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Adoniran Barbosa, o eterno pai do samba paulista

Por Débora Bandeira – Fala! PUC

 

O legado do compositor que fez de seus versos um retrato paulistano.

Chapéu preto de lado. Bigode. Terno. Gravata borboleta. Assim se apresentava o pai do samba paulista, Adoniran Barbosa.  Aquele que eternizou a sua história junto à da cidade de São Paulo, enfrentando o preconceito linguístico sobre suas letras que traziam o modo regionalista e informal de falar dos moradores dos bairros populares da cidade.

Suas composições retratam o cotidiano das pessoas mais pobres na maior metrópole do país e, em novembro de 2016, se tornaram patrimônio histórico cultural paulistano. Nesse 6 de agosto, o sambista completaria 107 anos de idade.

A história de Adoniran se confunde com a de São Paulo

 

O marcante nome da história do samba, entretanto, é artístico. Da junção de “Adoniran”, nome de seu melhor amigo, e de “Barbosa”, homenagem ao cantor de samba carioca Luís Barbosa, João Rubinato adotou o pseudônimo que mistura camaradagem e admiração.

Trem das Onze”, “Saudosa Maloca”, “Samba do Arnesto”, “Iracema”, “Tiro ao Álvaro” são só algumas das suas composições mais famosas que marcaram a história da música brasileira. As canções retratam crônicas da rotina e personagens da vida paulistana, sobretudo no subúrbio, carregadas de inspirações na vida real.

Adoniran, por exemplo, nunca morou no Jaçanã. Sua relação com trem está ligada à sua jornada diária entre a cidade de Santo André, onde morava, a São Paulo, onde trabalhava. Entretanto a palavra “amanhã” não rimava com o nome da cidade. Santo André perdeu para a licença poética, que consagrou a região norte da maior cidade do país.

Homenagem do Google a Adoniran Barbosa e o Trem das Onze (Foto: Reprodução/Google)

 

Trem das Onze
Não posso ficar nem mais um minuto com você
Sinto muito amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
Que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã
Além disso, mulher
Tem outra coisa
Minha mãe não dorme
Enquanto eu não chegar
Sou filho único
Tenho minha casa para olhar
E eu não posso ficar

 

Arnesto existiu, mas nunca o convidou para um samba no Brás e deu um bolo no colega. Seu nome, na verdade, era Ernesto Paulelli. Ambos se conheceram na Rádio Record, apresentados pela cantora Nhá Zefa. “Seu nome dá samba, vou fazer um samba pra você”, teria dito Adoniran, que 17 anos depois havia cumprido a sua promessa.

“Um dia fui conversar com o Adoniran e perguntar que história era aquela de dar um bolo nele. Com aquela voz rouca ele me respondeu: ‘Arnesto, se não tem bolo não tem samba […]’ ” disse o próprio Ernesto Paulelli em entrevista ao Portal R7 no centenário do sambista.

A maloca (habitação onde moram várias pessoas), de “Saudosa Maloca” também era real. Certo dia, Adoniran passeava com seu cachorro Peteleco, quando encontrou seu amigo Matogrosso desesperado, pois seria despejado e sua casa, demolida. O compositor decidiu, então, relatar o descaso do governo com a população das camadas mais baixas em busca do “progresso”.

“Iracema” foi inspirada na notícia de um atropelamento na Avenida São João. A partir disso, Adoniran criou a história de uma mulher que estava prestes a se casar e que morreu atropelada na famosa avenida do centro de São Paulo.

O sambista era mais do que compositor, era um cronista da vida urbana paulistana. Os personagens faziam parte não só do seu dia a dia e de suas músicas, como também abrangiam a sua faceta como ator e humorista, que também marcaram o rádio, o cinema e a televisão no Brasil.

 

Trajetória

Filho de imigrantes italianos, nascido em 1910 na cidade de Valinhos, interior de São Paulo, Adoniran enfrentou a pobreza. Morou em Jundiaí e em 1924, se mudou pra Santo André, na região metropolitana. Ainda na infância, abandonou os estudos para contribuir com o sustento da família. As profissões foram várias, entre elas, pintor, garçom, vendedor, engraxate e entregador de marmitas.

Aos 22 anos se empregou como vendedor de tecidos em São Paulo e, a partir disso, deu início a sua carreira, participando de programas de calouros no rádio. Sua voz fanha o fez ser desclassificado diversas vezes. Apenas em 1933 conquistou o primeiro lugar no programa de Jorge Amaral, interpretando “Filosofia”, de Noel Rosa. Em 1935, a composição “Dona Boa”, em parceria com o maestro J. Aimberê, ganhou um concurso de marchinhas de carnaval promovido pela prefeitura.

