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Por trás da moda: O trabalho escravo nas indústrias têxteis

Por Leticia Assis – Fala! PUC

 

O segundo dia da 39° Semana de Jornalismo da PUC-SP teve como encerramento o tema “Por trás da moda: o trabalho escravo nas indústrias têxteis”.

Com mediação do professor Leonardo Sakamoto, a mesa foi aberta com algumas ponderações do docente. Sob o olhar de um período no qual, justamente no mesmo dia da palestra, foi revogada pela ministra Rosa Weber a Portaria do Ministério Público (MP) que muda os conceitos de trabalho escravo, Sakamoto posicionou-se contra a portaria e afirmou que tal norma dificulta a transparência quanto à relação de combate a esse tipo de crime.

Antes de passar a palavra às palestrantes, Sakamoto afirmou que “defender o trabalho escravo, combater de forma firme qualquer maneira de explorar o trabalhador e reduzi-lo a nada, não é apenas função dos profissionais especializados, mas sim função de cada pessoa que desfruta da liberdade enquanto há alguém que continue em cárcere privado”.

Andrea Gondim, do Ministério Público do Trabalho (MPT), que compunha a mesa, discursou para a plateia sobre como o órgão trabalha e deu um olhar técnico sobre a situação dos trabalhadores em situação análoga a escravidão.

Comprometido com a defesa dos direitos sociais do trabalhador, o MPT atua na erradicação do trabalho infantil e do trabalho escravo. “Queremos que exista nenhuma pessoa em situação de redução a condição análoga a de escravo no país”, descreve Gondim.

A procuradora explicou sobre as circunstâncias degradantes de trabalho, que não são somente como quer alterar a portaria, para somente cárcere privado, mas também longas horas de trabalho, a exemplo das trabalhadoras do setor têxtil, que ficam sentadas costurando com o barulho das máquinas, cuidando até mesmo dos filhos de colo, e, muitas vezes, morando e dormindo no mesmo local de trabalho.

Ao final de sua fala, Gondim relembrou aos presentes que “os jornalistas precisam da sensibilidade para entender o que se passa com esses trabalhadores, ainda mais esses que são vistos pelos empregadores não como pessoa, mas sim como bicho.”

A segunda a palestrante da noite foi Fernanda Simon, Coordenadora Nacional do Fashion Revolution no Brasil. Ela contou sobre como o movimento surgiu e sobre as campanhas feitas por eles, principalmente no dia 28 de Janeiro, que é o Dia Nacional do Trabalho Escravo.

Com a pergunta “quem fez as minhas roupas”, a organização acredita ser possível conectar as pessoas  com quem fez essas roupas, ver quem está por trás, conhecer todo o processo e se questionar. Existem marcas que prezam pelo bem estar de seus funcionários, que trabalham dentro das leis e zelam pelo bom andamento do processo, e são nessas empresas que a Fashion Revolution incentiva as pessoas a consumirem.

O grupo também leva em consideração questões relacionadas aos impactos sobre o meio ambiente. “Só em São Paulo, atualmente, são despejadas 26 toneladas de resíduos têxteis no lixões”, afirma Fernanda.

Em seu encerramento, Simon relembrou o quanto é importante que faculdades e até mesmo os próprios alunos colaborem para o crescimento do movimento, a fim de conscientizar cada vez mais pessoas.

Marina Sampaio, representante do Programa Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo, da Superintendência Regional do Trabalho de São Paulo, também pontuou o tema da palestra em relação ao atual momento do país quanto à portaria.

Sampaio também relembrou o Centenário da Greve de 1917, hoje conhecido como Dia Internacional das Mulheres, que também ocorreu dentro de uma indústria têxtil. Essa manifestação reivindicava justamente melhores condições de trabalho, menores jornadas e salários mais dignos.

Foi também mencionado sobre os sistemas de produção usados por essas empresas. Com uma “Cadeira Produtiva”, essas marcas modificam o sistema produtivo de forma que inibem o trabalho de erradicação dos órgãos públicos. Normalmente, toda essa parte de produção é terceirizada pelas companhias que acabam se isentando de todo e qualquer problema futuro sobre as condições de trabalho dessas pessoas.

Ao final de seu discurso, Sampaio falou sobre os entraves políticos enfrentados por ela por conta da portaria. Tal ataque gera uma insegurança jurídica sobre a atuação do programa quanto a resgatar ou não esses trabalhadores.

Marina Colerato, representante do MODEFICA, trouxe um olhar de quem “já trabalhou em uma confecção no Bom Retiro, […] já vivenciou o chão de fábrica”.

Aprofundando mais sobre o recorte de gênero na indústria têxtil, foram discutidas questões como a grande maioria da moda é composta por mulheres, sejam de parte superior ou até mesmo do “chão de fábrica”. Dos imigrantes bolivarianos que chegam ao Brasil, a maior parte são mulheres, sendo estas vindas para trabalhar na indústria da moda em uma situação precarizada.

 “É um reformismo utópico pensar que podemos mudar a sociedade sem tocar nas relações de poder. […] Enquanto pessoas é preciso se colocar no lugar do outro para construir uma sociedade onde o trabalho análogo à escravidão não exista”, estabelece a representante.

Após a fala de todas as palestrantes presentes, e com o auxílio do professor Sakamoto, foram abertas as perguntas ao público. Com dúvidas variadas e direcionadas para as convidadas das mesas, alunos, professores e demais presentes tiveram a oportunidade de conhecer mais de perto o trabalho de cada uma e sanar suas questões quanto à situação desses trabalhadores e de como agir para erradicar essa prática.

 

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