'A Festa de Formatura': um musical deslumbrante, mas com texto datado 'A Festa de Formatura': um musical deslumbrante, mas com texto datado
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‘A Festa de Formatura’: um musical deslumbrante, mas com texto datado

‘A Festa de Formatura’: um musical deslumbrante, mas com texto datado

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Na cultura norte-americana, ir ao baile da escola é um dos momentos mais importantes e sonhados para a maioria dos adolescentes. Em 2010, Constance McMillen, uma jovem do interior do Mississipi, teve essa experiência negada pela Associação de Pais e Mestres da escola, que a proibiu de ir à festa de formatura acompanhada da namorada. Constance não esperava ver sua história ficando nacionalmente conhecida e mobilizando vários famosos. Muito menos imaginaria que, em seis anos, esse episódio de sua adolescência inspiraria o musical The Prom (A Festa de Formatura).

A peça ganhou notoriedade, recebendo seis indicações ao Tony (Oscar do Teatro) e proporcionando o primeiro beijo homoafetivo no Macy’s Thanksgiving Day Parade – famoso desfile anual de Ação de Graças em Nova Iorque – em performance da edição de 2018. Não foi surpresa quando o espetáculo despertou interesse de Ryan Murphy, um dos maiores divulgadores da Broadway e produtor de conteúdo LGBTQ em Hollywood, que produziu e dirigiu a adaptação do musical para a Netflix – com nome em português de A Festa de Formatura – contando com Meryl Streep, Nicole Kidman e Kerry Washington no elenco.

Enredo de A Festa de Formatura

Na história, um grupo de quatro atores da Broadway, super narcisistas e com as carreiras frustradas, buscam uma causa para ajudarem e, assim, promoverem suas imagens. É quando descobrem o drama da jovem Emma, que horrorizou a Associação de Pais e Mestres da escola e, consequentemente, causou o cancelamento do baile de formatura, apenas por querer dançar com sua namorada na festa. Então, o grupo de artistas viaja para Indiana, onde mora Emma, e passa a se envolver diretamente com a menina e sua comunidade.

Mesmo com a trama se desenvolvendo em torno de um caso de homofobia, A Festa da Formatura não tem uma história trágica como a de tantas outras produções LGBTQ na mídia. Pelo contrário, o filme satiriza o absurdo de toda a confusão criada pelos pais em cima de algo tão inofensivo, e também o oportunismo dos artistas. O tom é bem lúdico e busca mostrar um lado mais otimista, sem subestimar a dor causada pelos acontecimentos e dos conflitos internos de seus personagens. Algo próximo do que foi visto em Hairspray (2007).

Referências no musical

Também como no célebre filme estrelado por John Travolta, esse não é um musical que  tenta se prender a uma lógica realista, tendo números extravagantes e personagens mais caricatos, além de usar bastante um humor nonsense. Juntamente a isso, por ter um núcleo de personagens envolvidos com Broadway, existem muitas referências ao universo do teatro musical (obras, artistas, bastidores), o que pode não funcionar tão bem para um público menos cativo de produções do gênero. 

Influências de diversos musicais também se encontram nas canções. O número de abertura e ambos os solos de Dee Dee, personagem de Meryl Streep, têm estilos que lembram musicais clássicos dos anos 40. Já Zazz, é uma clara homenagem a obras como Cabaret e Chicago. Além das músicas de Emma e do núcleo jovem remeterem facilmente os musicais teen da Disney dos anos 00, como Tonight Belong to You que se assemelha A Night to Remember, de High School Musical 3

A Festa de Formatura
Ariana DeBose (Allyssa) e Jo Ellen Pellman (Emma) dão vida às garotas proibidas de irem ao Baile. | Foto: Reprodução.

Um musical na condução de Ryan Murphy que se passa na escola, com inúmeras referências ao universo Broadway, pode parecer um déjà vu. Apesar de alguns movimentos de câmera e composição de algumas cenas lembrarem Glee, dessa vez, o diretor tem muito mais liberdade criativa e de orçamento para fazer cenas grandiosas, com coreografias mais elaboradas e cenários vistosos.

