'A Condição Humana': Análise do público e privado ao longo do tempo
Menu & Busca
‘A Condição Humana’: Análise do público e privado ao longo do tempo

‘A Condição Humana’: Análise do público e privado ao longo do tempo

Home > Entretenimento > Cultura > ‘A Condição Humana’: Análise do público e privado ao longo do tempo

A filósofa política Hannah Arendt afirma em seu livro A Condição Humana que as atividades humanas são divididas em dois planos: o ser e a ação. Nesta última, existe uma dicotomia entre duas esferas, a pública e a privada, que estão associadas, respectivamente, com a política e o plano de vida pessoal ou contemplativa do homem (como a reflexão religiosa e filosófica).

Essa discussão perdura desde a Grécia Antiga –  onde a distinção entre os dois era muito mais notória –, até hoje, onde vem sofrendo cada vez mais mudanças e trazendo debates mais densos.

A Condição Humana
A Condição Humana: Análise do público e privado ao longo do tempo. | Foto: Montagem/Reprodução.

A Condição Humana: O público e o privado, segundo Hannah Arendt

domínio público está relacionado ao que é comum e de dimensão política, onde a necessidade da cidade ou Estado estão atreladas à administração do governo, e não necessariamente relacionado com o social.

Já o domínio privado, causado pelo enraizamento da esfera política, é quando o Estado transforma a relação pública em econômica. Portanto, segundo Arendt, a diferença entre uma instância e outra corresponde à existência das esferas da família e da política como entidades divergentes e separadas à ascendência da esfera social, que acabou tornando-se um fenômeno novo.

O público e o privado na sociedade contemporânea

O mundo passou por inúmeras transformações desde que Hanna Arendt escreveu A Condição Humana, em 1958. A mudança mais significativa dos últimos tempos nasceu na China e, em pouco tempo, tomou conta do globo: o novo coronavírus. Esse vírus alterou as relações humanas e o próprio significado dos domínios público e privado. 

coronavírus e a condição humana
Com o coronavírus, o uso de máscara facial passou a ser obrigatório. | Foto: Reprodução.

A modernidade trouxe para a sociedade o livre-arbítrio. No entanto, ao mesmo tempo em que todo indivíduo tem o seu “eu” privado, onde está a sua consciência, e onde ninguém pode penetrar; ele também vive em um mundo público, e precisa prestar contas ao outro.

No dia 7 de março de 2020, o governador de São Paulo, João Doria, determinou o uso obrigatório de máscaras ao sair de casa. No privado, a pessoa não precisa usar máscaras – nem simbólicas, nem literais, como é o caso. Porém, para aparecer em público, seu uso é obrigatório, a fim de seguir as normas estabelecidas e não ser punido, caso essa ordem seja infringida. Fica claro então que o espaço público, para funcionar como espaço coletivo, precisa da instância simbólica da lei, pois esta barra o “eu” narcisista.

Outra situação ligada à pandemia e os tempos de quarentena tem a ver com a infinita busca do sapiens-demens, como define a nossa espécie o antropólogo Edgar Morin, por aprovação. Desde há muito tempo, a sociedade exalta selfies acima de momentos e a aparência acima de toda autenticidade. Estamos vivendo o que o escritor Guy Debord descreveu como a “sociedade do espetáculo”.

No entanto, agora, com todos confinados em suas casas, fica claro que, antes dessa situação, muitos se embelezavam não para si mesmos, mas sim, para o público. Quando o indivíduo está confinado em um domínio privado, parece não apresentar uma real preocupação com o aspecto exterior.

Antes do isolamento social, havia uma “montagem” do eu, a fim de ser aprovado em público. E, ainda que o número de selfies não tenha diminuído proporcionalmente, isso pode ser facilmente justificado pela enorme quantidade de filtros existentes, que mascaram, literalmente, a vida privada da pessoa, tornando-a aceitável para o público e, consequentemente, elevando o número de likes e seguidores. 

Redes sociais
Redes sociais. | Foto: Reprodução.

O público tornou-se social

Com a discrepante significação do público e privado trazido por Arendt, seus conceitos vão muito além da dimensão política e familiar comum entre essas esferas.

Na modernidade, entretanto, a definição de privacidade provém de uma oposição à esfera social, e não à política, como antigamente fora relatado pela autora. Com o privado mesclando-se cada vez mais com o público, devido à altas exposições sociais de um “eu” encenado e nem sempre verdadeiro, a noção de público torna-se social

Assim, a sociedade atual está cada vez mais próxima de uma conduta consumista que valoriza a montagem de uma vida íntima sempre cercada pela cultura em massa. Isso caracteriza o pensamento de Zygmunt Bauman, sobre uma sociedade líquida e sem profundidade, cada vez mais contemporânea. 

________________________________
Por Niara Viana de Brito – Fala! PUC

Tags mais acessadas