma dívida de 639 milhões de reais. | Foto: Geraldo Bubniak/AGB/ LANCE! Press.

O fundo do iceberg

Os fatos falam por si só. Basta olhar para os clubes brasileiros e ver como as dívidas vão se transformando em uma bola de neve, passando por diversas diretorias até eclodir em um desastre.

Cruzeiro

Talvez o caso mais drástico e mais recente seja o do Cruzeiro. Nos últimos sete anos, a equipe havia sido bicampeã da Copa do Brasil e do campeonato brasileiro, chegando a arrecadar mais de 691 milhões de reais apenas com as receitas entre 2017 e 2018, juntamente com o capital proveniente da venda de jogadores, transmissão de TV e títulos conquistados.

Porém, mesmo com tamanha quantia monetária recebida, o dinheiro gasto foi ainda maior. A corrupção, os altos salários e a má administração do clube culminaram em um rebaixamento inédito e em uma dívida em torno dos 800 milhões de reais. Para piorar, o clube passará uma parte de seu centenário na segunda divisão, haja visto que o campeonato brasileiro se encerrará em fevereiro de 2021 por conta da pandemia do coronavírus. 

Santos

O Santos é outro clube que dispensa comentários no que se refere a sua grandeza, mas, há alguns anos, possui uma diretoria que se apequena diante das inúmeras situações.

Mesmo com as recentes vendas milionárias de Neymar e Rodrygo, a instituição ainda deve mais de 350 milhões de reais. Os salários e os direitos de imagem atrasados acarretaram na solicitação de rescisão de contrato do atacante Eduardo Sasha, que entrou na justiça exigindo em torno de 15 milhões da equipe alvinegra, e na tentativa de rescisão contratual do goleiro Everson, que até o momento foi negada pela Justiça do Trabalho, mas o jogador ainda poderá recorrer à segunda instância.

Devido à dívida de 17,5 milhões de reais com o Hamburgo envolvendo o zagueiro Cléber Reis, a Fifa também proibiu o Santos de inscrever novos jogadores nos campeonatos. A péssima gestão de José Carlos Peres gera revolta da torcida, que cobra explicações e pede impeachment. O temor de ficar na mesma situação que o Cruzeiro é grande.

Diretorias que são exceções

Diretorias de clubes como Athletico Paranaense e Bahia, por exemplo, são exceções e exemplos a serem seguidos. Ambos são clubes tradicionais que tiveram um belo planejamento e conseguem cumprir com as respectivas dívidas e deveres jurídicos.

Há também um reflexo em campo com recentes conquistas por parte do time de Curitiba, e campanhas admiráveis da equipe nordestina nas últimas temporadas.

Só quem ama o futebol entende

Ninguém ama mais o clube do que o torcedor. Quem vê a situação de forma mais ampla pode achar que é besteira e perguntar: “Para que tudo isso por um simples time de futebol? Os jogadores estão lá, ficando podres de ricos, nem sabendo da sua existência e você aí, chorando à toa!”. A questão é que, nem com horas de explicação, a pessoa que fez essa pergunta vai entender, porque só quem vive entende.

fanáticos por futebol
Em torno de 21.230 pagantes por rodada, a média de público do Brasileirão de 2019 foi a maior em 32 anos. | Foto: Reprodução. 

Parece que nem mesmo a própria diretoria dos clubes entende. Paixão é algo que não se explica. São horas de caravana, espera, preces, estresse, de amor.

Assistir a um jogo do seu time de coração é, muitas vezes, o refúgio do caos, quase que uma fuga da realidade. O sentimento de liberdade e adrenalina dentro de um estádio é algo que não se tira de quem vive aquilo intensamente.

Presidentes, dirigentes, conselheiros, jogadores, uniformes, todos esses citados são substituídos. Tudo muda, exceto a paixão do torcedor. Todo esse enriquecimento ilícito usando e abusando da paixão de quem verdadeiramente ama o clube é deprimente. Os casos de corrupção são silenciosos e, no fim, a impunidade fala mais alto.

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Por Matheus Ribeiro de Souza e Silva – Fala! Cásper

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