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“Bolandeira”, a literatura a serviço da história

Por Beatriz Gimenez – Fala! PUC

 

De um sonho de uma professora de literatura, surgiu a “Bolandeira – casa de letras e ideias”. Thaís Toshimitsu, 41 anos, mestre e doutora em Teoria Literária pela FFLCH-USP e pesquisadora na USP, sempre quis criar uma mediação entre a escola e a universidade de forma que não fosse um local de estudo tão simples e juvenil, e nem tão técnico a ponto de limitar seus alunos. A professora, especializada em ensino médio, sempre sentiu que seu dever era com os mais jovens e não como uma professora universitária. Dessa forma, em 2014, surgiu a Bolandeira, um curso com enfoque na literatura brasileira, mas, principalmente, preparatório para os principais vestibulares do país: Fuvest e Unicamp. Para ela, os jovens, mais “moldáveis”, podem adquirir o gosto pela literatura se lhe forem apresentados da forma certa.

Thaís, descendente de japoneses e nordestinos, é fruto de uma mistura de duas culturas com muita história para contar. Cercada, desde jovem, pela narrativa, resolveu cursar Letras na USP e seguir na área da gramática, mas, após ter entrado em contato de forma mais profunda com a literatura, se viu apaixonada. Cursou mestrado e doutorado na área e, como não conseguiu a bolsa desejada para sua pesquisa de pós-doutorado, resolveu seguir seu sonho e criar um espaço para pensar, um lugar de liberdade e de reunião de amigos, os quais, atualmente, compõem o leque de professores responsáveis pelos cursos oferecidos.

Mas por que “Bolandeira”? Há três anos, Thaís juntou-se com a amiga Ana Calzavara e as duas iniciaram o projeto de criar um “livro de artista”, objeto de arte em que há a interação entre as artes visuais e a poesia. Enquanto Calzavara lecionava tipografia do século XIX e Thaís dava aula sobre o livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, esta descobriu que “bolandeira” era o nome da caixa de chumbo utilizada na impressão de livros. Além disso, a palavra “bolandeira” aparece no nome de um personagem do livro de Graciliano, Tomás da Bolandeira, fazendo menção à roda de engenho. Tomás é um personagem muito intelectual e a professora achou que esse seria o nome perfeito para unir a literatura, o trabalho e a impressão de livros.

A Bolandeira iniciou-se em março de 2016 em um local pequeno, o qual os alunos apelidaram de “puxadinho escola”. Porém, desde agosto de 2016, o curso divide espaço com o projeto “Corre Cutia – espaço de brincar para crianças”, o qual é ministrado por seu marido, professor de educação física.

Os cursos oferecidos estão em constante mudança, sendo preservados apenas os destinados à preparação para vestibulares, e sobre Machado de Assis, devido à demanda do público pelo autor. Porém, o interesse pelo local ainda pode ser considerado médio, uma vez que, além da atual crise econômica, o espaço ainda não é tão conhecido e seu público-alvo, de vestibulandos, ainda não é, em sua maioria, independente financeiramente e nem têm visão a longo prazo, de forma que a procura é mais intensa quando próximo das grandes provas. Sendo assim, mesmo oferecendo cursos extensivos, com início em março, e semi-intensivos, com início em agosto, o intensivo é o mais procurado.

Com a mudança na lista de livros obrigatórios para a Fuvest e a prova da Unicamp, a Bolandeira sai na frente, já que os cursinhos e as escolas demoram mais para lidar com a mudança do cronograma e do material que deve ser passado para os alunos.

A literatura e a história

De acordo com Thaís, a USP desejava construir um modelo para pensar a formação da literatura e a história brasileira. Utilizando o pensamento de Antonio Candido, a lista foi dividida de acordo com dois momentos históricos: os séculos XIX e XX, da independência do Brasil até o Modernismo, ou seja, de 1875 a 1970, um tempo histórico de aproximadamente 100 anos.

