A importância do atendimento psicológico à população carcerária
Menu & Busca
A importância do atendimento psicológico à população carcerária

A importância do atendimento psicológico à população carcerária

Home > Notícias > Urbano > A importância do atendimento psicológico à população carcerária

Segundo os dados fornecidos pelo Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) em fevereiro de 2020, a respeito do ano de 2019, a população carcerária no Brasil gira, atualmente, em torno de 773.151 reeducandos divididos entre unidades prisionais e as carceragens de delegacias, levando-se em consideração instituições de caráter público e privado, com privação de liberdade em todos os tipos de regime. Quando comparados aos números divulgados em 2018, percebe-se um aumento de 3,8% dessa população carcerária.

A criminalidade latente é fruto da insuficiência de políticas públicas voltadas à população, especialmente aos mais carentes de recursos materiais, e a não garantia de direitos fundamentais, como saúde e educação de qualidade. A falta de oportunidades, de qualificação e de um norte arrasta todos os dias milhares de pessoas pelos caminhos tortuosos da delinquência, superlotando o já tão abarrotado sistema penitenciário e forçando a destinação de investimentos cada vez maiores para este setor em detrimento de outros.

Que a educação é uma ferramenta essencial nas mais diversas esferas sociais, inclusive no meio penitenciário, é indiscutível. A falta dela conduz muitos ao cárcere não apenas da privação de liberdade, do direito de ir e vir, mas também das amarras geradas pelo desconhecimento, pela desinformação. A educação é um direito válido a quem quer que se encontre em solo brasileiro, quer seja um nacional legítimo, quer não seja. Um direito que pode ser usufruído a qualquer momento e por qualquer um, até mesmo por quem cumpre pena.

população carcerária
Entenda a importância do atendimento psicológico à população carcerária. | Foto: Reprodução.

Atendimento psicológico à população carcerária

Com a mesma importância e da mesma forma acontece com a saúde, ou pelo menos deveria acontecer. É previsto aos reeducandos atendimento e acompanhamento médico digno em cada unidade, contudo a desproporcionalidade entre o número de profissionais da saúde envolvidos e de presos, além da precariedade das instalações e a insuficiência de recursos materiais e equipamentos torna inviável a execução de um trabalho de qualidade e minimamente humano.

O Dr. Dráuzio Varella exemplifica esta realidade na trilogia de livros[1] lançados a partir da experiência dele como médico na unidade prisional do Carandiru, em São Paulo, no decorrer das décadas de 1980 e 1990.

Outro ponto que também é de suma importância, que não recebe, porém, a devida atenção é o que se refere à saúde mental da população carcerária, através da oferta de acompanhamento psicológico aos apenados nas mais diversas demandas – sexualidade, gênero, maternidade, relações sociais, relações familiares, relações amorosas de âmbito interno/externo e outros segmentos. Assim como a educação e o tratamento da saúde física são direitos concretos conquistados, os cuidados com a saúde mental e psicológica também são.  

As más condições de vida, a proliferação de doenças, a higienização precária, a violência constante, a corrupção e as inúmeras vicissitudes são alguns dos aspectos desumanizantes a que são submetidos no cárcere e que contribuem para fomentar o círculo vicioso que acomete muitos apenados, tornando-os reincidentes e incapazes de conviver socialmente.

Porém, com a devida orientação e o acompanhamento psicológico necessário, essa realidade pode sofrer pequenas modificações que podem refletir em acontecimentos de grandes proporções, como o simples bater de asas de uma borboleta aqui que pode vir a causar o surgimento de uma grande ventania acolá. Para o país, quem sabe uma teoria do caos reversa com tons, notas de benesses.    

O acompanhamento psicológico além de ser um direito que resgata e preserva a humanidade incutida em cada indivíduo, também deve ser visto não como uma forma de abrandar ou eliminar a penalidade estipulada ao preso, de eximi-lo da responsabilidade sobre os próprios atos, mas, sim, como uma tentativa de reintroduzi-lo na sociedade sem recaídas, de oferecer oportunidades de reconstruir e compartilhar histórias com finais melhores, de desenvolver o senso de responsabilidade sobre as próprias ações e escolhas, de ter uma vida mais digna, mais honesta. Reta, enfim.  

[1] Estação Carandiru, 1999; Carcereiros, 2012; e Prisioneiras, 2017. 

_______________________________
Por Tassia Malena Leal Costa – Fala! Universidade Federal do Amapá

Tags mais acessadas