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Conheça o coletivo negro AYA

Por: Letícia Ventura – Fala! Anhembi

 

Hoje vamos conhecer um pouquinho do Coletivo Negro Aya, que está ressurgindo dentro da Anhembi Morumbi.

Em nossa entrevista conversamos com Bruna Mara, uma das fundadoras do coletivo. Confira: 

Fala!: Quando o coletivo surgiu?

B.M: O coletivo surgiu em 2016. Eu (Bruna Mara), Jade Vieira e Vitória Nascimento já tínhamos contato com os fundadores de outros coletivos, como o Salto (feminista) e o Colorido (LGBT), e por isso sentimos que faltava representatividade e integração para os poucos negros que compõem o campus Centro da Anhembi – foi aí que decidimos entrar em contato com colegas, outros cursos e  campus, sobre a fundação de um coletivo para pautar nossas questões enquanto universitários, negros, majoritariamente periféricos dentro de uma instituição de ensino privada, com poucas políticas para o ingresso dos nossos.

Fala!: Logo no início das atividades do coletivo, vocês já sentiram o quanto os alunos precisavam dessa iniciativa?

B.M: Após o coletivo ser fundado, surgiram diversas denúncias de racismo e LGBTfobia, e tivemos a oportunidade de criar uma roda no espaço de artes no campus da Mooca, onde a presença de professores, alunos e referências bibliográficas de autores negros são praticamente ausentes. Tivemos também a oportunidade de participar da Semana da Visibilidade, ao lado da Cleide (Conselho Nacional Afro Brasileiro). Porém, devido a falta de recursos, de disponibilidade das pessoas e por diversos problemas pessoais dos integrantes do grupo, tivemos que interromper temporariamente a programação do Coletivo.

Fala!: Por que o nome “Aya”?

B.M: Aya (samambaia) é um adinkra (conjunto de símbolos africanos que povos Ashanti criaram para passar mensagens e ensinamentos) – que significa independência, perseverança, desafio às dificuldades. Escolhemos esse símbolo entre tantos outros, por ser  o que mais representa nossa vida não só no mundo acadêmico, mas na sociedade como um todo.

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Fala!: Qual a importância do ressurgimento do Aya para os alunos?

B.M: Acredito que o ressurgimento do Aya seja de extrema importância não só para quem está entrando agora, mas para nós fundadoras e integrantes que já estavam aqui. Saber que existem pessoas que acreditam na causa e estão dispostas a levar junto com a gente essa missão, só nos mostra que nunca estivemos sós. Espero que esse retorno seja definitivo e que possamos abranger o máximo de pessoas.

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Fala!: No dia a dia, o coletivo consegue conversar e atuar junto a seus participantes?

B.M: Sim, muitas vezes no próprio Whatsapp foram citadas situações externas ou internas a faculdade. O lado bom é que conseguimos ter esse momento de desabafo, no qual os integrantes têm a liberdade de conviver e divulgar suas demandas mesmo que não tenha a disponibilidade de atuar no coletivo. Teve o caso de uma denúncia de racismo em sala de aula, que pudemos fazer uma intervenção na aula da professora em questão e a aluna pôde expor a situação. Obviamente a professora permanece em atividade na faculdade, mas pudemos nos fazer presentes e realizar um debate bem incisivo sobre o assunto.

Fala!: Qual é a maior dificuldade e a maior intenção do coletivo dentro na Anhembi?

B.M: Creio que a maior dificuldade seja a disponibilidade dos integrantes e a integração. Quando falamos de Anhembi Morumbi, temos que pensar no macro sendo micro. Somos poucos diante da grandeza da instituição, e foi fundamental a gente reconhecer isso pra nos libertarmos da culpa nos momentos em que as coisas caminharam a passos lentos. A gente tem uma instituição com profissionais aptos para encobrirem situações de opressão contra um grupo ainda reduzido de pessoas, que têm mil coisas pra fazer até mesmo dentro da faculdade. Outra dificuldade é a divergência de pensamentos e ideais. Para grande parte dos negros, a militância não é importante. A convivência com a branquitude faz com que os mesmos tolerem situações que dentro dos espaços de militância são inadmissíveis. Acredito que para nós, é de extrema importância saber lidar com diferentes vivências e trabalhar na desconstrução e politização dos nossos. Precisamos manter o objetivo inicial de reivindicar as nossas pautas enquanto universitários, fazer com que os poucos negros se tornem muitos, e que não passem “em branco” nesse espaço que nos dá invisibilidade.

Fala!: Vocês devem ter ouvido falar da série “Dear White People”, que é sobre alunos negros dentro de uma universidade com maioria branca. O coletivo acredita que a série representa uma parte do que realmente acontece?

B.M: A série materializa os diversos perfis de pessoas negras que encontramos na sociedade. Criou-se uma identidade muito grande devido a várias situações, que são praticamente iguais e constantes. DWP [a série] retrata uma luta de coletivos negros muito mais sólida do que temos hoje, e acho exemplar a forma com que – mesmo com divergências de pensamentos – eles consigam de certa forma atuar juntos. A luta deve ser constante e incisiva. Acredito que temos que gerar incômodo e produzir conteúdo informativo, porque vejo que muito da luta negra é associada a mera revolta de jovens cegos de raiva, sendo que passamos por situações que às vezes são massacrantes – e acredito que essa raiva que sentimos vem muito da nossa impotência, e que ela é um importante combustível, fazendo com que a gente queira mudar aquilo, reivindicar mesmo que a solução não seja imediata. O coletivo deve ter a racionalidade para lidar com a instituição, e ao mesmo tempo ter discernimento para lidar com as demandas dos integrantes. Com o passar do tempo podemos encontrar esse equilíbrio.

