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Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe – Confira a resenha do filme

Por Gabriel Pace – Pipoca Amanteigada

The Meyerowitz Stories (2017)

Direção: Noam Baumbach

Elenco: Adam Sandler, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Grace Van Patten, Elizabeth Marvel.

Sinopse: Harold (Dustin Hoffman) é o patriarca de uma família complicada. Casado com Maureen (Emma Thompson), ele é um escultor veterano menos bem-sucedido do que acha que deveria ser e, entre os vários casamentos anteriores, teve Jean (Elizabeth Marvel), Danny (Adam Sandler) e Matthew (Ben Stiller). Quando o pai tem um problema de saúde, os três devem se unir para cuidar do pai e enfrentar alguns traumas do passado.

Desta vez apresentaremos o famigerado filme que “pode render um Oscar a Adam Sandler”, também conhecido por Meyerowitz Stories (em português Família Não se Escolhe), disponível na Netflix desde a semana passada. O serviço de streaming, cujo logo foi vaiado em Cannes quando da estreia deste filme, apostou nas tramas familiares do nova-iorquino Noam Baumbach e no elenco de pesos-pesados do cinema comercial estadunidense para diversificar seu portfólio e, assim como aconteceu em Okja, conseguiu agradar a grande maioria dos críticos.

Empacotado para o espectador da Netflix desde a proporção da tela até a divisão em capítulos, The Meyerowitz Stories é um daqueles filmes que agrada a vários gostos. Seu corpo é de uma comédia dramática, mas pelo elenco podemos esperar muito mais risadas. Para quem não conhece, Baumbach é um diretor de temas familiares e de grupos, alguns dos principais filmes de sua carreira são A Lula e a Baleia e Enquanto Somos Jovens, que em menor ou maior intensidade vão nos jogando dentro de famílias disfuncionais ou problemáticas e tentando projetar uma universalidade de gerações, anseios e desejos, revestidos de um tom cômico ou de estranheza – pense em uma versão mais soft de Os Excêntricos Tenenbaums, de Wes Anderson.

Por conta disso, o principal mérito do diretor foi sempre trabalhar bem seus grupos – ou suas famílias – em cena. A química que as relações humanas vão construindo deixam os elencos à vontade para fazer um trabalho em conjunto que se sobressai ao individual. O que não significa que não vemos boas ou ótimas performances individuais, mas sim que a dinâmica do grupo importa muito mais. Assim, as melhores cenas de Os Meyerowitz acontecem quando as personagens estão todas juntas ou em conflito. Principalmente  aquelas em que os três filhos de Harold estão juntos e que exploram a estranheza do seu relacionamento.

Estranheza aqui é uma palavra-chave, pois a relação entre os irmãos (ou meio-irmãos, como Danny e Matthew fazem questão de colocar) não é de proximidade e eles vão se conhecendo cada vez mais à medida que se colocam em relação ao pai. Em certo ponto, Jean faz a revelação de um trauma de infância aos outros dois e a câmera de Baumbach vai percorrendo um jardim de uma maneira que deixa bem claro, no espaço, o distanciamento e a tentativa de aproximação entre eles. Em outra cena importante, Danny e Matthew se atualizam sobre suas vidas depois de muito tempo sem se ver e as falas vão se atropelando, deixando transparecer a vontade de cada um de se expor e não de ouvir.

E se os seus problemas e a chance de aproximação se dão pela figura paterna, Dustin Hoffman como Harold cria muito bem a figura de um artista e de um pai mal-sucedido. A sua posição de superioridade em relação ao resto do mundo parece estar na raiz dos problemas com os filhos e explica em partes as suas trajetórias pessoais. Jean trabalha para a Xerox, mas faz filmes do ambiente de trabalho para ocasiões especiais. Danny largou a música e está desempregado. E Matthew, o único bem-sucedido, é contador. Como a herança genética às vezes pula uma geração, Eliza (Grace Van Patten), filha de Danny é a única que decidiu seguir a veia artística do avô e foi fazer cinema (“todos os jovens hoje em dia fazem isso”).

A partir dessa configuração e do problema colocado pela doença de Harold, Baumbach tenta buscar algo de universal, comum a todas as famílias. É o que já havia feito muito bem em relação ao gap geracional no Enquanto Somos Jovens e tem sucesso até certo ponto aqui. A sua força como cineasta é justamente partir do específico para o comum, é alguém perguntar se o médico tem o direito de sair de férias quando seu parente está hospitalizado, é gritar consigo mesmo quando não acha vaga para parar o carro na rua. Mas cada vez mais o seu específico está alojado no mundo Manhattan-Brooklyn-judeu-hipster e tem um nicho muito específico como alvo, assim como o diretor de quem ele tenta ser o herdeiro, Woody Allen.

O filme “perfeitinho” feel-good agrada e diverte, mas não emociona além de uns sorrisos de empatia e pode até trazer uma relação mais próxima com a família representada, mas esta não é duradoura. As atuações dramáticas de pesos-pesados da comédia como Adam Sandler e Ben Stiller, a excentricidade de Emma Thompson e Dustin Hoffman, e as maravilhosas e surpreendentes veias cômicas de Elizabeth Marvel e Grace Van Patten mantém o filme em grande nível durante toda a sua duração, mas não o elevam para além da experiência independente nova-iorquina.

E, não, acredito que este ainda não será o filme que vai render um Oscar ao ator de Pixels e Click. Se ele não teve reconhecimento com Embriagado de Amor, dificilmente terá daqui pra frente. Ainda mais porque uma única vez a Academia deu atenção ao outsider Baumbach, e foi com a indicação de Grace Van Patten para melhor roteiro original em 2006.

 

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