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Mulheres que trabalham com arte em São Paulo

Por Luiza Amaral Guimarães – Fala! PUC

 

São Paulo é uma cidade com diversidades culturais muito evidentes, e a arte não poderia estar fora disso. Basta olharmos os muros grafitados, ou procurarmos por uma exposição no Museu de Arte de São Paulo (MASP), Instituto Tomie Ohtake, ou nas centenas de galerias espalhadas pela cidade.

Espaço é que não falta para que os artistas mostrem suas obras, mas a questão é: de onde vêm tanta criatividade? Como vivem esses profissionais que tornam a vida dos cidadãos mais coloridas e alegres? Para achar as devidas respostas, conversamos com 3 artistas residentes em São Paulo – confira:

01 – Beatriz Chachamovits

Chachamovits em lançamento do Cavabook em SP. Foto: Reprodução.
Chachamovits em lançamento do Cavabook em SP. Foto: Reprodução.

 

Beatriz Chachamovits, 30, é artista plástica. Cursou educação em artes visuais na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), de 2004 a 2008.

“Queria desenhar para o resto da vida”, ela conta, mas o que queria mesmo era fazer animação. No entanto, o curso de animação ainda não existia no Brasil naquela época, então Beatriz foi fazer artes:

“Fui conhecer o mundo das artes plásticas e me apaixonei”.

Na Faculdade, ela aprendeu como trabalhar com os materiais utilizados em desenho, pintura e escultura; a como falar sobre sua arte; entre outros assuntos.

“A arte é feita a partir de um ser humano e o seu campo subjetivo, como ele enxerga o mundo. Quando você faz algo que te afeta, isso te transforma. A partir do momento em que você fala de algo seu, e consegue passar isso às outras pessoas, já as está influenciando o pensamento”, diz a artista.

O trabalho de Beatriz inclui o fundo do mar. Desde que se apaixonou pelo tema, só falou nele em suas artes. É o que alimenta sua inspiração.

“O fundo do mar é o lugar mais místico, fantástico e psicodélico, e fica escondido, ninguém sabe o que acontece lá. Quando fui mergulhar fiquei muito maravilhada, mas, antes disso, quando comecei a desenhar, só via as imagens de livros”.

Conforme foi se aprofundando no ecossistema marinho, mais científico e intenso ficou o seu trabalho. Comprou mais livros e fez mais mergulhos, mas a maioria de sua pesquisa é a partir da internet, pois por não morar perto do mar, não há como sair à campo.

Arte a nanquim de Beatriz Chachamovits.
Arte a nanquim de Beatriz Chachamovits.

 

 “Toda hora estou trabalhando, e sempre há uma espécie nova encontrada. Nesse meio não acaba a informação, a gente conhece apenas 5% das coisas que existem no oceano. No começo, meu trabalho era mais sobre peixes de vários tipos, desde o microcosmo até as baleias – o que comem, onde vivem, o que fazem”, diz a artista.

Hoje, seu trabalho se concentra mais nas questões ecológicas marinhas. “Depois que comecei a pesquisar e entender, não deu para não falar da questão problemática do fundo do mar”, explica. Sua última exposição, na Galeria Tato, abordou a morte devastadora dos recifes de corais:

“O coral quando morre fica branco, então eu parto dessa morte para falar deles, que estão sofrendo, por isso é tão importante que a escultura não tenha cor”, conta Chachamovits.

Esculturas de corais no ateliê de Beatriz Chachamovits.Foto: Luiza Amaral.
Esculturas de corais no ateliê de Beatriz Chachamovits.Foto: Luiza Amaral.

 

Beatriz observa no Brasil muita dificuldade em relação à questão cultural inteira, ainda mais hoje na gestão de João Dória. Desde que se formou, trabalha com artes plásticas e como freelancer, ou seja, também vende suas obras, além de expô-las.

“Minha vida, de forma geral, me levou a entender que eu precisava trabalhar só com a arte para poder fazer dela meu objetivo de vida. Nas artes plásticas você tem que investir para o resto da sua vida, tem que botar dinheiro, pois se você não tem de onde tirar, não tem também como fazer suas obras”, contou a artista.

