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LGBTfobia – Coletivo Colorido opina sobre a ‘Cura Gay’, ‘Queermuseu’ e outros temas

Por: Beatriz Mazzei e Leticia Ventura – Fala! Anhembi

 

Os coletivos estudantis estão cada dia mais consolidados e engajados em suas pautas. É por meio deles que assuntos importantes ganham mais visibilidade. Na Anhembi Morumbi, por exemplo, o Coletivo Colorido surgiu no começo de 2016 por iniciativa de dois alunos de cinema – Paulo Galvão e Giovanna Meschiatti.

Desde então, o Coletivo se organiza com o intuito de representar todos os alunos da comunidade LGBT e sua luta constante por direitos em todos os espaços – dentro e fora da universidade.

Dia mundial da visibilidade lésbica. Foto: Facebook / Coletivo Colorido.

 

De acordo com Juliana Borba, estudante de Rádio TV e representante do coletivo, o meio universitário reflete o que acontece na sociedade – e por isso ele é um bom ambiente para as mudanças sociais:

“Os jovens estudantes são os cidadãos que votam, que lidam com outras pessoas em seus trabalhos, em festas e dentro de suas casas. Se nós conseguirmos conscientizar esses jovens, são eles que vão fazer a mudança do lado de fora da universidade”, diz Juliana.

Com o objetivo de trazer a transformação, o Coletivo já criou a Semana da Visibilidade em parceria com os outros coletivos da Anhembi (o feminista e o negro). Além disso, participaram de manifestações, passeatas e outros eventos sobre a pauta LGBT.

Nas últimas semanas, o encerramento antecipado da Exposição Queermuseu, que estava em exposição no Santander Cultural, colocou em voga o debate sobre liberdade de expressão e censura no país. Além desse fato, o projeto de lei 4931/2016, conhecido popularmente como “Cura Gay” segue tramitando na câmara.

Uma das obras expostas na exposição Queermuseu.

 

O texto propõe a autorização e aplicação de terapias para “a mudança da orientação sexual, fazendo com que o paciente deixe de ser homossexual e se torne heterossexual”. A decisão liminar do juiz federal – que permite aos psicólogos oferecerem esse tipo de tratamento – agitou o país nos últimos dias, não só nas redes sociais como em manifestações contrárias à lei, que reuniram milhares de pessoas em diversas capitais brasileiras.

Manifestação movimentou a Av. Paulista na sexta-feira do dia 22. Imagem: Folha de SP.

 

Sobre esses assuntos, o Fala! buscou conversar com as meninas do Coletivo Colorido. Foi assim que a estudante Bruna Calanzas falou com a gente, dando sua opinião e compartilhando experiências pessoais que podem ajudar muitas pessoas a rever e refletir sobre a situação da comunidade LGBT. Confira:

Fala!: O que vocês pensam sobre a liminar que deseja oferecer tratamento psicológico para a homossexualidade, inserindo a ideia de “reorientação sexual”?

B.C: Essa liminar, que foi aprovada pelo juiz do Distrito Federal é muito triste. É deprimente ver esse tipo de pensamento chegando a esse patamar, porque em pleno ano de 2017, as pessoas ainda acham que a homossexualidade é uma doença. Ainda falando sobre esse tema – eu tenho 22 anos de idade, sou a assumida há uns 5 anos e ainda não tenho uma relação 100% com a minha família. Porém, hoje não há nenhum tipo de tentativa para me agredir fisicamente, esse tipo de coisa… E eu digo hoje em dia, porque quando eu me assumi foi muito difícil, eu passei por uma experiência muito traumática. Então, essa decisão (a liminar do juiz) não vai ter um impacto muito grande na minha vida em relação ao que eu sou, porque eu já sei quem eu sou, eu já tenho certeza da minha sexualidade. Mas eu faço parte de um conjunto maior do que eu, de uma sigla chamada LGBT, que envolve toda uma comunidade com as mais diferentes histórias de vida.

Fala!: Como você acredita que essa lei pode afetar a vida das pessoas LGBT?

