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Confira O Que Foi Discutido no Debate Sobre Jornalismo e Assédio, Realizado na ECA-USP

Na noite de 30 de junho, na Escola de Comunicação e Arte da USP, foi realizado o debate sobre “Jornalismo e Assédio”, proposto por alunas do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE). A discussão foi rica e abordou, principalmente, experiências de atitudes machistas vividas pelas jornalistas e estudantes presentes, tanto no âmbito acadêmico quanto nas redações e ofícios jornalísticos.

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A combinação entre veículos midiáticos e machismo sempre se fez presente, porém, este último tem sido pauta frequente nas redes desde o último dia 18, quando uma redatora do portal iG foi mandada embora, dias após denunciar o caso de assédio vindo do cantor Mc Biel durante uma entrevista. Uma semana depois, a editora do iG que fazia parte dessa mesma matéria, também foi demitida.

Intensificou-se ainda mais o debate na última terça-feira (27), quando 6 professoras foram demitidas do complexo FMU, o Centro Universitário FIAM-FAAM; não por acaso, as seis eram militantes e politicamente ativas na instituição.

As demissões dos dois casos levam como justificativa uma política de cortes de gasto. Dada essa situação, como mulheres que denunciam o que sofrem e/ou se colocam em luta contra o machismo, as alunas sentiram a necessidade de haver essa discussão dentro da USP.

A mesa foi realizada no auditório Lupe Cotrim, no prédio central da ECA – o qual se mantém ocupado pelo movimento dos estudantes em greve – e era composta por seis mulheres, quatro jornalistas convidadas, atuantes da área, uma cientista social e uma das organizadoras do evento, aluna do primeiro ano do curso de Jornalismo e Editoração na ECA-USP, como mediadora. Entre elas: Janaina Garcia, repórter do portal UOL, e uma das criadoras do movimento “Jornalistas Contra O Assédio”, Helen Braun, apresentadora do programa Morning Show da rádio Jovem Pan e professora da FIAM-FAAM, Jéssica Moreira, cofundadora do portal “Nós, mulheres da periferia” e articuladora comunitária da Associação Cidade Escola Aprendiz; Nana Soares, ex-ecana e, atualmente, blogueira do Estadão; Fhoutine Marie, graduada em Ciências Sociais pela UFPA, mestre e doutora pela PUC-SP, especialista em Jornalismo Internacional e, após o episódio da ultima terça, ex-professora da FIAM-FAAM; além da mediadora da mesa, a aluna Mayara Paixão.

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Antes do início das falas, Mayara apresentou dados sobre cerca de 530 jornalistas, sendo que destas mais de 500:

78% já sofreu algum tipo de assédio;

61,5% têm um salário menor do que os colegas homens os quais exercem a mesma função;

78% já presenciaram atitudes machistas dos entrevistados

86% afirmam que mulheres negras têm menos chance na profissão.

A mediadora engata trazendo o propósito do debate: pensar em um jornalismo mais empoderador do ponto de vista feminino, uma mídia igualitária, livre e democrática; além de um ambiente de trabalho menos machista. O debate da noite, fomentado por cinco mulheres que acima de tudo são militantes do movimento feminista, foi permeado por perspectivas de mesmo cunho acerca de como o ambiente de trabalho ainda é incrustado pelo machismo, seja ele explícito ou enrustido.

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Janaina Garcia iniciou a primeira das falas das convidadas trazendo a nós seu sentimento de esperança, por ver um engajamento logo cedo das estudantes da graduação da ECA-USP ao possibilitarem a conversa. Ela apresenta um pouco do que foi o surgimento do projeto “Jornalistas Contra o Assédio”, nascido em um grupo no WhatsApp há aproximadamente duas semanas: “Até quando íamos nos calar frente as inúmeras vezes que isso acontece dentro do jornalismo? Temos que exigir nosso respeito e também condições dignas de trabalho”.

Aperte o play e escute a conversa que tivemos com a jornalista ao final do debate:

Assista ao vídeo da campanha #jornalistascontraoassedio

Como exemplo dessa discussão, Helen Braun – a qual também vivenciou recentemente atitudes machistas em uma discussão com um colega, ao vivo na rádio –, ela destaca solenemente que ao vir para São Paulo se deparou com uma grande redação, onde o salário de cinco homens juntos superava o de vinte mulheres. Para a apresentadora e professora da FMU, a necessidade de “maquiar” as pautas sobre machismo e violência de gênero para que se possa abordá-las ao vivo na rádio ainda é uma constante, “mas eu não queria que fosse assim, eu queria poder falar sobre isso às claras”, diz Helen.

A professora e apresentadora conta sobre atitudes machistas que passam despercebidas do público, como, por exemplo, o ouvinte que liga para reclamar da “grande” quantidade de mulheres falando no programa.

Aperte o play e escute o recado que ela deixou para o Fala! ao final do debate:

Confira também o vídeo do programa ao qual Helen discute com seu parceiro de trabalho:

A mesa de discussões prossegue com Jéssica Moreira, que nos conta sobre o projeto o qual faz parte, “Nós, Mulheres da periferia” (clique AQUI e acesse a página no Facebook):

“Surgiu com o vazio existente na grande mídia acerca das mulheres periféricas. É uma pauta praticamente ausente nos grandes meios de massa”.

