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A sala de aula invertida – saiba mais sobre a realidade do cursinho popular da USP

Alunos da USP se desdobram em assistir aula e lecionar para futuros universitários.

A educação está em transe. Há séculos é interpretada como uma relação de obediência entre aluno e professor, mas já existem modelos que fogem dessa linha ao democratizar o ensino e fazê-lo pela troca de saberes e maior acesso à universidade sem colocá-la como um tabu para os futuros ingressantes.

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Aulas do cursinho acontecem em salas do Instituto de Psicologia (IP) da USP. Créditos: Caio Nascimento.

 

Ao redor do mundo, países já têm mudado seus modelos de se ensinar e aprender. Diante disso, muitos universitários já agem na contramão desse sistema, encabeçando projetos educacionais para ajudar pessoas de diferentes idades à superarem essa barreira. Em conversa com Fernanda Lopes, do 6º semestre de Pedagogia e coordenadora do Cursinho da Psico, localizado no Instituto de Psicologia da USP, ela nos conta como funciona o projeto que ela participa:

“A gente se classifica como um coletivo autônomo e de construção. Todo mundo constrói esse espaço. Fazemos reunião de gestão e os alunos participam e dão suas opiniões. Não temos uma hierarquia de cargos. Tentamos permear nossas relações na horizontalidade. Além disso, trazemos militantes da causa LGBT, coletivos negros e coisas do gênero para debater com os nossos alunos. No que diz respeito ao ensino, tudo isso para mim é uma educação construtivista”. Para Fernanda, conciliar a faculdade com essa experiência requer esforço:

Durante a entrevista, Fernanda lembrou com carinho da ex-aluna Lusiane Souza. A recém chegada no curso de Letras da FFLCH-USP, saiu do Piauí aos 18 anos para vir à São Paulo estudar e conquistar uma vaga na USP. Ela teve que se adaptar em uma nova realidade paulistana, diferente da que vivia na casa de taipa da pequena cidade de Beneditinos, no Piauí, onde cresceu. A moça, que hoje tem 21 anos, se superou e conseguiu alcançar seu sonho de ter um ensino de qualidade, após dois anos estudando no Cursinho da Psico.

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Lusiane Souza, 21 anos. Aluna de letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Créditos: Lusiane Souza.

 

“Terminei a escola pelo ENEM, no Piauí, porque era difícil conciliar estudo e trabalho. Eu sempre ouvia no rádio ou na TV o nome de quem tinha passado no vestibular. Nisso, decidi prestar o vestibular. Vim para São Paulo e entrei no cursinho popular da ‘Psico’. Foi a primeira vez na minha vida em que eu tinha entrado no campus de uma universidade; primeira vez na vida que tive a chance de ver de perto aquilo que eu tanto quis a vida toda. Tive também, pela primeira vez, todo o apoio do mundo para estudar, mudar o rumo de tudo. Estudei por dois anos. Ia para o cursinho certa de que aquele seria o último dia em que iria. Era cansativo demais. Sempre voltava para casa fazendo planos de estudo para o dia seguinte, garantindo a mim mesmo que valeria a pena, a fome, os medos, a saudade. Eu iria passar, iria ouvir meu nome no rádio. A gente cresce rodeado de mitos e medos, e a universidade era um mito, o maior deles. No final das contas eu passei. Infelizmente, não ouvi meu nome no rádio, mas me disseram que soou e ecoou em tom máximo na sala de Taipa da casa simples onde eu cresci”, conta Lusiane.

QUANDO A SALA DE AULA SE TORNA PEQUENA

A democratização do ensino por parte da comunidade acadêmica se expande também para outros fins. Nem tudo cabe na sala de aula. Ampliar o universo da educação com ideias alternativas de ensino sem se pensar no vestibular, é uma ferramenta importante para formação humana, como é o caso do Projeto Redigir. O Redigir é um projeto de extensão criado pelos alunos da ECA-USP em 1999. O objetivo é recompensar a sociedade – que custeia a USP por impostos – oferecendo aulas de português a fim de fomentar ideias e formar cidadãos críticos. O curso conta com ensinos de literatura, gramática, e passeios culturais para que os educandos se vejam como sujeitos da própria língua, e assim possam exercer e questionar seus direitos e deveres. Segundo a equipe do coletivo, o projeto conta com princípios de igualdade e diálogo entre professores e alunos, para que um possa aprender com o outro.

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Educandos e educadores do Redigir em visita ao Museu da Língua Portuguesa. Créditos: Nairim Bernardo.

 

No campo das artes, a seleção do vestibular é exigente e cobra assuntos que a maioria das escolas não abordam. Para cobrir esse déficit que muitos futuros universitários carregam, alunos da FAU-USP criaram o CursinhoLA. Um curso de linguagem arquitetônica que é voltado para provas específicas de arquitetura e urbanismo, design, entre outros. Ele conta com aulas de desenho geométrico e artístico para uma variada turma de educandos. “A relação com professores não existe. Não existe porque os professores se colocam como amigos, algúem que quer passar o que sabe, mas que também se importa com o que você tem para passar. Eu amo o CursinhoLA. Ele me fez abrir horizontes.”, conta Guilherme Cajaiba, ex-aluno do projeto.

Além disso, envolve não só um aprendizado focado no vestibular, mas também visitas à ambientes inspiradores para um bom desenho e o contato com culturas visuais importantes para carreira.

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Educando do Redigir diante de um texto que problematiza a questão fundiária e cultural. Créditos: Nairim Bernardo.

 

MOBILIZAÇÃO FORA DA CIDADE UNIVERSITÁRIA

A Cidade Universitária não é o único campus a abrigar projetos sociais. Na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), universitários de diferentes cursos organizam um cursinho popular com aulas previstas para o 1º semestre desse ano. Os organizadores do coletivo são esperançosos e já contam com um vasto acervo de livros didáticos.

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Educadores e educandos em aula aberta no Paço das Artes, centro de São Paulo. Créditos: Conrado Vivacqua.

 

O Cursinho EACH vem sendo planejado desde o ano passado, e todos os professores ainda estão na faculdade. Paloma Sanches, diretora-geral do projeto, é uma das colaboradoras que ainda ocupa cadeiras na universidade. Ela cursa Gestão de Políticas Públicas na USP, e encara com bastante responsabilidade o fato de precisar adequar os horários do seu curso com a as aulas, que em breve terá que lecionar.

“Trabalhar no cursinho é muito puxado, mas me satisfaz bastante. O que me move é acreditar que estarei ajudando a minimizar a desigualdade de acesso à universidade pública. Na prática, estamos ajudando pessoas de baixa renda a realizarem o sonho de fazer uma graduação e mudarem suas realidades. Lidamos com o futuro das pessoas, e isso exige muita responsabilidade e cuidado. Espero que, no futuro, os cursinhos populares sejam cada vez menos necessários, e o acesso à universidade pública seja a mesma para todos”, conta Paloma.

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Educandos do CursinhoLA em desenho coletivo no Paço das Artes, centro de São Paulo. Créditos: Jayne Andrade.

 

 

 

Por: Caio Nascimento – Fala! USP

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