O gasto com uma arte pode variar de 100 a 10.000 reais, dependendo dos materiais, da quantidade, – entre outros fatores – que serão usados. Além disso, Beatriz já se envolveu com o cinema e moda, fez roupas e montou vitrines, o que também a ajuda financeiramente para que possa continuar trabalhando com a arte. Mas seu trabalho fixo é seu ateliê, no centro da cidade de São Paulo.

Recentemente, participou diretamente de um projeto chamado Ice Cream, que ocupa lugares ociosos da cidade de São Paulo para expor artes e dar visibilidade aos jovens artistas.

“As plataformas para ajudar quem está começando na arte são muito restritas”, conta Chachamovits. Portanto, qualquer oportunidade onde puder mostrar seu trabalho deve ser aproveitada. Todo mundo quer mostrar, e quando você entra num coletivo, as chances de dar visibilidade para o seu trabalho são maiores.

02 – Juliana Mavalli

Foto: Reprodução/Facebook
Foto: Reprodução/Facebook

 

“Meu caderno da escola era 90% desenho e só 10% anotações de matéria. Foi depois de muita frustração e testes vocacionais, que descobri minha vontade por ficar desenhando, e que não havia problema nisso”, diz Juliana Mavalli, 21, designer. Cursou comunicação visual com ênfase em marketing na ESPM.

Foi vendo um blog de tirinhas e ilustrações que ela descobriu a carreira de designer, e que essa área vinha crescendo no mercado de trabalho.

Assim como Chachamovits, Mavalli acredita que os políticos que hoje governam nosso país estão desestimulando os artistas com as novas leis e restrições.

“Essa nova onda de políticos quer acabar com toda e qualquer forma de expressão cultural. O governo não dá importância, o que faz com que as pessoas cresçam acreditando que arte não tem valor, e que qualquer um pode fazer o trabalho de um artista, afinal, é “só um desenho”, “só um texto”, “só um logotipo”.

Mas, apesar disso, ela crê que haja uma saída para os artistas no Brasil. O mercado vem exigindo que os profissionais tenham conhecimentos variados e que se renovem constantemente, portanto, é importante não se limitar somente a uma área

A artista trabalha na empresa Quinto Andar – uma start up recém formada, que ainda tem seu foco maior em pesquisas de mercado e desenvolvimento .

A oportunidade surgiu enquanto trabalhava para o portal virtual feminino M de Mulher, e sua diretora, jornalista, saiu para criar a área de comunicação do Quinto Andar. Depois de um tempo, ela sentiu falta de uma pessoa para fazer as peças gráficas, então propôs que Mavalli fizesse parte do grupo. A designer também trabalha como freelancer nas horas vagas para ajudar no salário que a sustenta num apartamento com seu namorado.

As artes de Juliana Mavalli são o reflexo de tudo que vive, o que é e o que consome.

“Eu amo passar horas em redes sociais como pinterest, niice, designspiration, behance, drible, vendo obras de designers novos, estéticas diferentes, cores, traços. Minha arte tem muitas influências dessas outras que vejo”.

Mas o tema central de seus desenhos são o feminino. Mavalli acredita que cada um tem de lutar pelo que defende com as armas que possui. E no seu caso são o papel e a tinta.

“Em um mundo tão machista, que mata mulheres, é mais do que necessário abordar a igualdade e o feminismo”, fala a artista sobre seus motivos de luta.

Mavalli usa várias técnicas em seus desenhos e artes, mas atualmente tem feito muitas ilustrações digitais e vetoriais, com cores quase monocromáticas. Sua preferência por tais formas de ilustrar é por ser melhor na hora da manipulação no computador – assim pode mudar com mais facilidade as cores, adicionar ou remover elementos, e até transformá-las em gifs.

Arte de Juliana Mavalli.
Arte de Juliana Mavalli.
Arte de Juliana Mavalli.
Arte de Juliana Mavalli.

 

A artista ainda não teve suas artes em uma exposição, mas espera ansiosamente por uma oportunidade. Há projetos futuros em mente e até já postos no papel, – como livros independentes – mas com o tempo apertado ainda não foi possível coloca-los em ação.

 

03 – Carina Gonzalez y Souza

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Nascida na Espanha, a artista Carina Gonzalez y Souza, 44, veio morar no Brasil quando criança, mas só se naturalizou no país recentemente. É graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Católica de Santos.