Jéssica ressalta a importância de ocupar diversos espaços para discutir a cultura do machismo; para ela o jornalismo periférico deve tratar essencialmente de questões que girem em torno da tríade: gênero, classe e raça. Antes de pensar em comunicação, ela ressalva que é necessário observar as pessoas que existem por trás disso, pessoas estas que foram educadas numa sociedade calcada no patriarcado, estruturalmente machista e racista.

“Enquanto mulher, negra e jornalista, eu vivo uma batalha diária. Falando deste lugar de mulher preta, quando eu tento estar em uma grande redação é sempre um desafio. Primeiro porque eu sou uma moradora da periferia, sou descreditada por conta do meu CEP. Segundo: sou negra”, diz Jéssica, destacando-se veementemente o racismo e o machismo enraizados, e que mesmo em coberturas de áreas periféricas as mulheres negras têm de lidar com desrespeito vindo de seus próprios “companheiros”.

A militante também expõe dados do relatório who makes de news, como instrumento de justificativa  de como as mulheres ainda estão muito ausentes nos meios de comunicação; apesar das salas de aula dos cursos de jornalismo serem dominadas por elas, não é isso que se vê nos ambientes comunicacionais.

Segundo o relatório, apenas 41% das vagas são ocupadas por mulheres, sendo 23% das matérias com temáticas femininas. Inclusive as fontes femininas também são desprezadas, poucos buscam por mulheres quando apuram uma informação. Quando a temática feminina está em pauta, ela é tratada de uma maneira bastante estereotipada, sem levar a reflexão aos leitores e ouvintes. A sociedade trata a pauta feminista como “vitimização” e não fazem uma crítica de como a nossa sociedade está sedimentada no machismo; a comunicação reflete o processo formativo dessa cultura em nosso país.

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Em seguida, entra em cena Fhoutine Marie, que no momento do evento fazia pouco mais de 48 horas que sua demissão havia sido emitida pela instituição FMU.

Ela conta como uma instituição de educação consegue humilhar e colocar as mulheres que ali trabalham em uma situação degradante.  Segundo ela, a universidade sempre alegou que caso fossem dispensar algum professor, estes seriam chamados para uma conversa antes de qualquer medida, porque o interesse da instituição é manter no quadro os professores bem avaliados pelos alunos, como era sua situação; porém nada disso aconteceu.

Homens professores da instituição, acusados de assédio e machismo por inúmeros alunos continuam a dar aula ali, mesmo não tendo uma boa aceitação, nem ao menos sendo qualificados como ótimos professores. A questão levantada por Fhoutine é: em um momento de crise, só existem mulheres incompetentes? Seis mulheres foram demitidas, nenhum homem. Entre elas, duas negras; nenhum homem branco.  Essa é só mais uma amostra de como o machismo, o racismo e a homofobia são práticas institucionalizadas.

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A última da mesa a falar ao microfone é Nana Soares, ex -aluna da ECA-USP, graduada em jornalismo. Nana trabalha atualmente em um blog do Estadão, em que promove discussões sobre gênero, violência e sociedade.

“Eu acho que estou no veículo mais conservador do país”, diz ela, mas afirma que nem todos lá têm o mesmo posicionamento. Ela reitera o que Jéssica havia dito:

“O jornalismo é feito por pessoas. A gente vive em uma sociedade que é machista, que é racista, então isso é reproduzido em larga escala”.

A jornalista destaca o caso Pimenta Neves e o assassinato de Sandra Gomide, ambos, na época do ocorrido, jornalistas do Estadão. O caso ocorreu há 16 anos, mas Pimenta Neves teve seu julgamento apenas em 2006, e sua condenação em 2011 . Para Nana, o dia a dia do jornalismo foi o meio que possibilitou o crime, devido à hierarquia total de gênero e de autoridade existentes dentro das grandes redações; no geral, apenas homens assumem cargos de poder dentro das editorias ou redações. Ela também ressalta a realidade dos focas nesse ambiente, função extremamente explorada – “foca não é gente” -, como algo bastante naturalizado no jornalismo e mais um agravante às mulheres que adentram na profissão. As redações hoje em dia estão totalmente precarizadas, o que torna o ambiente ainda mais fértil para o assédio moral e sexual.

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A noite terminou com depoimentos pessoais de alunos presentes na plateia, os quais relataram casos de assédio por parte de professores no ambiente universitário e colegial. Atitudes machistas e casos de assédio explícito estão cada vez mais vindo à tona e sendo problematizados; não porque agora aconteça com mais frequência, mas sim porque se têm maior espaço para que isso seja falado.

Esse espaço é possível, em grande parte, pelo companheirismo entre as mulheres, seja em coletivos feministas, em grupos de WhatsApp, no ambiente acadêmico, nas redações, onde for. Juntas, (nós) as mulheres são (somos) mais fortes do que a “casinha” na qual o patriarcado tenta prendê-las; juntas, elas lutam (lutamos) contra o silenciamento sofrido diariamente nos ambientes machistas.

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Por: Amanda Negri e Amanda Prado – Fala!Cásper

Fotografia e entrevista: Marcelo Gasperin.

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