B.C: Eu tenho visto muitas pessoas defendendo essa decisão com o seguinte argumento: “Ah, a pessoa recorre ao tratamento apenas se ela quiser, etc” – só que na realidade, dependendo da família em que você está inserido, quando você se assume a reação é de que você realmente está doente. Então, muitas meninas e meninos são obrigados à ir ao psicólogo porque o pai ou a mãe acreditam que isso irá reorientar o filho, sexualmente falando. Então, permitir que profissionais façam esse tipo de tratamento é muito perigoso, porque toda a experiência de se assumir, de “sair do armário” já é muito traumática por si só.

E Bruna ainda completa:

“Falando em proporções de Brasil, a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos e isso é assustador. E tem mais, o Brasil é o país da América Latina com mais casos de depressão. Os casos de suicídio têm aumentado, e entre as pessoas LGBT, e principalmente entre as pessoas trans, esse número é ainda maior. Então, o fato de permitir que a gente seja visto como pessoas doentes, e que profissionais atuem pra tentar nos reorientar, é realmente muito perigoso”.

Fala!: O projeto de lei conhecido como “Cura Gay” está sendo apoiado pela bancada religiosa. O que você pensa sobre o limite da religião na esfera da política?

B.C: Não se trata de uma mera coincidência de que pessoas evangélicas estejam por trás dessas decisões. A minha família é evangélica e eu sei como essa religião pode ser intolerante. Claro que não estou generalizando (como eles fazem conosco), mas partindo do princípio da minha experiência, é muito opressor. E não só com a comunidade LGBT, mas com mulheres e pessoas de outras religiões. Basicamente, se você não concorda com aquilo, você está automaticamente errado, e ainda é taxado como uma pessoa “do mundo”.

Ainda sobre o tema da bancada religiosa, Bruna complementa:

A religião, assim como outros núcleos das nossas vidas em sociedade, possui uma função. A religião deveria oferecer um consolo. Um lugar de fé, uma ligação com o mundo divino e por aí vai, assim como o governo e o Estado têm suas funções. A partir do momento em que a religião passa a realizar uma função que não lhe cabe, as coisas não funcionam.

“O Brasil é um país laico, mas as pessoas não” – ‘A laicidade é uma forma de tornar o estado democrático. Da mesma forma que existem pessoas que creem em alguma religião, existem outras que não. E isso não deveria interferir em como cada indivíduo é visto. O limite da religião na esfera política é imaginário. Está apenas num papel escrito. E mais uma vez, isso é extremamente perigoso’ – afirma Bruna.

Fala!: O encerramento da Exposição Queermuseu, do Santander, trouxe questionamentos em relação à liberdade de expressão. O que vocês pensam sobre o posicionamento do Banco?

B.C: Sinceramente, quando eu li as primeiras notícias, aquilo me deixou tão perplexa que até preferir não entrar muito no assunto. O conceito de arte para o brasileiro (e por brasileiro eu digo a massa mesmo) é muito dissipado e está apoiado somente naquilo que é belo. Culturalmente, o nosso país tem uma visão deturpada sobre o que é arte. Veja, o conceito de arte, em essência, não está inserido no nosso dia a dia. Exemplo disso foi a discussão no início do ano, quando o Doria decidiu apagar os grafites nos muros de São Paulo. Aquilo era arte, não era?!

Bruna conclui sua visão sobre a exposição com o seguinte pensamento:

“A exposição Queermuseu falava sobre gênero, sexualidade, LGBTs, enfim… E a gente sabe que esses são temas que as pessoas viram a cara quando se toca no assunto. A exposição queria despertar isso nas pessoas: uma reflexão sobre esses assuntos. Assuntos esses que as pessoas rejeitam, e mais uma vez, rejeitaram. A arte é reflexo das emoções humanas, e as emoções humanas não são sempre lindas e floridas. Talvez isso seja o motivo de tanto incômodo. A verdade dói e machuca”.

As manifestações da Comunidade LGBT

O 2º Grande ato contra a liminar ocorrerá esse sexta-feira (29), às 17h, no vão livre do MASP. O 1º Ato contou com mais de 15 mil pessoas entre organizações de esquerda, coletivos LGBT e demais apoiadores da causa.  Saiba mais no evento do facebook.

Mutidão do último ato. Imagem: G1.

 

Confira também:

– Mackenzie repudia a mostra Queermuseu e o Banco Santander. E você, o que acha?

– Coletivo Colorido cria movimento para arrecadar doações para a Casa 1

 

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