A comédia e a sociedade - uma relação necessariamente conflituosa
Menu & Busca
A comédia e a sociedade – uma relação necessariamente conflituosa

A comédia e a sociedade – uma relação necessariamente conflituosa

Home > Entretenimento > Cultura > A comédia e a sociedade – uma relação necessariamente conflituosa

O ano é 2020, você entra nas suas redes sociais e vê um vídeo de um comediante fazendo piadas sobre aspectos da sociedade, desde assuntos mais mundanos – como família, histórias de bar e situações da vida sexual de uma pessoa – até temas extremamente sensíveis – como morte, racismo e pedofilia. Certamente, como todo indivíduo no mundo digital, você se depara com comentários, repostagens e respostas a esse conteúdo, as quais provavelmente se polarizam em duas linhas de pensamento:

  • Com tais assuntos não se brinca ou se faz piada, pois só reproduzem e normalizam a violência de tais práticas;
  • É apenas uma piada, uma forma cômica de se falar sobre e até mesmo fazer uma denúncia sobre tal situação.

Ambas as análises, mesmo sendo totalmente opostas, têm como ponto central a forma como o indivíduo interpreta o ato de se produzir um texto de caráter cômico a partir de temas, que apesar de fazerem parte da sociedade contemporânea, estão diretamente ligados à violência, morte e opressão. No entanto, apesar de compartilharem de um objeto de análise concreto, esse debate enfrenta a complexa barreira da subjetividade, afinal, o que um indivíduo julga como engraçado pode ser extremante ofensivo e doloroso para outro.

A partir desse contexto, o comediante ganha sua principal relevância social. Uma vez que o indivíduo que produz humor a partir de assuntos que são objetos de debate público, está, de certa forma, constantemente testando o limite e correndo o risco de ter uma abordagem infeliz que acabe por gerar críticas. Mas, então, qual é a importância disso? O que há de positivo em uma pessoa fazer um comentário ofensivo e sem graça? Bom, a reposta passa exatamente pela graça.

comédia e sociedade
A comédia e a sociedade – uma relação necessariamente conflituosa. | Foto: Reprodução.

A relação entre comédia e sociedade

Ao pensarmos sobre comediantes que fizeram piadas que ofenderam certos grupos, há sempre uma plateia que achou graça daquele texto, ou seja, existe uma parcela social que, por algum fator (falta de vivência, desconhecimento, ausência de empatia e/ou pura e simplesmente por compactuar com a camada mais ofensiva da piada), não foi ferida por aquele comentário. Tal fator evidencia ainda mais como nossa sociedade é desarmônica no entendimento da dor alheia.

Não obstante, o humorista também consegue evidenciar a incoerência discursiva, resultante de mentalidades preconceituosas, de enxergar como engraçado apenas os ataques contra as minorias. Afinal, se você acha tão engraçadas as piadas consideradas transfóbicas, racistas e/ou preconceituosas com religiões de matriz africana e considera “mimimi” reclamar delas, por que você se incomoda tanto com piadas sobre pessoas brancas, homens héteros e/ou a religião católica? E, aqui, que fique bem claro, o direito de qualquer pessoa de se ofender com qualquer piada, mas achar que só as que afetam os grupos sociais dominantes são ofensivas têm nome, e é hipocrisia.

Claro que o humor apresenta potencial de quebra de paradigmas e, por meio do riso, gerar reflexões, mas o humorista não apresenta relevância social apenas quando critica, mas também quando é criticado. Uma vez que, apesar do comediante não necessariamente compactuar com o preconceito presente em suas piadas e realizá-las apenas com objetivo satírico, o mesmo permanece responsável por aquilo que fala. Dessa forma, críticas, processos, boicotes ao seu trabalho, cancelamento digital e outras diversas outras manifestações de descontentamento não serão direcionadas aos fatores sociais por trás da piada, mas sim, a quem a contou.

Tais ações, por sua vez, prestam a função de definir limites, deixar claro quais discursos não são mais toleráveis e “demarcar território no debate social”. Dessa forma, o artista, ao sofrer as consequências de uma piada ofensiva, também é veículo de instrução social, pois ele, ao passar pelo aprendizado sobre os efeitos negativos de seus textos, acaba por disseminar para seu público tal informação. Além disso, há também o fato de que esse artista se sustenta a partir da plateia, logo, se a plateia passa por processos de transformação e começa a repudiar determinado conteúdo, não há razão para que ele seja produzido.

Tendo isso posto, a relação do comediante com a sociedade sempre será em alguns aspectos conflitante, pois o mesmo irá sempre testar os limites da estrutura vigente. Obviamente que há formas de se fazer humor sem ofender pessoas, mas parte do trabalho dessa classe artística é descobrir quais são os assuntos e as abordagens que irão gerar o efeito cômico sem necessariamente serem ofensivas. De tal forma, podemos dizer que o humorista não é apenas um palhaço, mas também um poderoso termômetro social. 

_________________________________
Por Alberto Lucas Favato – Fala! UFMG

Tags mais acessadas