Fala!: Ainda sobre a série, DWP nos mostra alunos brancos que entram na luta, e que no começo não são bem vistos pelo grupo por não entenderem de fato como é sentir o racismo. É válida a ideia de que todos os alunos (independente da cor) possam se unir a essa luta (seja cortando amigos com piadas ofensivas, ou até mesmo tendo consciência de que uma atitude x seria ruim)?

B.M: É válido que todas as pessoas – independente de cor – contribuam com a luta, e mais importante ainda que todos saibam o seu local de atuação. Os brancos precisam, primeiramente, reconhecer seus privilégios e entender que reconhecê-los não significa abrir mão deles. Outro ponto é denunciar e desconstruir o racismo por parte de seus colegas – não adianta frequentar espaço de militância negra e depois dizer que chamou o amigo de “macaco” porque tem intimidade, ou se deparar com um caso do racismo e não se posicionar. Acho que a gente precisa dialogar com as diversas frentes – porque apesar de serem majoritariamente brancas – são pessoas que têm acessos a espaços que nós não temos. Um exemplo disso foi quando fizemos reunião com integrantes da GRIFO (Atlética de Comunicação da Anhembi) para falar sobre racismo dentro de um evento deles. Conseguimos, juntos, produzir um material audiovisual na semana da Visibilidade, que inclusive foi proposto por um integrante do Coletivo Negro que atua na GRIFO. Então, é importante que possamos dialogar com outras lideranças para compor outras frentes, pois se eu, integrante do Coletivo Negro Aya estiver dentro de uma atlética, ou de qualquer outra entidade acadêmica, nenhum grito de guerra, nenhuma campanha de divulgação que passar por mim será racista ou misógina, porque temos a vivência e a iniciativa de dizer que isso oprime um certo grupo de pessoas. Com as pautas dos movimentos negro, feminista e lgbt sendo massivamente citadas, rola por parte dessas lideranças brancas uma mínima preocupação com a responsabilidade social, pois eles estão conscientes de que podemos cobrar a mudança caso algo saia da linha.

Fala!:  O racismo vem muitas vezes de maneira sutil e é silenciado?

B.M: Por ser cultural e estrutural, o racismo sempre esteve nas pequenas coisas que formam o todo, que chamamos de sociedade. O racismo é um sistema multifacetado e eficiente que sempre cumpriu a missão de manter nós,  negros, na base da pirâmide social, e assim nos dar o dobro de obstáculos pra sair de lá. Vão falar de democracia racial enquanto matam um jovem negro a cada 23 minutos, e no fim ainda vão dizer que todas as vidas importam. Brancos vão reforçar que somos todos iguais enquanto todos os seus empregados são negros.  Obviamente vão silenciar sua denúncia, sua dor, seu luto, porque racismo é uma palavra muito pesada pra explicar o fato de você ser perseguido nas lojas, tomar 111 tiros ao sair pra comemorar seu primeiro salário. Para o branco e para o Estado, racismo é um termo muito radical pra explicar o fato de que a maior parte da população carcerária e marginalizada é negra. Vão te tirar todas as oportunidades ao básico e dizer que você não se esforçou. Então, o racismo é só brincadeira, racismo é inveja, racismo é doença, racismo é qualquer coisa, menos racismo. Vão sempre arrumar uma justificativa pra defender o opressor, e o oprimido tem que superar e seguir em frente com educação, calma, sem direito a nada além da impotência de não ter alguém que o defenda na mesma proporção em que ele é acusado. Um aluno da USP foi processado e teve que pagar multa pro cara que foi racista com ele.

Fala!: O que podemos fazer mediante a uma situação racista no meio universitário, por exemplo?

B.M: É difícil pensar em algo na hora que a situação acontece, é difícil não perder a razão quando uma professora faz uma “brincadeira” racista. Acredito que não perder a razão seria o primeiro passo. Não agredir física ou moralmente é um grande passo também. É importante fazer um documento escrito falando sobre a situação e reunir testemunhas. Muita gente não leva a denúncia adiante por achar que não resolve, ou por achar ser um processo muito demorado e desgastante. Apesar da Lei Anti-Racismo existir, não existem punições incisivas ou um judiciário que faça com que essa lei seja de fato cumprida, e que os acusados paguem por isso. Apesar da dificuldade, nós estamos tentando disponibilizar um espaço onde vítimas de racismo sejam atendidas e orientadas.

Fala!: Todas as universidades deveriam ter um coletivo negro? Por quê?

B.M: Sim. É fundamental ter um grupo que represente os poucos negros que frequentam os espaços acadêmicos, entendam suas pautas e criem políticas necessárias para a permanência dos mesmos num ambiente tão hostil quanto a universidade.

Fala!: Se alguém quiser entrar para o AYA, deve entrar em contato por onde?

B.M: Quem quiser fazer parte do Aya pode mandar mensagem na nossa página do Facebook, e lá nós encaminhamos pra algum representante do campus que essa pessoa estuda.

Clique AQUI e acesse a página do coletivo AYA no Facebook

 

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