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A imprevisibilidade do futebol e maneira como o Brasil encara o jogo

A imprevisibilidade do futebol e maneira como o Brasil encara o jogo

Por Gabriel de A. P. Blumenschein – Fala! Cásper

Champions League mostra que controlar o placar de partidas tão equilibradas é impossível e nos convida a refletir sobre a maneira que pensamos nosso futebol.

O confronto entre Ajax e Tottenham pela semifinal da Champions League foi um dos mais inacreditáveis da história do futebol. Nesta temporada a competição de clubes mais importante do mundo está tendo sua melhor edição, com viradas impressionantes e gols nos últimos minutos desde a primeira rodada da fase de grupos, disputada em setembro e a imprevisibilidade do futebol elevada à sua máxima potência.

               São inúmeros os exemplos do imenso espaço que o imponderável tem para se manifestar nesse esporte que o torneio deste ano nos apresentou. Não fosse um gol salvador de Lucas Moura no final da partida contra o Barcelona ou o milagre de Alisson contra o Napoli no minuto final, ambos na última rodada da fase de grupos, os finalistas não teriam nem chegado ao mata-mata. As maiores surpresas ocorreram nas fases eliminatórias, quando logo de cara o Ajax goleou o Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu e o Manchester United, esfacelado por lesões, foi até Paris para reverter uma desvantagem de 2 a 0 contra o PSG, que foi muito superior durante o embate, e conseguiu com uma falha de Buffon, um dos maiores goleiros da história e um pênalti nos acréscimos, marcado após a bola bater na mão do zagueiro Kimpembe.

               Neste quarta-feira tivemos o maior dos exemplos de como o futebol pode ser surpreendente e é decidido nos mínimos detalhes, fazendo com que o resultado das partidas seja completamente incontrolável. Após ser superior em 3 quartos do duelo, o Ajax foi eliminado levando três gols na etapa final da partida de volta, com sua casa lotada e a torcida apoiando sem parar, por um Tottenham extremamente valente. Dois dos três gols que equipe londrina marcou passaram a milímetros das pernas dos defensores holandeses e foram separados por uma bola na trave do Ajax.

Lucas Moura, cercado por defensores do Ajax chuta, a bola passa muito perto das pernas adversárias e entra no gol, classificando o Tottenham. (UEFA/ Getty Images/ Divulgação)

               Em competições de alto nível, se chega a um estágio que dificilmente um time é realmente melhor que o outro, eles normalmente se equivalem, como era o caso das semis da Champions League. Por conseguinte, é muito provável que mínimas falhas como a de Schone no segundo gol do time inglês, a de Buffon contra o Manchester United ou as de Laporte nos dois primeiros gols do Tottenham contra o Manchester City no jogo de volta pelas quartas de final não sejam perdoadas e definam os classificados. Por isso o futebol é tão imprevisível e o resultado está fora do controle das equipes: se já é muito complicado para qualquer um passar 90 minutos sem se equivocar, imagine num jogo tão intenso e complexo no qual você tem que tomar tantas decisões de maneira tão rápida, com pessoas altamente qualificadas para te punir da pior forma possível em caso de uma ação errônea? É humanamente impossível.

               Deste modo, será que a maneira como abordamos o jogo aqui é a ideal? Será que o que fazemos no Brasil de sempre apontar culpados e interromper trabalhos promissores por conta de um ou outro resultado negativo é positivo para o desenvolvimento do nosso futebol? Jürgen Klopp está no Liverpool há quatro anos e meio sem nenhum título, já perdeu duas finais e mesmo assim segue no cargo, porque a equipe tem excelente desempenho, uma vez que os processos de evolução do trabalho são respeitados. O treinador alemão é respaldado pela diretoria dos Reds, que tem convicção de que ele traz consigo o que é necessário para jogar bem (isso sim está ao alcance das equipes) e, consequentemente, brigar por títulos. A recompensa está aí, em forma de vaga para mais uma grande final e oportunidade de ser campeão.

               O Tottenham, outro finalista, está com seu técnico, o argentino Mauricio Pocchetino há 5 anos, também sem ser campeão neste período, mas a evolução de um clube com menor poder de investimento que se contentava com vagas na Liga Europa e agora se equipara aos melhores do planeta é assombrosa. Fosse no Brasil, Pocchetino teria caído com a sequência de quatro derrotas em cinco partidas que a equipe inglesa acumulou em março, quando estava (e ainda está) com seu enxuto elenco totalmente desfalcado. Entretanto, isso não foi nem cogitado, uma vez que nos bastidores no Tottenham existe a convicção de que o treinador argentino é o cara que certo para comandar o projeto, tendo em vista que no mais alto nível do futebol o técnico não é contratado de maneira aleatória, e sim após o clube ter certeza de que ele é uma pessoa com características adequadas e uma ideia de jogo que combine com o DNA do clube.

               Quanto a imprensa e torcedores, é justo centralizar a culpa em um único personagem, como Fernandinho na Copa de 2018, sendo que tem 22 seres humanos em campo, além de reservas, comissões técnicas, equipes de análise de desempenho, diretoria, que apesar de não jogarem, influenciam o que acontece nas quatro linhas? Vale a pena crucificar alguém por um mau resultado num esporte tão imprevisível? O futebol brasileiro nunca vai chegar perto da qualidade de uma Champions League enquanto sua análise for simplista e baseada no placar das partidas, responsabilizando um ou outro e trocando o comando técnico como se troca de roupa. É necessário mudar a obsessão pelo resultado imediato e desfrutar um pouco mais do jogo para entender o que é preciso para termos momentos tão incríveis quanto os vividos essa semana em território nacional.

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