Menu & Busca
A construção da paixão no futebol

A construção da paixão no futebol


Por Natanael Oliveira e João Guilherme de Lima – Fala!PUC

“O futebol ocupa um lugar central na cultura brasileira”. Através desta afirmação de José Paulo Florenzano, Professor de Ciências Sociais da PUC-SP especializado em antropologia do esporte, já podemos entender mais ou menos a importância deste esporte para a sociedade brasileira.

Inicialmente restrito às elites, principalmente de São Paulo e Rio de Janeiro no século 20, o futebol aos poucos foi conquistando espaço em todas as classes brasileiras e, já na década de 30, com o alcance internacional de nomes como Leônidas da Silva e Domingos da Guia, ele de fato consolidou-se entre as expressões culturais mais valiosas do Brasil. E são alguns os fatores que permitiram essa afirmação do futebol em terras brasileiras. Desde o seu caráter popular, passando pela facilidade de se praticar, e chegando ao histórico de conquistas de seleções e clubes brasileiros, o futebol foi aos poucos se estabelecendo dentro do nosso país.

Com isso, hoje é possível perceber essa presença futebolística até mesmo no nosso vocabulário. Muitas são as vezes que utilizamos expressões, que inicialmente eram usadas somente no futebol, no nosso dia a dia, como no caso de “pisar na bola”, “bater na trave”, “bola fora”, entre outras.

E não foi só no vocabulário que o futebol se fez cada vez mais presente no Brasil. No âmbito político este esporte também se estabeleceu como importante meio de manifestação, tendo como principal expoente a Democracia Corinthiana, alavancada por jogadores do Corinthians como Walter Casagrande, Wladimir, e Sócrates, que atuaram em defesa dos direitos civis durante o período da Ditadura Militar.

Diante disso, Breiller Pires, jornalista do El País e da ESPN, destaca a capacidade de o futebol “falar com muita gente”, e depois ressalta a importância do coletivo corintiano para a sociedade da época (e para a atual também). “Quando Sócrates marcava um gol em plena ditadura e erguia o punho pro alto, aquilo ali era uma manifestação política que tinha um alcance muito maior que qualquer político que fosse a favor da redemocratização”.

Mas sabemos também que, enquanto alguns grupos conseguem usufruir da paixão pelo futebol quase sem barreiras sociais, outros ainda enfrentam muitas dificuldades para se afirmar dentro do universo futebolístico brasileiro, como é o caso dos homossexuais e das mulheres. “A realidade do futebol apenas espelha o que os homossexuais e as mulheres vivem na sociedade, no dia a dia”, afirma Breiller, que quando questionado sobre os avanços que estes grupos vêm obtendo dentro do futebol, prefere dar mais ênfase à luta destes do que ao trabalho das entidades que atuam no futebol brasileiro. “O futebol hoje está se abrindo aos homossexuais e às mulheres não porque lá dentro alguém disse: ‘olha, a gente precisar fazer isso, a sociedade está mudando’, mas por que esses grupos têm reivindicado o seu lugar no futebol.”

 Diferentes contextos em que se começa a torcer por um time

Paixão. Uma palavra bem simples da língua portuguesa e que ao mesmo tempo se torna tão complexa quando tentamos estudá-la em todos os aspectos, sejam eles psicológicos ou filosóficos.

Torcer por um time de futebol se enquadra muito bem nesse cenário tão confuso de paixões platônicas e utópicas que sentimos sem ter alguma lógica pré-definida. Influência da família, contextos socioeconômicos e socioculturais, experiências inesquecíveis de momentos únicos que fizeram você ter um apreço especial por determinado time. Nada, absolutamente nada é capaz de explicar objetivamente e sem questionamentos o início dessa paixão.

Uma grande parte dos adeptos do futebol influenciam seus filhos e familiares para que eles torçam pelo clube da família, que foi passada através das gerações, se transformando em uma espécie de tradição familiar.

Essa “linha de sucessão” entre familiares começou a ser quebrada com o avanço da internet e novas influências de midiáticos clubes europeus, que com muito dinheiro para publicidade acabaram monopolizando não apenas os melhores jogadores e campeonatos, mas também criando uma idealização tão chamativa que os grandes olhares globais se voltaram para esses “titãs futebolísticos”. O fato é que há sim diferentes contextos para se torcer por um clube de futebol, mas nenhum deles consegue explicar o tamanho do amor dos torcedores fanáticos pelo esporte mais popular e famoso do mundo.

Como se alimenta a paixão no futebol

Dado que a partir de certo momento da infância as crianças já tem praticamente definido o seu time de coração, o que se segue não mais é um processo de construção da paixão pelo futebol, e sim como vai ser a consolidação deste sentimento.

Entre os fatores que contribuem para que as pessoas tenham de fato o futebol em suas veias podemos destacar desde a compra de produtos de um determinado time para os jovens, até a fase que um clube vive no momento em que a pessoa começou a acompanhar de fato o futebol. E é este segundo ponto que BreillerPires afirma ter sido um dos diferenciais para a sua afirmação como torcedor do Vasco da Gama. “O que ajudou também foi que durante parte de minha infância o Vasco viveu bons momentos, o tricampeonato carioca no início da década de 90, depois veio Campeonato Brasileiro e Libertadores. Então eu cresci com um Vasco grande, vitorioso, e isso ajudou a consolidar a minha paixão.”

Outro fator que o jornalista mineiro afirmou ser de suma importância é a ida aos estádios. Mas muito além de esse fator ser essencial apenas para que um cidadão tenha mais apreço por um time ou por outro, ele destaca o poder que os estádios de futebol têm para fortalecer os vínculos interpessoais.  “Na verdade eu não estava ali por causa do futebol, eu queria ver o vasco ganhar, mas era o momento que eu tinha com meu pai, de proximidade, de viver o estádio, de comer um feijão tropeiro juntos”.

Florenzano por sua vez entende que, além dos pontos já colocados, outra ferramenta de afirmação do futebol dentro da vida de uma pessoa é a rivalidade que existe entre os clubes, dado que “ela alimenta e perpetua essas paixões que são transmitidas para cada nova geração de torcedores.” Ele completa o raciocínio dizendo que sua geração foi talvez a última que cresceu tendo a paixão pelo futebol sendo alimentada pela prática deste esporte, seja ela nas ruas, nas praças, ou nos campos e quadras de futebol.

Diferentes formas de se acompanhar o futebol

Nos primórdios da comunicação esportiva, acompanhar algum time de futebol era uma tarefa dificílima, seja por conta de uma tecnologia que apenas engatinhava para se tornar a grandiosidade que é hoje, ou pelo acesso remoto e restrito a algumas classes sociais.

O rádio dominou por muito tempo a cobertura de transmissões esportivas, e não seria diferente no futebol, já que durante as primeiras copas do mundo, ele era a principal “conexão” entre a população e os jogos. A popularização da televisão nas décadas de 70 e 80 reduziu o até então monopólio do rádio e fizeram da TV o principal meio de se acompanhar o esporte mais famoso do mundo, mas atualmente o domínio televisivo enfrenta grande concorrência das novas tecnologias, como transmissões inovadoras pelas redes sociais.

Um mundo globalizado traz diferentes maneiras de se acompanhar o futebol, o que ajuda ainda mais em sua popularização entre todas as massas. Televisões, rádios, internet, veículos de comunicação, redes sociais. Não faltam mecanismos para que o futebol seja vivido da forma mais profunda e imersiva possível.

Quer se tornar um colaborar e escrever para o fala?
Saiba como

0 Comentários

Tags mais acessadas