Em 1941, a sua contratação pela rádio Record como locutor abriu grandes portas para sua carreira. Lá, Adoniran desenvolveu outra grande faceta: a de ator cômico. Personagens como o malandro “Zé Cunversa” ou “Jean Rubinet”, um galã francês de cinema, ganharam os ouvidos das casas paulistanas.

Lá, Adoniran conheceu o grupo Demônios da Garoa, responsável pela gravação de suas maiores canções. Sua primeira composição gravada pelo grupo foi “Malvina”, premiado no Carnaval paulista de 51, dando início a uma grande parceria.

Quatro anos depois, essa parceria rendeu um grande fruto: a interpretação de “Saudosa Maloca”, uma das mais marcantes obras de Adoniran e seu primeiro sucesso. Após isso, outra canções como “Samba do Arnesto”, “As Mariposas” e “Abrigo de Vagabundo” também foram gravadas pelo grupo de samba.

Mas foi em 1964, com “Trem das Onze”, com a saga do jovem que não pode perder o trem, que Adoniran se consolidou. No ano seguinte, a canção foi premiada no Carnaval do Rio de Janeiro e eternizou a região do Jaçanã, na zona norte de São Paulo. Hoje, é a sua mais lembrada canção, gravada em 19 línguas diferentes, de acordo com o músico Sérgio Rosa, do Demônios da Garoa.

Em 2000, a Rede Globo organizou um concurso para que o público escolhesse qual música mais representava a cidade de São Paulo. “Trem das onze”, um verdadeiro cartão postal sonoro, venceu.

Entretanto suas composições recheadas de informalidade lhe renderam muitas críticas. Adoniran Barbosa compunha com base na linguagem popular regionalista dos bairros do Brás e do Bixiga, onde viviam os trabalhadores e imigrantes.

Despreocupado com a grafia e com a gramática imposta pela norma padrão, o compositor recebeu diversas críticas, inclusive de Vinícius de Moraes. Sem se importar, Adoniran musicou uma de suas poesias, a “Bom Dia, Tristeza”.

Adoniran Barbosa e o Grupo Demônios da Garoa na Estação Jaçanã (Foto: Reprodução)

 

Em relação às críticas, respondia: “só faço samba pra povo. Por isso faço letras com erros de português, porque é assim que o povo fala. Além disso, acho que o samba, assim, fica mais bonito de se cantar”.

Dessa forma, o pai do samba paulista, empregava em suas letras a forma do povo de falar, desconsiderando concordâncias verbais, uso correto do plural e troca de fonemas, por exemplo, aproximando sua linguagem de seu povo.

Variante linguística apresentada em suas músicas (Foto: Reprodução)

 

As mariposas
“As mariposa quando chega o frio
Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá” […]

 

Samba do Arnesto
“Nóis fumo e não encontremos ninguém
Nóis vortemo cuma baita duma reiva
Da outra veiz nóis num vai mais”

 

O músico também ganhou as telas brasileiras. Em 1945, deu início a sua carreira no filme “Pif-Paf”, dirigido por Ademar Gonzaga. No ano seguinte, também do mesmo diretor, atuou em “Caídos do Céu”, Em 1953, participou de “O Cangaceiro”, de Lima Barreto.

No início da década de 70, começou sua participação na televisão, primeiramente em programas de humor como “Ceará Contra 007” e “Papai Sabe Nada” da TV Record, chegando a fazer novelas como “Mulheres de Areia” e “Os Inocentes”.

Adoniran só chegou a gravar seu primeiro disco individual em 1975, quando começou a se tornar popular nos meios de comunicação como sambista. O segundo foi gravado no ano seguinte, e o último, dois anos antes de sua morte, em 1980. Nesse mesmo ano, o compositor escreveu “Tiro ao Álvaro”, outro grande sucesso, interpretado por Elis Regina, sua fã declarada.

Elis Regina ao lado de Adoniran (Foto: Reprodução/ Catraca Livre)

 

O sambista, compositor, ator e humorista paulista morreu no Hospital São Luiz, em 23 de novembro de 1982, vítima de um enfisema pulmonar. Viveu seus últimos anos na pobreza, assim como nos seus primeiros anos e desiludido quanto às mudanças ocorridas na cidade de São Paulo. “Até a década de 60, São Paulo ainda existia, depois procurei, mas não achei São Paulo. O Brás, cadê o Brás? E o Bixiga, cadê? Mandaram-me procurar a Sé. Não achei. Só vejo carros e cimento armado”, disse, em uma de suas últimas declarações.

Paradoxalmente, Adoniran Barbosa morreu esquecido e, ao mesmo tempo, eternizado na memória da capital paulista, principalmente daqueles vivem nos bairros do Brás, do Bexiga e do Jaçanã e, diariamente, não podem perder o trem.

 

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