Os livros escritos durante o século XIX são maioria na lista, o que dá grande importância ao período, uma vez que, a literatura sendo anterior à criação da primeira universidade, era a maneira pela qual a história do Brasil daquela época era registrada e posteriormente estudada, além de ser a forma que utilizavam para registrar a nossa cultura. As obras dão ênfase à construção do Brasil pós-colonial e, consequentemente, abordam assuntos como a história do negro no país, principal mão de obra da época, ainda escravocrata. De acordo com a professora, o romantismo abriu espaço para o estudo da interpretação do Brasil que tinham na época, enquanto o realismo e o naturalismo chegaram para desfazer a idealização construída pela estética romântica. Dessa forma, pode-se perceber o papel que a literatura teve como principal registro de cultura e interpretação da nação brasileira da época.

Já, durante o século XX, a história do Brasil ainda era retratada na literatura, mas agora com uma visão mais moderna. Mesmo como um país não escravocrata, as obras registravam a violência das relações de classes e interpessoais, o que mostrava a manutenção de estrutura agrária, violenta e de exportação, uma vez que o Brasil ainda tinha a mentalidade de colônia.

Enquanto isso, a Unicamp não se atém a aspectos históricos, mas sim aos gêneros textuais, entre eles: poemas, contos, peças, romances e sermões. A universidade cobra em seu vestibular uma maior porcentagem de literatura portuguesa e mantém, como tema comum nas obras, a negritude no Brasil. De acordo com Thaís, é muito difícil estudar uma obra sem levar em consideração seu contexto histórico, e é por isso que em seu curso na “Bolandeira”, a professora prefere rearranjar a lista de obras de forma que uma linha temporal seja feita e facilite a compreensão do aluno de o porquê daquela estrutura literária ter surgido naquele momento específico, como um reflexo do momento histórico.

A educação pública e as listas obrigatórias

Thaís começa falando sobre os pontos positivos e negativos da separação de listas entre a Fuvest e a Unicamp. Se, por um lado, a diferenciação é boa para uma melhor definição da linha de formação de cada universidade, por outro, a somatória de todos os livros que devem ser lidos pelo aluno para prestar ambos os vestibulares é muito alta, o que resulta em vários vestibulandos que não leem todos os livros necessários. Outra questão levantada por ela é: até que ponto essas listas incentivam a leitura?

Para a professora, a falta de uma lista de livros fixa e nacional, que represente a literatura mínima necessária para conhecer a história mais básica do país, é um sinal de atraso e um sintoma da educação pública precária. Atualmente, as universidades públicas pautam as leituras de cima para baixo, enquanto o correto seria uma base de educação e leitura adequada que influenciaria nos livros cobrados pelo ensino superior. Dessa forma, a educação pública formaria alunos capacitados para ingressar nas grandes universidades, as quais formariam bons professores que se voltariam para a educação pública para lecionar. Seria um ciclo que, além de melhorar o ensino público, permitiria o aumento no número de alunos vindos do ensino público nas grandes universidades brasileiras, algo que é praticamente impensável na atual educação do país.

Atualmente, 80% dos alunos da USP tiveram educação básica no ensino privado, o que, aos olhos da professora Thaís Toshimitsu, é muito grave. Enquanto isso, a Unicamp utiliza o sistema de cotas e um bônus para ingresso dos alunos vindos do ensino público, o que, para ela, é algo extremamente necessário na USP para a inclusão dos alunos vindos de instituições públicas. Mesmo assim, a professora deixa claro que isso não é um problema especificamente dos vestibulares, mas sim da educação de base.

Algo também levado em consideração por Thaís foi a retirada de certos livros da lista da Fuvest, como “Sentimentos do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade e “Capitães da areia”, de Jorge Amado. Para a professora, o livro de Drummond era ótimo para o início do engajamento político do jovem, enquanto o livro de Amado é uma obra de inclusão e possível identificação do aluno da rede pública, além de ser de fácil compreensão. Além disso, foram acrescentados à lista os livros “Claro enigma”, também de Carlos Drummond de Andrade, e “Sagarana”, de João Guimarães Rosa. “Sagarana” é considerado por Thaís como um dos livros mais difíceis do autor, sendo suas primeiras obras preferíveis para serem cobradas em vestibulares, enquanto o livro de Drummond se caracteriza como livro de desilusão política, além de ser de difícil compreensão para um jovem, sendo seu público-alvo, de acordo com a professora, adultos entre 40 e 50 anos. Para ela, todos esses são fatores que caracterizam a elitização da lista de livros obrigatórios da Fuvest.

