'A Desordem que Ficou' - leia a crítica do suspense da Netflix
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‘A Desordem que Ficou’ – leia a crítica do suspense da Netflix

‘A Desordem que Ficou’ – leia a crítica do suspense da Netflix

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Drama, sexo, drogas, adolescência, alunos e muito, muito suspense. Mas, no fim, não é uma desordem

Criada pelo produtor e roteirista Carlos Montero, A Desordem que Ficou é uma minissérie espanhola, de oito episódios, adaptada pela Netflix do romance homônimo do mesmo autor, publicado em 2016.

A obra conta a história de duas professoras, uma veterana e outra novata. Isso pelo menos em relação à pequena cidade do noroeste da Espanha, onde a entusiasmada Raquel (Inma Cuesta) passa a dar aulas depois de ter se mudado junto com o marido para a casa de sua sogra. Viruca (Bárbara Lennie), por outro lado, é a professora de Literatura mais misteriosa de todas; venerada por seus alunos, ela passa a se comportar de um jeito estranho, o que faz muitos acharem que está sendo vítima de bullying.

Enquanto Viruca não é capaz de esconder e expressar seu envolvimento íntimo com Iago (Arón Piper), um de seus alunos, Raquel se encontra na difícil tarefa de lidar com Germán (Tamar Novas), o marido viciado em drogas, ao passo em que precisa superar a perda de sua mãe. Ambas descobrem que lidar com pessoas é um encargo muito mais complexo e custoso do que podiam imaginar, com suas vidas virando de ponta cabeça quando resolvem interferir na vida de seus alunos.

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Nova série da Netflix impressiona pelo suspense. | Foto: Montagem/Reprodução.

A Desordem que Ficou – leia sua crítica

É impossível assistir à série e não reparar o quanto ela trabalha a dura e cansativa condição de um professor, embora não seja esse o núcleo narrativo principal. Ser professor não é uma atividade fácil, o envolvimento cobrado é algo que chega a ser espantoso. Nunca é uma possibilidade de jornada única: você é professor o tempo inteiro, mesmo quando não está na sala de aula, sempre precisa pensar nos alunos, em preparar aulas e corrigir provas. A Desordem que Ficou soube muito bem apresentar essas dificuldades e preocupações.

Mas, como dito, não é exatamente essa a perspectiva principal. A trama gira em torno do suposto suicídio de Viruca e em sua substituição por Raquel, mas não se preocupe, isso faz parte da sinopse. Aos poucos, somos apresentados às diversas histórias paralelas que nos convencem que há algo de muito errado com as pessoas que cercavam Viruca. Os mistérios começam a ser revelados a partir do momento em que Raquel se compromete a descobrir o que realmente aconteceu com sua antecessora, o que a faz duvidar de todos aqueles que estão ao seu redor.

A série impressiona especialmente por conta da excelência em que constrói os arcos narrativos. Todas as histórias paralelas fascinam e não permitem que você descubra o que realmente ocorreu antes do último episódio. Raquel não é uma boa detetive, mas é uma mulher sublime, que encontra em si mesma a coragem necessária para enfrentar a verdade. Sob seu ponto de vista, acompanhamos de perto as atuações dos demais personagens, até que tudo vire uma imensa perseguição, na qual todos parecem ser os gatos e Raquel, o único rato.

No entanto, o destaque mesmo a ser creditado está no carisma de Arón Piper. Iago é o personagem mais complexo de todos, cheio de desejos, dúvidas, perturbações e conflitos internos. Não sabemos realmente o que se passa em sua cabeça, o que logo percebemos é que ele não é apenas um rostinho bonito, ou o cara valentão do colégio. Por trás de seus sentimentos, estão os traumas de sua vida íntima, a conturbada relação com seu pai e a crise emocional por não saber o que realmente ambiciona. Piper consegue expressar isso muito bem, ele nos deixa impressionado com sua capacidade de demonstrar tantas sensações diferentes.

Os demais atores também merecem crédito. Bábara Lennie, a Viruca, nos mostra uma mulher aparentemente confusa, às vezes fria demais, mas sempre tentada a ir além de sua zona de conforto. Já Inma Cuesta, a Raquel, nos exibe uma personagem disposta a agradar seus alunos no começo, contudo, aos poucos, determinada a resistir às perseguições que passou a sofrer.

Raquel, ao investigar a vida de Viruca, descobre que as duas tinham muito em comum, quase como se fossem o reflexo uma da outra; a obsessão com sua antecessora, por outro lado, põe em xeque a já instável relação com Germán. E por falar nele, Tamar Novas nos apresenta um homem fingido e aparente, sua habilidade em expressar o marido que só sabe mentir não é de se jogar fora.

A Desordem que Ficou funciona porque consegue criar um ambiente muito bem construído, com relações complexas representadas por atuações muito boas. O roteiro é capaz de relacionar as angústias e os dramas reais de seus personagens.

A construção sempre chega em um lugar capaz de impressionar pela qualidade do suspense, nos dando a sensação de que a “desordem” permanece apenas no título e na história interna, porque, no enredo, o que perdura é uma minissérie muito bem construída, que não subestima seus espectadores e que surpreende a cada episódio.

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Por Ramon Caji – Fala! USP

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