Elenco

Curiosamente Murphy, que sempre abre espaço para atores do teatro entrarem em Hollywood, só escalou dois atores da Broadway, Ariana DeBose (Summer: The Donna Summer Musical) e Andrew Rannells (Falsettos), para integrarem o musical. Ambos têm pouco tempo em cena, mas conseguem mostrar seus talentos e chamam a atenção – principalmente Rannells no número de Love Thy Neighbour -, deixando um desejo de vê-los em outros projetos. 

A maior revelação do elenco, no entanto, é a estreante Jo Ellen Pellman, que dá vida à Emma. A jovem canta bem e é muito carismática – sendo fácil desenvolver empatia pela personagem. O único problema são as cenas dramáticas, nas quais faltou um melhor direcionamento na interpretação, pois Pellman está sorrindo e com um ar otimista em todas elas, tirando um pouco do peso do momento.

Da parte mais famosa do elenco, Nicole Kidman e Keegan-Michael Key são encantadores; Kerry Washington consegue dar alma a uma personagem que facilmente seria reduzida à malvada. James Corden interpreta ele com um pouco mais de liberdade para afetações. Já Meryl Streep, ficou ótima como a egocêntrica e hilária Dee Dee Allen, parecendo estar mais livre e se divertindo com a personagem. No geral, o elenco todo funciona e cumpre bem seu papel, mas a presença de alguns artistas evidenciou problemas do roteiro.

Roteiro e problemas

O texto do musical realmente precisava de atualizações, pois o discurso, algumas resoluções e, até mesmo, a caracterização de Barry – personagem de James Corden que se enquadra no estereótipo de gay pet – não funcionam tão bem para 2020. Mas as modificações que fizeram pouco mexeram ou melhoraram esse aspecto datado da peça, pelo contrário, acrescentou mais um ponto para se incomodar.

the prom
Andrew Rannells, Meryl Streep, James Corden e Nicole Kidman são artistas oportunistas em A Festa de Formatura. | Foto: Reprodução.

No solo de Dee Dee, It ‘s Not About Me, a personagem fala que está na cidade para lutar por Emma, mas a letra inteira é sobre ela própria. É isso que também acontece em A Festa de Formatura. A história deveria ser sobre Emma, a jovem barrada de ir ao baile por pura homofobia da Associação de Pais, mas se torna o arco de redenção de Dee Dee Allen e Barry Glickman, em uma busca de alcançar e agradar um maior público. 

As canções do musical original foram reduzidas – inclusive uma na qual era possível entender o relacionamento de Emma e Allyssa – para criarem cenas que humanizassem e desenvolvessem a personagem de Meryl e James, consequentemente dando mais tempo em cena para ambos. Isso acaba sendo frustrante, pois o diferencial e atrativo do filme era justamente contar a história de uma personagem LGBTQ. No fim, Emma parece ser só um adereço, e não uma peça fundamental da trama, e o aprofundamento dado a Dee Dee e Barry soa forçado e fora de tom.

Mesmo com esses problemas, A Festa de Formatura é um filme que merece ser celebrado e assistido, pois ainda não existe nada parecido em Hollywood. Apesar da indústria cinematográfica já estar mudando, ainda é difícil encontrar filmes com temática LGBTQ leves e que consigam dialogar com um grande público de idades diferentes. Esse, com certeza, é o maior mérito da obra. Sem contar que é um musical divertido, com um elenco bem ajustado e músicas empolgantes que garantem duas horas de entretenimento.

Ficha técnica de The Prom

Título Original: The Prom
Lançamento: 11 de dezembro de 2020
Duração: 130 minutos
Direção: Ryan Murphy
Gênero: Comédia, Musical
Classificação: 14 anos
Origem: EUA

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Por Anna Carolina de Freitas Ferreira – Fala! PUC

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