Antes de entrar na faculdade, tinha dúvida entre os cursos de arquitetura e artes plásticas, mas com a ajuda e conselhos de um amigo curador do museu da Faap, optou pela arquitetura.

“Foi uma boa escolha – ela disse – fiz arquitetura como arte. A imagem como projeto do pensamento são um corpo único de pesquisa e profissão, ambos são uma possibilidade de diagramas para serem trilhados”.

Quanto à situação do artista no Brasil, Carina tem a opinião um pouco diferente das duas artistas anteriores. Ela acredita que certas posturas partem demasiadamente de um consenso geral.

“Todas as pessoas dão verdadeira importância ao que fazem? É muito fácil dizer que não se dá importância para a arte aqui. Cada um que faça sua parte”, explicou a artista.

O incentivo por parte da política com programas culturais e sociais pode ser fraco no país, mas não só devem se mover por isso os artistas, e sim por si próprios.

“Tenho visto que cada vez mais temos que nos posicionar de uma forma que seja verdadeira a nós mesmos. Parte de mim a dedicação e o esforço, um incentivo próprio para eu lutar pelo que gosto de fazer”, disse Gonzalez y Sousa.

Além disso, a artista crê que, por o Brasil ter uma cultura que abraça muitas possibilidades, cores gestos e sons, o próprio povo brasileiro dá um incentivo muito grande de respeito ao outro.

“A gente tem um incentivo de uma cultura muito rica, de poder ver e sincronizar as possibilidades, então vale a pena pensar sob outros pontos de vista”, explicou ela.

Outro ponto importante que a artista levanta são as oportunidades e o que se faz com elas. Ela acredita que em sua vida houve momentos que seus projetos não puderem ser cumpridos por questões financeiras, mas nunca sua carreira foi prejudicada por isso.

A questão da qualidade de vida é muita relativa para a artista. No seu caso, paz, simplicidade, harmonia, afeto, compaixão, ternura, brandura e discernimento, são o que fazem toda a diferença para uma vida verdadeiramente boa.

Não dá para esquecer que precisamos pagar as contas, mas do que eu preciso? Trabalhar com a arte, sem dúvida, para eu poder respirar”, explicou Gonzalez y Sousa.

No apartamento de sua mãe, em Santos, ela também pratica piano e compõe músicas, também pinta suas telas lá, por conta da falta de espaço no lugar em que mora atualmente em São Paulo, onde desenha, escreve, e faz outros tipos de trabalho com arte.

 

Quadros de Carina Gonzalez y Souza na Instituto Miguel de Cervantes. Fotos por: Luiza Amaral.
Quadro de Carina Gonzalez y Souza na Instituto Miguel de Cervantes. Fotos por: Luiza Amaral.
Quadro de Carina Gonzalez y Souza na Instituto Miguel de Cervantes. Fotos por: Luiza Amaral.
Quadro de Carina Gonzalez y Souza na Instituto Miguel de Cervantes. Fotos por: Luiza Amaral.

 

Carina trabalha com desenho, pintura, escultura, fotografia, dança, coreografia, performance, teatro, música, composição, poesia, literatura, filmagem, “tudo que possa fazer o espaço ser uma cena em expressão”, diz a artista.

Hoje, considera que o tema central de sua arte é a liberdade, mas nem sempre foi assim.

“Há uns anos eu diria que não há um tema, só a vontade que me irrompe de cada vez mais me desbravar possibilitando que eu crie, pois a cada passo tem um infinito. Mas agora, e cada vez mais, é a liberdade. Ela passou a ser irmã da dignidade, fraternidade, vida, razão e, principalmente, da igualdade”, ela contou.

As obras de Gonzalez y Sousa são em sua maioria a lápis, grafite, nanquim e tintas óleo e acrílica, mas como diz a artista, “tudo pode ser o corpo de um desenho” – um fio qualquer pode ser parte de uma obra.

Para ela, a experiência artística é um projeto contínuo, portanto, há sempre um projeto futuro, apesar de algumas coisas terem de ficar na prateleira por mais algum tempo.

“Das linguagens que trabalho, tem coisas que quero tornar reais no piano, no cinema, na escultura e na literatura. Um projeto que está me dando muita gratidão de escrever é um livro chamado ‘Casa Vazia’”, finaliza a artista.

 

Confira também:

– A Exposição de Carina Gonzalez

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