A representatividade no vestibular

O livro “Mayombe”, escrito pelo autor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) durante sua participação na guerra pela independência da Angola, é a primeira obra de escritor e temática africana na lista da Fuvest. Para a professora, isso é de grande importância, uma vez que fecha o chamado “triângulo comercial do Atlântico”, composto pelo Brasil, Europa e África. No livro, o negro não é presente somente como escravo, mas é ele quem faz a revolução por sua independência.

A presença de tal obra na lista garante o cumprimento da lei de 1996, alterada em 2003, para tornar obrigatório o estudo da história e da cultura africana no ensino básico, tanto público quanto particular. Atualmente, as escolas, com a alegação de falta de tempo, escolhem um ensino eurocêntrico, uma vez que ainda “somos país de periferia”, como diz a professora.

Além disso, a literatura dos séculos XIX e XX tem como seus principais autores homens da elite, o que, na verdade, é um reflexo da sociedade da época. A leitura e a escrita eram reservadas principalmente aos homens brancos da elite, o que resulta também na falta de mulheres escritoras. O gênero feminino era mais vinculado às artes visuais, o que, mesmo assim, não excluía a mulher como personagem. Grandes exemplos são a personagem Ondina, de Mayombe, e Iracema, de José de Alencar, ambas assemelhando-se a ideais atualmente considerados feministas. Além disso, Sinhá Vitória, do livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, é uma personagem considerada mais inteligente que seu parceiro Fabiano, o qual, ao invés de amedrontar-se diante disso, se orgulha da esposa e do fato de tê-la como companheira. O livro “Minha vida de menina”, de Helena Morley, também tem como personagem principal uma menina, o que dá um olhar infantil, feminino e quase estrangeiro da escravidão, aspecto considerado positivo pela professora, uma vez que abre espaço para diferentes olhares diante da história brasileira.

Qual é a importância da literatura?

De acordo com Thaís Toshimitsu, é dever do vestibular e da universidade produzir conhecimento crítico e base teórica no aluno. Para ela, o mais importante é a formação, ou seja, dar a possibilidade de um sujeito ser autônomo, ter um olhar crítico e sempre estar fazendo perguntas. “Boa educação ensina o sujeito a interrogar”, diz a professora que também cita Paulo Freire: educar para libertar.

É na literatura que o sujeito é ativo. Para Thaís, é somente o abrir do livro que o faz realmente existir. O livro nos permite diferentes lugares e cenários, através da narração e da história, os quais jamais conheceríamos se não fosse pela leitura. É possível “imaginar um mundo diferente para modificar o próprio mundo”.

A literatura, considerada um meio de conhecimento e crítica da realidade, permanece na periferia como forma de luta racial e consciência política. A professora acrescenta que a literatura ainda não morreu mesmo em uma era de fortes estímulos visuais, porque a palavra é uma característica humana que necessitamos. Como diz Antonio Candido, a literatura é um direito e, já que o homem é um sujeito da linguagem, nada melhor do que a palavra para permitir nossa expressão. Como disse a professora Thaís Toshimitsu, “a palavra é um mundo organizado capaz de organizar nosso mundo interno”.

Cursos da Bolandeira

Os cursos extensivos, semi-intensivos e intensivos dos livros obrigatórios para a Fuvest e a Unicamp procuram capacitar o aluno nas áreas de: compreensão de texto, articulação com outras artes contemporâneas, visando a literatura como um ponto de convergência, interpretação crítica do Brasil e compreensão da especificidade da linguagem literária, além de se preocupar com a formação do aluno de forma a “compreender o laço histórico, social e estético que cada livro constitui”.

Além dos cursos voltados para a literatura e a redação no vestibular, também são ministrados “cursos de apresentação e  aprofundamento de grandes autores, obras ou períodos”.

Todas essas e mais informações são encontradas no site bolandeira.com.

 

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